Necessidade de consumir medicamentos pode advir de expectativas irreais

Por Lara Montezuma, Letícia Serpa e Maria Fernanda Guimarães

A exposição aos medicamentos começa logo no início da vida. É comum que os recém-nascidos já tomem remédios para dores e enfermidades em sua rotina. Conforme o organismo vai envelhecendo, a tendência é que ele vá necessitando de mais cuidado, o que, atualmente, costuma estar diretamente ligado ao uso de fármacos. Devido ao avanço tecnológico, os métodos naturais para tratamento de doenças foram sendo substituídos por medicamentos que movimentam a indústria farmacêutica.

Segundo o diretor de comunicação do Sindicato dos Farmacêuticos, Thiago Magalhães, 32, o mercado cresceu no Brasil em torno de 8,9% em 2017 . Além disso, de acordo com dados do Guia 2017 da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), o Brasil ocupa a 6° posição no ranking mundial do mercado farmacêutico. No entanto, 70% das despesas do Sistema Único de Saúde (SUS) – um dos maiores provedores de lucro para a indústria – são devido à assistência de doenças que poderiam ser tratadas através da mudança de hábitos.

O capital que gira dentro do setor farmacêutico vem crescendo há anos e dados do Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico de 2016 mostram que houve um faturamento de R$63,5 bilhões com a venda de 4,5 bilhões de embalagens de remédio no Brasil. A movimentação de suas filiadas girou em torno de 44 bilhões de reais. De acordo com Thiago, o polo industrial está em desenvolvimento no Ceará, o que acarreta o crescimento do ramo farmacêutico no Estado, principalmente após a criação do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos  da Universidade Federal do Ceará.

A busca por equilíbrio através da medicação

No entanto, o uso constante de medicamentos pode trazer graves consequências físicas, psicológicas, sociais e econômicas. Segundo o psiquiatra Ricardo Rodrigues, 40, a medicação se tornou uma ferramenta para as pessoas conseguirem cumprir o seu relógio biológico e se darem conta de uma ansiedade que estaria deixando-as disfuncionais. “Quando eu falo de funcionalidade, eu estou falando de trabalho, mas também me refiro à escola, à faculdade, à questão da manutenção das relações sociais. Então eu acredito que, baseado em todas essas cobranças e expectativas irreais, as pessoas têm procurado muito a medicação para tentar se equilibrar”, salienta o médico.

O profissional afirma que a medicação também tem a sua importância. Ela ajuda em mais ou menos 60% na melhora de algumas doenças pois, como em casos de doenças psicológicas, há um desequilíbrio neuroquímico basicamente de três neuroreceptores – a serotonina, a dopamina e a noradrenalina. “Se o paciente conseguir equilibrar novamente estes receptores, nós vamos oferecê-lo, por exemplo, a volta do apetite, de uma libido e de um sono de qualidade. Seria uma hipocrisia dizer que a medicação não surtiria efeito, como se o nosso lado biológico fosse renunciado”, explica.

De acordo com Rodrigues, o ritmo acelerado do cotidiano é um dos motivos pelo qual os remédios são tão atrativos. Ele afirma que a velocidade das informações disponíveis e a criação de expectativas irreais acerca dos tratamentos dificulta a capacidade de espera e de desaceleramento dos enfermos. “Eu vejo muito isso acontecendo no público adolescente e jovem-adulto”, discorre o profissional. Ele cita a insônia para exemplificar. “Baseado nisto [nos sintomas], a gente tem tido um aumento da insônia, então muita gente tem procurado medicação para dormir”, exemplifica.

Outra causa que influencia diretamente na grande quantidade de remédios vendidos é a crescente hipocondria – uma obsessão pela ideia de estar com algum problema grave de saúde. O médico explica que cada vez mais pessoas têm achado que o conhecimento superficial e leigo da internet é uma grande verdade. Essa prática é chamada de cibercondria e pode ser alimentada por informações irreais advindas de veículos não confiáveis. “Nós vemos isso, por exemplo, tanto nas redes sociais, quanto nos aplicativos de comunicação. As pessoas não estão muito interessadas numa informação do profissional que é formado no assunto, elas estão querendo que elas mesmas resolvam os problemas de uma questão de saúde que é muito complexa. Mas, para você fazer um diagnóstico, você precisa do contato presencial”, reverbera o psiquiatra.

“As pessoas não estão muito interessadas numa informação do profissional.” (Ricardo Rodrigues)

Os perigos da automedicação

Ana Sarah antes de consumir inibidores de apetite. Foto: arquivo pessoal.

A hipocondria pode ser considerada uma das vertentes da automedicação e pode ser justificada por diversos fatores. A estudante de Jornalismo, Ana Sarah Barrocas, 19, começou a tomar remédios emagrecedores por conta própria para acelerar a sua perda de peso após um período de depressão. A pressão estética, aliada com o bombardeio de informações online, a fez procurar por medidas extremas para perder peso.

O ponto de virada foi quando sua mãe mencionou uma possível cirurgia bariátrica. “Quando ela falou [da cirurgia], eu endoidei. Pesquisei no Youtube como as famosas tomavam remédios e emagreciam tão rápido, então eu comecei a tomar”, conta. A decisão também foi influenciada pelo tempo que ela levaria para perder o peso sem a ajuda de remédios, que seria muito maior do que o tempo acompanhado por medicação. Sua meta inicial era perder dez quilos em seis meses. Mas, visto que não iria conseguir cumprí-la, a estudante decidiu adquirir a medicação sem  acompanhamento médico. Ana não teve nenhum impedimento durante a sua compra. Os farmacêuticos lhe ofereceram informações mais detalhadas sobre o remédio e os seus efeitos. A estudante conta que, se tivesse outra oportunidade, faria diferente. “Eu errei por não ter ido ao nutricionista e confiar nas informações da farmácia.

Ana Sarah depois de consumir inibidores de apetite. Foto: arquivo pessoal.

A iniciativa pareceu ser exitosa no início, visto que após seis meses ela conseguiu chegar ao peso desejado. Mas o seu quadro de saúde agravou e ela decidiu parar. “Tudo em excesso é veneno. Eu comecei a perceber que o meu colesterol estava muito alto. Então, resolvi parar”, explica.

Segundo a nutricionista Hyandra Oliveira, o uso de medicamentos como aceleradores do processo de perda de peso é raramente indicado por profissionais. As exceções são aplicadas apenas a casos extremos de obesidade, aliando o consumo desses produtos à reeducação alimentar. “Acredito que as pessoas recorrem aos medicamentos por falta de informação, por falta de acompanhamento por um profissional capacitado. Acham que é milagroso, que vai dar certo com elas também e acabam optando por algo mais ‘fácil’ que uma dieta”, ressalta.

O consumo inadequado de medicamentos, principalmente sem prescrição médica, pode trazer consequências graves ao organismo. De acordo com Hyandra, quando consumidos, esses produtos podem provocar uma resistência do corpo às doses frequentes que são ingeridas, causando a sensação de dependência aos fármacos e acarretando problemas maiores à saúde. “Os medicamentos, muitas vezes, não são feitos só com substâncias naturais e alteram os processos fisiológicos naturais do nosso corpo, afetando sistema nervoso, pois provocam a sensação de saciedade. Por isso, muitos sentem náuseas, vômitos, futuramente Alzheimer, doenças cardíacas, entre outros efeitos colaterais que surgem dependendo do tempo de uso”, explica.

Autodiagnóstico médico na internet,no Brasil. Infográfico: reprodução.

Medicina alternativa proporciona novo estilo de vida

Uma opção para evitar o uso exagerado de medicamentos é a prática de medicinas alternativas, que podem proporcionar aos seus adeptos um novo estilo de vida, utilizando recursos naturais. A Ayurveda, por exemplo, é uma terapia indiana milenar que abrange massagens, reeducação alimentar e estudo de plantas medicinais e suas aplicações no tratamento de doenças. A Medicina Ayurvédica trabalha, principalmente, com a ideia de harmonia entre corpo e mente, partindo da afirmação de que tudo no universo existe a partir de cinco elementos básicos: espaço, ar, fogo, água e terra.

Baseando-se nessa premissa, a junção desses elementos naturais formam os doshas, que, segundo a filosofia Ayurvédica, são componentes que estão presentes em todo ser humano, mas que se manifestam de formas diferentes em cada um. O objetivo da ayurveda é, portanto, harmonizá-los por meio de suas técnicas. De acordo com a terapeuta Juliana Muniz, este é o grande diferencial dessa medicina alternativa. “A Ayurveda é um tratamento personalizado, em que a pessoa vai ter um conhecimento de qual é o seu biotipo original, como um DNA energético, que são os doshas. O terapeuta ou o médico ayurvédico vão poder explicar para a pessoa qual é a sua constituição original”, explica. Portanto, a partir da natureza de cada pessoa, incluindo uma visão global, é que o terapeuta pode sugerir mudanças no seu estilo de vida.

A prática Ayurvédica refere-se tanto à prevenção de doenças quanto à cura. Por tratar-se de uma técnica que abrange práticas que proporcionam o relaxamento, como a massagem, e a reeducação alimentar de acordo com o biotipo de cada pessoa, a ayurveda torna-se uma opção bastante eficaz para tratamento de enfermidades. “A gente vê pessoas chegando com diversos desequilíbrios e doenças já estabelecidas e a gente vai tratar com recursos completamente naturais. A experiência que eu tenho é sempre positiva, pois as pessoas se surpreendem ao perceberem que, quando elas mudam certos aspectos do seu estilo de vida ou da alimentação, ela começa a voltar ao seu estado de saúde, que é o seu estado de equilíbrio”, afirma Juliana Muniz.

A Medicina Ayurvédica proporcionou à jornalista Carolina Zanocchi a adoção de novos hábitos em seu dia a dia. “A massagem é maravilhosa, é uma forma de relaxar, ela purifica o organismo, faz uma limpeza e uma desintoxicação das células. Você sai bem leve e bem relaxada após a massagem e com energia renovada. Além disso, a ayurveda permite que eu também tenha cuidados com a alimentação. Todas as transformações vieram positivamente, pois atualmente eu me alimento melhor, pratico yoga, sigo toda uma rotina melhor depois de ter conhecido a Medicina Ayurvédica”, relata.

 

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