Apesar da violência urbana, vida noturna do Benfica reage

 

                                                                                              por  Alexandre Bessa

O bairro Benfica é berço cultural e histórico de Fortaleza. Por conta da proximidade entre universidades e instituições tecnológicas na região, o bairro é muito frequentado pela juventude, o que o torna local de boemia e negócios. No entanto, a região tem sofrido devido à violência urbana. No último ano, foram registradas várias ocorrências de tiroteios em bares locais, a mais famosa é a chacina que ocorreu no dia nove de março deste ano. Os atentados assustaram moradores locais e frequentadores da região, mas a vida noturna está voltando ao normal nos últimos meses.

De acordo com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), apenas em Fortaleza existem cerca de 270 bares associados, muitos destes no Benfica. O local também emprega quase 12 mil pessoas no ramo de serviços e comércio, de acordo com dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Pitombeira Bar existe há 20 anos. Foto: Alexandre Bessa.

Para uma das empreendedoras locais, Ilene Moura, 52, o bairro já foi mais frequentado pelos jovens. Proprietária do Pitombeira Bar, famoso entre os estudantes universitários, ela explica que o comércio vem sofrendo com a violência. “É muito complicado perceber a violência acabando com o ânimo da vida estudantil aqui das redondezas, sabe? Meu público são os jovens que vêm para cá socializar e se divertir, mas eles têm diminuído. Eu tenho tentando me adaptar a essa nova realidade, a do medo, mas não consigo. Amo o que faço e não me sinto bem trabalhando temerosa de que alguma tragédia possa acontecer”, relata.

Segundo Mário de Paula, 25, a juventude nunca deixará de frequentar o local, pois este é um ambiente de identificação. “Frequento a região por conta dos amigos, do encontro com pessoas que tem um estilo parecido com o meu. A sensação de medo constante é algo que se tem em toda a nossa cidade, infelizmente. Mas ainda adoro frequentar a região nos finais de semana. E a bebida barata também é ótima”, declara o jovem que trabalha como operador de master na emissora TV Cidade.

Thamiris Steil se sente insegura após a chacina. Foto : Arquivo pessoal.

Segundo censo do IBGE de 2010, o Benfica tem uma população de 12.822 residentes, sendo o maior número de jovens. Os idosos compõem a segunda maior população. Thamiris Steil, 19, é estudante e também faz parte da juventude que frequenta de forma assídua o bairro. “O que mais gosto aqui são as pessoas que encontro. Fico muito triste com a chacina que ocorreu em março. Me sinto bastante insegura com medo de que possa acontecer novamente. Mas gosto muito daqui e venho quase todo final de semana. Se pudesse, viria mais”, afirma a estudante.

Ainda segundo Ilene, apesar das dificuldades dos últimos meses, ela encara o futuro com esperança. De acordo com ela, o Benfica é um dos melhores bairros da cidade e a juventude tem a capacidade de trazer o local de volta à vida. Ela também explica que não pretende mudar a forma simples com a qual o bar lida com seus clientes. “Ano que vem fazem 20 anos que trabalho aqui com o Pitombeira e não pretendo parar. Adoro o meu público, que são os jovens. O Pitombeira é um bar simples e as pessoas gostam daqui por conta disso. Não quero mudar nada pra transformar meu estabelecimentos em um desses bares gourmet. Eu tenho muita sorte de fazer o que faço e sei que cedo ou tarde, as coisas vão melhorar. Mesmo que eu não esteja mais aqui viva para presenciar”, ironiza entre risos.

Entenda a chacina do bairro Benfica

No dia 9 de março de 2018, por volta das 23h, um carro parou próximo à praça da Gentilândia e seus passageiros começaram a disparar, atingindo várias pessoas. Foram cerca de 20 tiros. Localizada entre a Avenida da Universidade e a Avenida 13 de Maio, a praça estava lotada de frequentadores dos bares da região e estudantes, que voltavam de um show realizado na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará (UFC ). Três pessoas foram mortas na praça da Gentilândia.

Um segundo ataque foi realizado logo depois, na rua Vila Demétrios. Integrantes de uma torcida organizada estavam no local e também foram feridos. Outras três pessoas foram mortas no local. Além destes, outra vítima foi executada na rua Joaquim Magalhães. Ao todo, foram sete mortos. Ainda não se sabe se o massacre teve ligação com outras chacinas ocorridas anteriormente na cidade de Fortaleza.

Desde então, a população local ainda sofre com o medo de que uma chacina do tipo pode ocorrer novamente. “As pessoas gostam de frequentar e vir beber por aqui porque é um local que possui bares com bebidas baratas e pessoas legais. Mas o medo é muito grande, ainda hoje. Tenho tentado voltar a frequentar mais vezes aqui. Sinto falta de ver os amigos, e todo mundo se conhece por essas ‘bandas’”, declarou um morador da rua Adolfo Herbster, que preferiu não se identificar. Ele confessa que desde os últimos acontecimentos escolhe lugares estratégicos para se sentar e prefere não se arriscar, indo para casa mais cedo do que costumava.

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