Centro de Fortaleza: lugar de memória e história

Por Celina Diogenes e Ivna Góis

O Centro de Fortaleza é conhecido por abrigar diversas histórias. Os prédios, as praças, as esculturas, os museus e as figuras históricas ainda dizem muito sobre o lugar que foi um dos pioneiros no desenvolvimento de Fortaleza. Cada ambiente parece ter sua própria identidade, uma particularidade que foi vivida por muitos que um dia já passaram por ali. A cada passo dado pelo espaço, ainda é possível presenciar a vivacidade que o Centro carrega em seus 292 anos de existência.

Theatro José de Alencar

Fachada do Theatro José de Alencar. Foto: reprodução.

Imponente, único e precursor, até hoje, de um dos principais patrimônios artísticos e culturais do Centro da Cidade, encontra-se, o Theatro José de Alencar, localizado no coração de Fortaleza. Uma obra à serviço da arte, o teatro é considerado o mais fascinante exemplar da arquitetura de ferro no Brasil. Sendo um dos maiores teatros do País, o lugar é conhecido, também, pelos belíssimos espetáculos e pelas magníficas apresentações. Construído em meados de 1910, o espaço foi fruto da conveniência de um local para realizações das atividades artísticas que ocorriam na cidade. Com diversas programações gratuitas, desde os anos 1960, o teatro é tombado pelo patrimônio histórico Nacional. Batizado em homenagem ao escritor cearense José de Alencar, os camarotes do teatro são nomeados pelas suas principais obras já publicadas.

No entanto, do lado de fora, existe um cenário completamente diferente a poucos metros da suntuosa construção: a praça, que leva o mesmo nome do patrimônio público e exibe uma realidade de insegurança, sujeira e de abandono, que acaba distanciando muitos espectadores.

O episódio, repetido diariamente, se intensifica aos sábados quando as feiras e as comercializações informais se consolidam com mais vigor. Diante desses acontecimentos, duas situações são exibidas: o teatro, consolidado por 108 anos em todo o seu esplendor e a praça, caracterizada por seus transtornos urbanos. Na perspectiva da professora do departamento de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará (UFC), Beatriz Diógenes, a má edificação da praça colabora para o afastamento das pessoas do TJA. “Os conflitos verificados no entorno do edifício prejudicam bastante a frequência do público, primeiramente porque há uma reação, por parte da população, de acessar esses espaços. Apesar de estarem localizados no Centro, grande parte das pessoas considera inconveniente se deslocar até lá, e sobretudo, por questões relacionadas à insegurança e ao que ocorre atualmente nas praças onde se encontram”. Beatriz enfatiza que os espaços do entorno ainda precisam ser tratados, de modo a favorecer o acesso e a permanência das pessoas nesses locais.

Além disso, o mau cheiro provocado pela grande quantidade de lixo e por dejetos, deixados pelos moradores de rua que ali se refugiam durante as noites, vai deixando a praça ainda mais menos atrativa para quem deseja visitá-la.

Assim como a praça tem a capacidade de repelir um certo público ela, do mesmo modo, atrai outras pessoas. A possibilidade de conhecer um monumento histórico, que compõe a memória do Ceará e qualidade arquitetônica magnífica do lugar faz valer muito a visita. A perspectiva de experimentar uma narrativa que vive de maneira potente até hoje e de maneira acessível é, sem dúvidas, um grande privilégio.

Cineteatro São Luiz

Assim como o teatro, o Centro de Fortaleza acolhe o Cineteatro São Luiz, que é um dos mais fundamentais legados da trajetória do entretenimento e da cultura cearense. Sendo ainda um dos poucos cinemas de rua em funcionamento no Brasil, o Cineteatro completou, em março de 2018, seu sexagésimo ano de existência. Consolidado no espaço onde funcionava o Cine Polytheama, o São Luiz iniciou suas obras em 1938, quando foi demolido o cinema anterior. A partir de 2015 passou a ser um cineteatro com a reforma promovida pelo Governo do Estado.

Quando foi inicialmente planejado, o Cineteatro, antes Cine São Luiz, era uma instalação que pertencia a empresa Luiz Severiano Ribeiro e, cada vez mais, o lugar mantinha uma forte referência de arte, sendo considerado o cinema mais bonito do Brasil. Tombado em 1991 como Patrimônio Histórico e Cultural do Ceará, o Cineteatro, localizado na Praça do Ferreira, reúne muitas histórias e grandes experiências vividas pelos cearenses.

Antigo Cine São Luiz. Foto: reprodução.

Com o passar dos anos, o espaço passou por adaptações devido aos momentos econômicos que o País enfrentava. Em 2007, em consequência de uma forte crise, o Cine São Luiz, que até então havia sido gerenciado pelo Grupo Luiz Severiano Ribeiro, passou a ser dirigido pela Federação do Comércio do Estado do Ceará, funcionando como Cine São Luiz – Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro. À vista disso, no ano de 2011, o edifício do Cine São Luiz foi assumido pelo Governo do Estado do Ceará, que encabeçou o planejamento de uma nova reforma para o lugar e, em 2013, iniciou o projeto de restauração do patrimônio. Após esse período de reparos, o equipamento histórico-cultural foi reinaugurado em 2014, pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará e, permanentemente aberto em maio de 2015, dessa vez como Cineteatro São Luiz.

O cineteatro tem uma significativa importância por ter sido um local bastante frequentado pelos cearenses e por tê-los marcado em histórias de romances, pela proximidade com a arte, pela novidade de um cinema luxuoso na cidade e, claro, pelas muitas lembranças construídas no lugar. Por estar posicionado numa região central na cidade, o São Luiz foi, durante muitos anos, o ponto de encontro de muitas gerações. Na visão de Elídia Vidal, assessora do cineteatro, todo mundo tem uma história com o lugar e, muitas delas, peculiares. “Podemos dizer que o Cineteatro é rico em sua história e está no imaginário de muitos cearenses por ter sido a primeira porta de contato com a arte – isso por várias gerações. E desde sua reabertura, maio de 2015, o São Luiz começou a criar suas novas formas de gestão com o objetivo de construir um novo ciclo que não só valorize seu passado, mas que ressignifique seu valor e lugar no campo cultural do Ceará e também do Brasil. Ou seja, gestão que considere não só toda sua rica trajetória, mas que trabalhe para construir um presente cheio de possibilidades e um futuro próspero”, avalia.

Mesmo com a problemática da violência urbana, o cineteatro costuma ser bem frequentado pelos espectadores. “Quem começa a vir ao Cineteatro São Luiz e ao centro da cidade repensa o mito do entorno. Desde que reabrimos, o equipamento da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará recebeu 550 mil espectadores. Ano a ano, esse número vem aumentando não só pelo aumento na grade de programação ofertada à população, mas também pela maior participação do público – hábito cultural”, destaca Elidia.

Além disso, o Cineteatro São Luiz dispõe de projetos que tem como objetivo dialogar com os transeuntes do Centro de Fortaleza e programações inclusivas para os moradores da Praça do Ferreira. “Desde a reabertura do Cineteatro, o São Luiz procura se relacionar com o entorno da Praça, incluindo os moradores, em uma relação de respeito e reconhecimento. No entanto, sabemos que estamos falando de um longo e profundo processo de exclusão – um muro simbólico que faz com que a população não se sinta inserida nos processos artísticos e culturais. Estamos fazendo nossa parte, sabendo que esse é um trajeto de médio e longo prazo.”, ressalta a assessora.

 

Confira a matéria completa no site:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php