“O Abutre” vai além do fascínio da mídia com a tragédia

                                                                                                                                                        Por Alexandre Bessa

Nightcrawler” ou “O Abutre” é um filme americano de 2014 dirigido por Dan Gilroy e estrelado pelo ator Jake Gyllenhaal. Objetivo, seco e irônico, o filme reflete sobre o jornalismo sensacionalista e a banalização da violência nos meios de comunicação em massa. Porém, o longa metragem não se prende apenas a isso.  Por meio de seu protagonista Louis “Lou” Bloom (Jake Gyllenhaal), somos apresentados a um indivíduo noturno e sociopata em busca do sucesso acima de tudo. Quando era cinegrafista freelancer, percebeu que poderia explorar a tragédia alheia vendendo suas filmagens para o canal de jornalismo local. Lou encontra ali sua escada para o sucesso.

O personagem consegue uma câmera amadora, um rádio da polícia e decide passar suas noites atrás de chamados que possam render notícia. Para ele, não existe medo ou desespero, tudo é analisado com distanciamento e controle. Ele se apresenta desta mesma forma para a jornalista Nina (Rene Russo), editora de um telejornal que precisa melhorar sua audiência. Os dois chegam a um acordo e, quando menos se espera, ele não apenas fica responsável pelas principais manchetes de cada noite, como também constrói um estranho tipo de fama em torno de si.

É de conhecimento geral que o jornalismo vende a tragédia, muitas vezes de forma glamourizada, para maior lucro e divulgação. Porém, mais do que uma crítica ao jornalismo sensacionalista, o filme nos mostra um retrato do tipo de indivíduo que essa realidade cria. O protagonista, Lou, é um exemplo do “sonho americano” tão almejado por muitos. Ele busca acima de tudo fama, fortuna, sucesso e reconhecimento.

O longa apresenta o questionamento sobre os limites morais e éticos, sobre até o limite para se conseguir uma história no meio jornalístico. O protagonista extrapola o ato de filmar e mostrar acontecimentos e começa a manipulá-los, tornando-se parte deles. Lou deixa de ser uma ladrão de cercas, como é no início do filme, para virar um ladrão de privacidade. Sua ética e empatia são inexistentes. Escuta a frequência da polícia, invade casas alheias, tudo isso para conseguir visibilidade e sucesso. consequentemente mais lucro.

O personagem não seria tão incômodo e funcionaria tão bem se não fosse pela excelente atuação de Jake Gyllenhaal. O ator entrega todos os trejeitos furtivos e traz um olhar psicótico em sua interpretação. Suas atitudes milimetricamente calculadas, a consciência de suas limitações e seu constante esforço para ampliar suas capacidades, formam um conjunto capaz de impressionar qualquer um.

Mais do que uma análise sobre o fascínio da mídia com a tragédia e uma crítica corrosiva ao jornalismo sensacionalista, “O Abutre” é um retrato de indivíduos que vivem entre nós. Pessoas que buscam sucesso e fama acima de tudo, que passam por cima de outros, pois acreditam que “os fins justificam os meios”. Em meio a “tempos líquidos”, não é surpresa termos cada vez mais indivíduos frios e banais convivendo conosco.

 

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