O artista negro resiste

Alexandre Bessa e Gabriel Lopes

Atualmente muitos artistas negros são destaques em suas áreas, como Beyoncé, Lázaro Ramos, Liniker e Viola Davis. Eles inspiram e motivam fãs pelo mundo com seus trabalhos. Lançado em maio deste ano, o vídeoclipe This is America, de Childish Gambino – codinome do cantor e ator Donald Glover – passou a marca de 100 milhões de visualizações no Youtube em apenas sete dias. O vídeo aborda de forma crítica temas como consumismo, racismo, armas e violência. Apesar do alto nível de preconceito contra a população negra, é cada vez mais perceptível a ascensão de artistas que conseguiram superar as dificuldades, conquistando o mais alto nível de reconhecimento.  

Porém, esse reconhecimento ainda é recente. Durante muito tempo, apenas alguns estilos musicais tinham representatividade negra, como o jazz e o samba, estilos que foram considerados subalternos antes da popularização. Nas artes cênicas, por sua vez, muitos dos papéis dados aos atores negros eram de personagens estereotipados ou secundários da narrativa, nunca protagonistas. Recentemente, em entrevista para o portal El País, o artista Liniker expôs sua opinião sobre a representatividade negra na música. “As pessoas precisam saber que eu sou negro, pobre e gay e posso ter uma potência também. Sou um artista que se expressa assim”, afirma. A fala do cantor e performer não apenas questiona, mas também denuncia uma realidade que não oferece espaço para artistas negros ou que fazem parte de alguma minoria.

A estudante Conceição Soares pretende lutar para conseguir crescer como atriz. Foto: Maraline Rocha.

A estudante de Teatro da Universidade Federal do Ceará (UFC), Conceição Soares, 19, faz parte da juventude negra que quer viver da arte. Para a jovem, é importante que pessoas brancas vejam negros bem sucedidos, sendo galãs e protagonistas, para que eles entendam que o mundo também é de todos, que estes também devem ocupar todos os lugares da sociedade. “Considero a representatividade negra muito importante. Não só nas artes, mas em todos os lugares. É importante nos vermos em diversos lugares. Acho que mais importante do que ter pessoas negras é ver como elas estão. No caso do teatro, da televisão ou propaganda, por exemplo, muitas vezes tem pessoas negras, mas elas estão lá reforçando estereótipos. Às vezes como escravos, empregados, bandidos. Isso precisa mudar”, diz Conceição.

Ainda de acordo com a graduanda em Teatro, todo momento é um momento de instabilidade social para o negro, em especial para aqueles que são artistas. É importante resistir e não se deixar oprimir. “Quando me vejo diante da nossa sociedade, me assusto um pouco. Sei que tenho que passar por cima de um sistema machista, racista e cruel por  ser mulher, negra, artista. Em meio ao contexto que o nosso país está vivendo, que o mundo está vivendo, entendo a importância da minha existência, que já é uma forma de resistência”, reflete a estudante.

O músico Jamerson Farias, 30, revela que o preconceito contra os negros está muito presente no meio musical. “Na minha vivência dentro desse recorte sempre fui muito bem tratado por músicos e pelo público em geral tendo, inclusive, uma posição de liderança dentro dos meus trabalhos. Mas reconheço que existe preconceito em ambientes de trabalho onde a situação econômica das pessoas estão evidenciadas, como num grande evento promovido por um hotel de luxo para pessoas com alto poder aquisitivo – tipo de situação encarada cotidianamente por músicos negros que tocam samba (gênero musical com grande apelo dentro da indústria do entretenimento)”, evidencia.

Resistência e representatividade nas artes

O negro sempre foi visto como um objeto, um corpo a ser observado, especialmente no cinema brasileiro. Porém, essa realidade vem sendo cada vez mais questionada. Recentemente o portal Nexo buscou indicar cinco obra literárias que não apenas falam sobre a presença negra na tela, mas também analisam a construção de imagens por esses indivíduos. As obras apresentadas trazem pesquisas sobre o assunto, além de falarem sobre história e representatividade. Espaços como esse são importantes para que a realidade da representação do artista negro no audiovisual possa mudar.

De acordo com o ator Lucas Limeira, 22, muitos longa-metragens e espetáculos usam a figura do negro enquanto

Lucas quer usar o teatro para transformar a realidade. Foto: Cláudia Rodrigues.

alegoria, mas não se aprofundam no debate sobre a existência e significado do mesmo, que é a parte mais importante. “O negro já faz arte desde sempre. Desde antes da colonização, da escravização. A representatividade é importante pra gente saber disso. Tem muita coisa sendo produzida. Mas ainda há muita dificuldade em conseguir espaço. Sinto falta de espaço para produções com discursos voltados para a raça, que falem enquanto negros, que falem de negros. Que coloquem dedos em feridas e que mostrem também nossas belezas.”, declara.

Quando questionado sobre o que almeja para seu futuro enquanto artista negro, ele afirma que o desejo mais relevante é ter local de fala. ”Quero poder falar. Quero que os meus possam falar. Quero que os moleques que fazem poesia na rua não sofram nas mãos de policial. Os que fazem poesia em ônibus não apanhem. Quero aprender a como falar pro meu povo e como usar o teatro para transformar nossa realidade”, confessa. Ele completa ainda afirmando ser muito importante que os jovens afrodescendentes que estão por vir tenham exemplos próprios de pessoas bem sucedidas negras, sejam estes artistas, professores ou governantes.

Jamerson Farias é cavaquinista e costuma tocar samba e choro. Foto: Acervo pessoal.

O músico Jamerson vê uma falta de representatividade dos negros em muitos estilos musicais, que acabam segregando racialmente a população. “Penso que alguns gêneros musicais tidos como mais nobres – música clássica, erudita, de concerto –  são utilizados pela elite como fator de diferenciação social frente a populações mais pobres, ligadas ao samba, funk, etc. Nesse sentido a democratização e popularização desses gêneros, no sentido de tornar popular e acessível a todos, não interessa aqueles que detêm o poder social”, comenta.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php