Skate retoma as ruas da cidade

Por Alexandre Bessa

Com a chegada do mês de dezembro, chega também o período de férias estudantis, quando muitos jovens têm mais tempo livre para praticar esportes. Um dos preferidos por adolescentes (e até adultos) é o skate. De acordo com pesquisa realizada pelo Datafolha, encomendada pela Confederação Brasileira de Skate (CBSK), um a cada dez lares brasileiros têm, no mínimo, um praticante da modalidade. Ou seja, atualmente, 8,5 milhões de brasileiros usam o skate como uma forma de lazer ou profissionalmente.

 No ano de 2016, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou que o esporte estará entre as modalidades das Olimpíadas a partir de 2020. O novo espaço de competição para a prática é uma importante ferramenta de popularização e desmarginalização do esporte. Em Fortaleza, também é perceptível a crescente onda da atividade. Nos últimos anos, novos espaços para a prática de skate foram inaugurados. Um exemplo é o Skate Park do Centro de Formação Olímpica do Nordeste (CFONE). Além deste espaço, a cidade tem a  Pista de skate do Cocó, o Skate Park Cuca Barra, a Praça da Paz Dom Hélder Câmara, entre outros locais com infraestrutura para a prática do esporte.

A Coordenadoria de Juventude promove, anualmente, o Circuito Juventude Ativa de Skate, que já conta com quatro edições. De acordo com a página oficial da competição, o campeonato visa estimular o hábito esportivo e disseminar ainda mais a disputa saudável e a prática deste esporte. A infraestrutura da cidade, os novos espaços próprios para andar de skate e a criação de campeonatos contribuem para que Fortaleza se torne uma referência no skate nacional. O Jornalismo NIC contatou a Coordenadoria da Juventude para comentar sobre o campeonato, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

 A cidade e o skate                                                                                                      

Rayana Lopes anda de skate há 10 anos. Foto: Arquivo pessoal.

Segundo a skatista Rayana Lopes, 22, a capital cearense é uma ótima cidade para  andar de skate e tem muitos “picos” – gíria referente aos melhores locais para se praticar o esporte. Ela, praticante do skate há 10 anos, comenta que a cidade é ideal para quem pretende se tornar um bom skatista.  “Fortaleza é uma das cidades mais incríveis pra se andar [de skate], no meu ver. Se você anda nas ruas daqui, andará em qualquer lugar do mundo”, explica a jovem.

Ela se queixa da falta de manutenção das rampas de skate e como isso ainda é um problema para quem pratica. “Com a chegada dos CUCAS, que são núcleos culturais incríveis, a estrutura para o skate ficou muito boa para se praticar. Ao meu ver, o que falta é uma boa comunicação entre o Governo e a Federação Cearense de Skate (FESK), para que aconteça a manutenção das pistas”, opina.

Já para Luan Luiz Mesquita, 22, a cidade está cada vez melhor para a cena skatista local. O jovem anda de skate desde os 14 anos de idade e explica que, nos últimos 8 anos, a cidade melhorou muito em relação à infraestrutura para o skate. “Os espaços para se praticar naquela época [sua adolescência] eram muito distantes e poucos. Não era como é hoje, que se tem mais locais próprios para a prática. Era melhor praticar pelas ruas mesmo, mas só as que não eram muito mal feitas, como a avenida Bezerra de Menezes”, recorda o skatista.

Atualmente, Luan Mesquita é aluno do curso de Licenciatura em Física da Universidade Federal do Ceará (UFC) e diz que não tem mais tanto tempo para andar de skate, mas sabe que existe uma nova geração pronta para continuar com o legado dos skatistas de Fortaleza. Quem também comenta sobre a cena local é Henrique Carvalho, 23, skatista que diz haver uma semelhança entre a capital cearense e Los Angeles, na Califórnia,  berço do esporte entre os anos de 1960 e 1970.

“Lá eles tem o Píer de Santa Mônica e o Venice Beach SkatePark, mas aqui nós temos o calçadão da Praia de Iracema, e os novos espaços que estão surgindo. Então, não perdemos em nada”, compara Henrique. Ele também comenta sobre como a subcultura do skate é forte e ajuda a salvar muitos jovens de problemas sociais. “O esporte ainda salva muitos jovens da violência e do ostracismo. Além disso, ele possui toda uma cultura própria – do estilo de se vestir à forma de falar – do undergound”, explica.

Mulheres no esporte

A história do skate mundial é comumente ligada a nomes como Stacy Peralta, Jay Adams e Tony Hawk. De fato, os dois primeiros são  skatistas importantíssimos para a prática e popularização do esporte como conhecemos hoje, como é mostrado no filme “Os Reis de Dogtown”.  Já Tony Hawk faz parte do imaginário popular da maioria dos skatistas que cresceram entre 1990 e 2000. Porém, a história do esporte não é formada apenas por nomes masculinos.                                                                                                                                            

Nomes como Vicki Vickers, Kim Cespedes, Patti McGee e Peggy Oki quebraram estigmas e mostraram a força da mulher ainda no início do esporte, que nasce da rebeldia e transgressão. Desde a famosa imagem de Patti McGee –  a primeira skatista profissional mulher – na capa da Life em 1965, até Hillary Thompson, a primeira skatista profissional transexual, as mulheres viveram décadas de luta para entrar neste universo. Atualmente, entre as skatistas mais famosas do mundo temos nomes como Lyn-Z Adams e Cara-Beth Burnside, vencedora de cinco medalhas nos X-Games.

A skatista brasileira Karen Jonz foi tetracampeã mundial na modalidade vertical. Foto: Reprodução

Já no Brasil, a cena feminina demorou um pouco mais para se formar. Apenas em 1995 foi criado o primeiro campeonato feminino, chamado Check it Out Girls. Foi a partir dos anos 2000 que o skate feminino ganhou mais força no país.  Atualmente, entre as skatistas mais famosas e bem sucedidas temos Leticia Bufoni e Karen Jonz, tetracampeã mundial na modalidade vertical. “Quando comecei, era engraçado, pois não havia nem roupas femininas para praticar, então eu sempre parecia um menino”, diz Karen Jonz em entrevista ao portal do Canal OFF. Ela foi uma das responsáveis por fundar a Associação Brasileira de Skate Feminino (ABSFE), em 2000, e dar início a um processo de evolução e popularização do esporte entre as mulheres.

A skatista fortalezense Rayana Lopes afirma que o cenário esportivo para as mulheres praticantes de skate na cidade de Fortaleza também não é o dos melhores. “Estou há dez anos no meio e vejo poucas mudanças no cenário de campeonatos. Na Liga Mundial, o valor da premiação em dinheiro do masculino é muito superior, chegando a ser quase o quádruplo do valor do feminino. Outra coisa que também desestimula é o fato que, das dez empresas de skate existententes hoje no Brasil, apenas uma apoia algumas meninas. E eu estou falando de apoio material. Pouquíssimas são patrocinadas por alguma marca. Isso sem falar que poucos campeonatos introduzem a categoria feminina em seus eventos”, desabafa Rayana.

Quando questionada sobre o valor do esporte na vida pessoal, a jovem explica que, para ela, o skate vai além do simples ato de andar e participar de competições. “Acho que o skate, pra mim, é persistência. Eu não sei se isso é bom ou ruim, mas sou muito grata por tudo o que ele fez comigo”, acrescenta.

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