“Não podemos dizer para uma criança que ela veio ao mundo de uma cegonha”

Por Mateus Moura e Thomás Regueira

A educação sexual tem como principal objetivo esclarecer e educar jovens sobre questões sexuais, como gravidez indesejada, transtornos e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DST’s).  O índice brasileiro de bebês nascidos de mães adolescentes, 68,9%, é maior que a média latino-americana, de 65,5%, segundo um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2018. O principal público direcionado à educação sexual são os adolescentes, pois a maioria tem uma maturidade adequada e estão se preparando para iniciar a vida sexual.

O tema ainda é pouco debatido no Brasil devido à falta de uma legislação que obrigue o seu ensino nas escolas. Um estudo feito pela Federação Internacional de Planejamento Familiar, em 2017, localizada em Londres, Inglaterra, classificou o Brasil com um dos piores índices de educação sexual comparado com outros países da América Latina. Falar sobre sexo é uma questão de saúde e, para isso, existe um profissional específico para tratar desse tipo de assunto, o sexólogo. A sexologia engloba diversas áreas, como a medicina, psicologia, sociologia e antropologia capacitando o profissional a entender como o sexo funciona no contexto social, religioso e cultural.

Para falar sobre a importância da educação sexual para a saúde e sociedade, entrevistamos a psicóloga e especialista em terapia de casal, Patrícia Marinho. Graduada em Psicologia e pós-graduada em Psicodrama sócio-educacional e terapêutico, atende em uma clínica que visa proporcionar uma vida sexual mais saudável para seus pacientes.

JornalismoNIC: Por que existe tanto tabu na sociedade quando se trata de falar de sexo?

Patrícia Marinho: Eu acho que é porque sexo é uma coisa muito íntima e essas coisas não precisam ser faladas tão abertamente. Dentro da intimidade é legal ter alguns segredos, não deixar todos tão aparentes. Ao se falar muito naquela coisa, ela acaba perdendo o encanto.

JN: Qual a importância da educação sexual?

PM: Ela é importante, principalmente dentro da família, porque a gente transmite valores e ideias. Como a escola tem muita gente, você não está falando com uma massa, uma quantidade enorme de pessoas. A educação sexual deve ser falada em casa, quebrando alguns tabus, e também com outras pessoas. Não podemos dizer para uma criança que ela veio ao mundo de uma cegonha. Devemos falar de uma maneira lúdica e natural, mas sem mirabolar muito e de forma sutil, porque ela vai imaginar realmente isso.

JN: Quais problemas poderiam ser evitados com a educação sexual?

PM: Hoje, muita coisa já está diferente. É natural uma pessoa se assumir homossexual, ter relações sexuais com menos de 18 anos e também falar disso. Muito mais que a escola, a gente recebe a maior parte dessa educação como indivíduos na sociedade. A escola nunca vai dizer o que é certo e o que é errado, muitas vezes nos limitamos muito ao que as instituições de ensino pensam. Grande parte da educação sexual tem que emergir da curiosidade dos alunos. Também temos que ver como devemos diferenciar a abordagem para adolescentes e para crianças de cinco anos. Não falar o que é certo e errado, mas do que emerge do grupo e de cada um. Algumas vezes, a escola traz um material pronto que não tem nada a ver com o que os alunos estão interessados e ainda existe o risco de vir um educador despreparado. Precisamos ver o que os alunos precisam e querem aprender, mas acho que no nosso atual sistema educacional isso ainda é muito difícil.

JN: Quais são as consequências para as pessoas que não tem acesso a essas informações?

PM: As pessoas que não são informadas nesses assuntos são geralmente pessoas com menor poder aquisitivo, que não têm acesso a essas informações ou não as buscam, e o próprio governo não incentiva. Se uma pessoa quiser ir no posto pegar um anticoncepcional, ela precisa de autorização médica. Já é difícil você arrumar um médico no SUS (Sistema Único de Saúde), agora imagina você ir todo mês no médico para poder pegar seu anticoncepcional. A informação, hoje, está ao alcance de todos, temos tudo na mão. Quem quiser ter informação, consegue fácil. Claro que ainda existem pessoas que possuem condições financeiras para isso. Acho que a desinformação causa uma falta de planejamento familiar e revolta nos pais por não aceitarem um filho com diferente orientação sexual da que eles esperavam.

JN: O que se deve fazer antes, durante e depois do sexo?

PM: Toda relação tem um contrato imaginário, é algo que depende de você e do seu parceiro. Existe a relação sexual sozinha, mas se for com outra pessoa você precisa saber o que ele espera de você e o que esperar dele. Começar a perceber as coisas para saber o que é melhor para mim e o que é melhor para o outro. É importante a proteção para poder evitar uma gravidez e as DST’s (Doenças Sexualmente Transmissíveis). Caso você tenha um comportamento de risco [ter muitas relações sexuais], existem algumas técnicas e medicações que você pode fazer para evitar a transmissão.

JN: O governo tem se focado em campanhas de prevenção de DST’s apenas durante o carnaval, qual a sua opinião sobre esta postura?

PM: Eu acho que é bom ter a campanha durante o carnaval, mas acho que esse tipo de campanha é necessária sempre. Não só campanha de prevenção, mas também do sexo prudente e consciente. Existem algumas DST’s que são transmitidas até com o uso de camisinhas. As campanhas, apenas nessa época de carnaval, ainda não são o suficientes para nós.

JN: Qual o impacto da pornografia na vida dos adolescentes?

PM: O uso da pornografia não é ruim, até um certo limite. Os excessos nunca são bons. É necessário ter um equilíbrio, para que não atrapalhe quando o indivíduo for para a realidade. Na pornografia tudo é muito perfeito, a mulher sempre está disposta, os homens sempre com o órgão genital perfeito e isso geralmente não condiz com a realidade. A pessoa pode passar a querer viver um pouco da sua vida como na pornografia. A partir desse momento que a pornografia pode começar a atrapalhar, pois querer trazer o imaginário para o real acaba causando frustrações.

JN: Como a mídia deve lidar com o tema?

PM: Hoje em dia, com a internet, podemos assistir ao que quisermos. Ao contrário disso, existem as pessoas que não possuem tanta informação, a única informação que elas obtêm é através do que a televisão mostra. Existem muitos estereótipos, a mídia cria isso. Tanto de desempenho sexual, uso de preservativos, de higiene entre outras coisas.

JN: Quando e por que procurar um profissional sexólogo?

PM: Quando você não está lidando muito bem com suas questões pessoais em relação ao sexo, quando ocorre algumas disfunções sexuais e quando há a necessidade de se preparar para algum momento em que você precise de confiança.

JN: Quais são as principais problemas dos pacientes que buscam o apoio de um/a sexólogo/a?

PM: Geralmente, são os padrões de disfunções sexuais, tanto femininas quanto masculinas. As masculinas são os excessos, arnogasmia, ejaculação precoce. As femininas envolvem vaginismo, dificuldade de terem desempenho sexual. Também temos as questões dos transexuais, que querem assumir seus papéis como trans e, para isso, precisam de auxílio no processo de transformação e aceitação. É uma questão socioeducacional.

 

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