Não cabe em mim: o desafio de vestir GG

Por Yasmin Olivier, Marina Lustosa e Letícia Lavor

Ir às compras pode se transformar em um pesadelo para muitas pessoas. Isto porque boa parte do mercado da moda não busca se adequar para atender ao variado público de mulheres, em especial as plus size. Por este motivo, algumas pessoas sofrem preconceito e passam por momentos constrangedores ao entrarem em lojas para comprar roupas.

A cearense Winy Moraes, 22, conhece esta situação de perto. Desde pequena,ela tinha um corpo diferente do padrão exigido pela sociedade e, por isso, tinha dificuldades na hora de escolher roupas. Winy até começou a fazer aula de dança, mas sofria com dietas malucas em busca de um corpo que não era seu. “Eu realmente fiz várias coisas, emagreci mais de 20 quilos. Naquele corpo, eu ia nas lojas e encontrava tudo que eu queria, mas eu não me sentia feliz. Era como se fosse uma felicidade passageira”, afirma a estudante de jornalismo.

O processo de aceitação do corpo não foi fácil, ela acabou desenvolvendo ansiedade e início de síndrome do pânico. Para superar as marcas deixadas pelo processo de ser quem não era, Winy precisou da ajuda de um psicólogo. “Teve uma época em que estava demais, eu não conseguia mais dormir, eu comia e já pensava em vomitar. Meu pensamento era que se eu comesse e vomitasse, estaria tudo ok”. Apesar desta situação, ela não chegou a desenvolver bulimia, pois sua mãe deu todo apoio necessário para superar essa fase da vida.

As coisas começaram a mudar de vez quando Winy percebeu não precisar se encaixar nos padrões estabelecidos como “certos”. A estudante acredita que a tendência seja adequar os estabelecimentos ao movimento plus size, mas ainda é um processo lento.

A falta de padrão

Apesar de existirem normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para as medidas de roupas, elas só funcionam na teoria. No mercado de trabalho não existe nada pré-definido e cada loja tem liberdade para criar seu próprio padrão. Para isso, é utilizado uma pessoa modelo, conhecida como persona  e ,a partir daí, a loja produz suas roupas visando atingir o seu público alvo. Por isso, é comum o número da sua roupa mudar de uma loja para a outra. Para Manuela Medeiros, professora de modelagem da Universidade Federal do Ceará (UFC), o motivo é simples de ser explicado: “Em termos de produção e gerência de estoque, ter muitos tamanhos gera um impacto muito grande. Essa decisão é muito estratégica e tomada baseada em pesquisas, vivência com o consumidor”, esclarece.

Mesmo sendo algo frequente, o modelo adotado está longe de ser o ideal. Para a professora Manuela Medeiros, existe uma solução que poderia ser tomada, “o ideal seria ter uma grade mais democrática, que contemplasse desde quem é pequena,  até os tamanhos maiores”. Outra medida possível de ser adotada seria seguir o modelo usado nos Estados Unidos, país que trabalha com números fracionados e utiliza os conceitos de curto, médio e longo. “O Brasil não adota o fracionamento porque é cultural, o empresário acha que dá mais trabalho”, observa Fabíola Mourão, professora de modelagem da Universidade de Fortaleza (Unifor).

O obstáculo fica ainda maior quando o problema vai além da produção de roupas e encontra a discriminação. “Tem empresas que tem o preconceito de que pessoas associem a marca a pessoas gordas”, afirma Araguacy Filgueiras, professora de modelagem da Universidade Federal do Ceará. Apesar das lojas de tamanhos maiores serem de extrema importância, ao mesmo tempo elas fazem parte da segregação.  Afinal, porque dividir as pessoas em grupos e definir as lojas em que cada uma pode e deve comprar?

O que falta é ampliar o olhar, principalmente de quem está à frente do desenvolvimento de produtos voltados para a moda feminina, e entender que a diversidade não pode ser ignorada. Também é preciso reconhecer que é inviável o fato de as lojas que oferecem roupas com tamanhos maiores, possuem os preços mais caros.

A reportagem foi a campo e visitou nove lojas que ofertam roupas para o público feminino, entre elas as de departamento e as plus size. Constatamos que na maioria das lojas de departamento não havia diferença entre o “G” e o “GG”, em algumas nem mesmo os tamanhos “M” e “GG” apresentavam disparidades. Além disso,o “G” de algumas peças não vestia uma pessoa com mais de 68 kg. Já nas lojas dedicadas à atender o público plus size, é possível encontrar roupas em moldes bem maiores e uma diferença de 8cm de uma roupa para outra. Entretanto, os preços são bem mais elevados.

Questões como estas mostram a falha em um sistema que não respeita suas próprias regras. Existem normas, mas parece não existirem. Em parte porque as empresas priorizam o lucro, outra porque o obstáculo está em reconhecer que os tamanhos existem para serem atendidos e que não importa se é 36 ou 46, os direitos são os mesmos.

Por quê  não existe padrão?

O Brasil é um país de grandes dimensões continentais e marcado pela forte diversificação da sua população. Atingir um padrão nacional é uma tarefa difícil. Uma das soluções seria que cada região trabalhasse dentro do seu biotipo comum, através de pesquisas aprofundadas que busquem oferecer produtos que atinjam os diversos corpos da sociedade. Para Flávio Sabrá, ex gerente de inovação, estudos e pesquisas do SENAI CETIQT, “quando você tem uma pesquisa científica creditada e assertiva para você atender mais de um mercado, provavelmente, você vai proporcionar ao seu usuário final melhores condições de compra”, estipula.

Para este tipo de trabalho é necessário investimento de tempo e de dinheiro. Entre os projetos em andamento, a professora Araguacy Filgueiras esclarece seu objeto de trabalho, “uma pesquisa que existe um “bodyscanner”. Nós entramos em uma câmera que ela faz todas as medidas do nosso corpo, em termos de perímetro, comprimento, largura, altura, distâncias. Esse estudo foi feito no Brasil de um modo a tentar fazer uma padronização por região”, explica.

A indústria de moda ainda possui um longo caminho pela frente para ter uma produção democrática para todos os tipos de tamanhos, mas ela só pode ser alcançada se tiver um ponto de partida e um interesse geral do comércio têxtil.

 

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