Veneno é o prato do dia

Por Anna Beatriz Domingues, Everton Lacerda, Luíza Ester e Matheus Olsen

No cultivo das frutas e dos legumes comprados por você, nos supermercados e em feiras, foram utilizados algum tipo de veneno? Certamente, sim. Os agrotóxicos, também chamados de pesticidas ou produtos fitossanitários – químicos aplicados para evitar doenças, insetos ou plantas daninhas nas plantações – estão presentes, consequentemente, na maioria das refeições dos brasileiros. Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), desde 2008 o Brasil ocupa o posto de campeão mundial no uso de agrotóxicos em suas lavouras.

“O Brasil ocupa o posto de campeão mundial no uso de agrotóxicos em suas lavouras” (IBAMA)

O relatório do Greenpeace “Segura este abacaxi! – os agrotóxicos que vão parar na sua mesa”, de 2017, assegura que o modelo agrícola brasileiro tem como base o uso intensivo de agrotóxicos na produção de alimentos, impactando a saúde e o meio ambiente. O Greenpeace encomendou, por meio do Laboratório de Resíduos de Pesticidas (LRP) do Instituto Biológico de São Paulo, testes toxicológicos em alguns alimentos, que revelaram a presença de resíduos de agrotóxicos na alimentação do dia a dia do brasileiro.

Os testes foram realizados em setembro de 2017 e analisaram produtos das grandes centrais de abastecimento de alimentos de São Paulo e de Brasília, como as Ceasa, que estão por todo território nacional. Entre as irregularidades, encontraram agrotóxicos não permitidos para a produção de um alimento em específico e outros acima do limite máximo permitido pela lei brasileira.

A pergunta que abre esta reportagem foi realizada a 36 pessoas, submetidas a um questionário online pelo Periscópio. Na indagação, trocamos a palavra “veneno”, dita anteriormente, pela designação “agrotóxico”. Cerca de 58,3% afirmaram que têm consciência da intoxicação no seu prato, 38,9% não sabiam afirmar com precisão sobre os produtos comprados e apenas 2,8% tinham certeza de que suas refeições estão imunes a qualquer tipo de veneno.

Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), os produtos vendidos em mercados, supermercados e lojas, devem estampar o selo federal do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica (SisOrg) em seus rótulos, sejam produtos nacionais ou estrangeiros. Se o produto for vendido a granel, deve estar identificado corretamente, por meio de cartaz, etiqueta ou outro meio.

Envenenado ou não?

Raul Vitor, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição que tem como objetivos promover a saúde e o desenvolvimento social,  alerta que é impossível retirar os agrotóxicos dos alimentos. “O produto absorve o agrotóxico. O vegetal, quando é retirado do solo, retira junto uma parcela de agrotóxicos que está lá disponível”, revela. Raul ainda diz que o método utilizado por muitas pessoas, de lavar os alimentos com água sanitária, não é eficaz quando se trata do veneno nos alimentos: “isso limpa o que está na superfície do produto, a sujeira, por exemplo, mas isso não funciona para retirar o agrotóxico do produto”.

A omissão da informação acontece pela falta de políticas públicas relacionadas à conscientização sobre os impactos do uso de agrotóxicos na agricultura. Seria essa uma espécie de maquiagem do agronegócio? De acordo com o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, “a nossa insistência no uso de agrotóxicos é baseada no modelo de agricultura adotado, em que criamos grandes monoculturas voltadas para a exportação”.

De acordo com o dossiê “Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde” (2015), publicado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em parceria com o Ministério da Saúde, 64% dos alimentos cultivados no Brasil são contaminados por agrotóxicos. Entre 2000 e 2012, o percentual de aumento do uso dos agrotóxicos foi de 288% e o faturamento da indústria de agrotóxicos em 2014 foi de 12 bilhões de dólares.

PL do veneno

O Projeto de Lei 6299/02, popularmente conhecido como PL do Veneno, foi criado em 2002 com o intuito de revogar a lei de 89 e atualizar os atuais parâmetros legais de uso de agrotóxicos no Brasil, desde a flexibilização da liberação de mais substâncias até a mudança do termo “Agrotóxico” para “Defensor Fitossanitário”. O projeto, criado por Blairo Maggi – atual ministro da Agricultura – ganhou força em junho de 2018, quando uma comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou a versão final das propostas do projeto de lei, onde devem passar pelo plenário da Casa e depois voltar para o Senado.

​A justificativa da PL de alterar o termo “Agrotóxico” para “defensor agrícola” ou “fitossanitário” é de que, mudando a nomenclatura, haveria uma desburocratização no ato de registrar novos produtos para uso nas lavouras do Brasil. A atual legislação prevê que, para registro de uma nova substância, ela precisa ser avaliada pelo Ministério da Agricultura, pelo Ibama, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, e pela Anvisa, vinculada ao Ministério da Saúde.

Riscos do uso de agrotóxicos

Potencialmente, os agrotóxicos podem nos fazer mal, mas em que sentido? A nutricionista Andressa Fontes explica que o alto índice de agrotóxicos nos alimentos, a longo prazo e a curto prazo, pode ocasionar diversas complicações à nossa saúde. Doenças respiratórias pulmonares são um exemplo, já que são provocados pelo método aéreo de aplicação do veneno, atingindo os públicos mais vulneráveis como crianças e idosos. O contato indireto com os agrotóxicos também provoca outras doenças graves, como diabetes, doenças cardiovasculares e até obesidade devido a influência metabólica,  culminando nas doenças. Já o câncer, é desenvolvido pelo contato direto com o veneno na hora da aplicação.

Contato para denunciar intoxicação. Foto: reprodução/divulgação.

De acordo com o especialista em saúde ambiental, Robério Gomes Olinda, professor de Engenharia Ambiental e Sanitária, dependendo da quantidade e condições da exposição, a intoxicação pode ser aguda (os sintomas surgem rapidamente, algumas horas após a exposição excessiva, por curto período, a produtos extremamente ou altamente tóxicos), subaguda (dor de cabeça, fraqueza, mal-estar, dor de estômago e sonolência) ou crônica (paralisias e neoplasias).

É possível plantar sem agrotóxico?

Em 2010, a ONU afirmou que a agroecologia pode aumentar a produtividade agrícola e a segurança alimentar; melhorar a renda de agricultores familiares; e conter e inverter a tendência de perda de biodiversidade e outros impactos gerados pela agricultura industrial. Em 2017, a organização lançou outro documento afirmando que a necessidade dos agrotóxicos para o aumento da produção de alimentos não se sustenta. E acrescentou: produzir sem agrotóxicos é possível e necessário.

Segundo Raul Vitor, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma das alternativas viáveis é a criação dos inimigos das pragas nas plantações, promovendo uma cadeia alimentar e cultivando um ecossistema de vidas, respeitando a natureza e os seres vivos. “Já tem diversos estudos de manejos alternativos agrícolas, que visam conciliar essas relações ecológicas entre as pragas e seus inimigos de modo que você tenha tudo isso dentro de um cultivo para manter sua produtividade, manter os vetores das pragas sob controle e sem utilizar os compostos químicos”.

De acordo com o projeto OrganicsNet, a “Rede Comunitária Para Acesso ao Mercado Pelos Produtores Orgânicos”, algumas técnicas empregadas são: o rodízio de culturas e diversificação de espécies entre e dentro dos canteiros; o plantio direto, caracterizado pelo cultivo em cima do resíduo da cultura anterior, sem que o trator limpe o solo; a adubação verde e orgânica, que promove o desenvolvimento da vida no solo, tais como minhocas, bactérias e fungos benéficos. Outra medida bastante utilizada é a aplicação de cordões de contorno com plantas diversas para ajudar na proteção de pragas e doenças, como quebra-vento e proteção contra erosão.

Orgânicos: uma alternativa

A nutricionista Andressa Fontes conta que os chamados alimentos orgânicos são os mais indicados na hora da consumo: “o orgânico tem uma concentração maior de antioxidantes. Quando avaliamos a composição nutricional, o orgânico é superior e pode prevenir diversas doenças, porque esses alimentos, têm substâncias de efeito antioxidante, anti-inflamatório, que está associado com a prevenção de doenças” ela destaca.

Razões para consumir orgânicos. Infográfico: reprodução.

Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o produto orgânico, para assim ser considerado, deve ser cultivado em um ambiente com sustentabilidade social, ambiental e econômica (princípios agroecológicos). Em concordância, Aldenilda assegura que os orgânicos mantém a harmonia entre homem e natureza. Ela ainda alerta para uma possível insatisfação por parte do consumidor, que pode se deparar com o preço do alimento orgânico mais caro. “Nós temos que pensar em saúde, em pequeno, médio e longo prazo. Estamos adquirindo um alimento sem agrotóxicos, sem aditivos, conservantes, corantes ou acidulante, e isso vai garantir uma melhor qualidade na alimentação, vamos estar contribuindo para a não ocorrência de doenças”, aconselha.

De acordo com ela, quanto mais forem divulgados o uso de alimentos orgânicos e, assim, houver uma maior demanda, os preços caem. “Quanto mais divulgarmos o que ele acarreta  para a nossa saúde, com certeza, nós chegaremos a ter produtos que estejam ao alcance de toda a população e não a uma pequena parcela”, salienta Aldenila.

Reunimos um mapa de feiras e produtos agroecológicos em Fortaleza (CE), confira:

 

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