Espaço Cultural é palco para cena musical independente e LGBT de Fortaleza

Alexandre Bessa e Cadu Vasconcelos

O Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, é um ambiente fértil para a diversidade, diversão, boemia e música, em especial voltada para o público LGBT. Por conta da temática cultural e do público jovem que frequenta o local, muitos artistas da cena musical independente LGBT da cidade encontram no Dragão do Mar um lugar de representatividade e divulgação. As boates que ficam aos arredores e a boemia frequentadora do local também contribuem para a existência desse espaço inclusivo. A recente intervenção artística revitalizou o espaço, atraindo o público e os artistas independentes, que estavam se afastando por causa da violência urbana. Festivais como o Maloca Dragão e o For Rainbow, também contribuem para o retorno dos frequentadores.

Banda New Model. Foto: Divulgação/reprodução.

Uma dessas artistas é Lola Aaliyáh Garcia, 23, vocalista da banda New Model, desde 2015. O grupo tem inspirações do pop e do rock e compõe músicas sobre as experiências da própria juventude em Fortaleza.  Lola, também DJ e performer, resolveu formar o conjunto musical após ser apresentada a Lua Underwood – com quem divide os vocais atualmente. “Eu não me sentia mais preenchida fazendo aquilo que vinha fazendo. Precisava provar a mim mesma que podia viver de música, sabe? Trabalhar e viver com isso. Era uma necessidade”, lembra. Juntas, a dupla consegue criar uma estética visual e musical com características  marcantes e inovadoras.

A vocalista também explica que não é fácil permanecer no mercado sendo uma mulher trans e de produção musical independente, sem nenhum contrato ou patrocínio. É necessário muito trabalho e paciência para conquistar um lugar. “Aqui em Fortaleza ainda não se tem tanto espaço. Sempre dependendo de editais para receber algum pagamento. Às vezes, até mesmo o próprio Dragão do Mar, infelizmente, demora para pagar o artista. É preciso se reinventar, usar os meios que se tem. Spotify, Deezer e Soundcloud são importantes ferramentas para que as pessoas possam nos encontrar”, salienta.

Lola Aaliyáh tem esperança que os artistas independentes e do cenário musical underground ganhem mais respeito. “Além do Dragão do Mar, outros espaços como o Porto Iracema das Artes e teatros da cidade também são favoráveis a visibilidade do nosso tipo de música. Por mais que seja um caminho difícil, é importante se ter os LGBTs em todas as artes. Mostrar que somos pessoas, que temos talento, sentimentos e inspirações. O que me motiva é o amor que sinto”, pondera a artista.

 

Iniciante no cenário musical, Henrique Vivazz, 20, cantor e compositor, é outro artista nesse segmento. Suas influências fazem parte do cotidiano da noite de Fortaleza e do pop eletrônico da cantora estadunidense Lady Gaga, bastante famosa no meio LGBT. A paixão pela música começou aos 15 anos de idade. “No começo, eu tinha medo do que iriam pensar de mim, visto que o Brasil é um dos países mais preconceituosos do mundo. Porém, após a ascensão de cantoras independentes, como Pabllo Vittar e Gloria Groove, me senti representado e vi que podia dar certo. Para mim, fazer música é a melhor coisa do mundo”, acrescenta o artista. Sua música dá voz à militância de uma forma diferente e contagiante.

Capa do Single “Algum Lugar”. Foto: divulgação.

Com o lançamento de faixas, como “Algum Lugar” e “Bixa Afrontosa”, com participação de Isabel Gueixa, o cantor investiu na divulgação em diversas plataformas digitais. Vivazz acredita que as plataformas de streaming oferecem ótimas oportunidades para as pessoas encontrarem seu trabalho, enquanto o espaço musical independente da cidade ainda avança em passos lentos. “A noite de Fortaleza hoje é diferente de outros estados. Aqui, um dos poucos lugares que dão espaço é o Centro Cultural Dragão do Mar e as boates que se encontram lá perto”, revela.

O cantor também discorre sobre questões de gênero na sua personalidade, transmitidas através de sua música. O artista se identifica como não-binário (em inglês, genderqueer), uma pessoa cuja identidade de gênero não se classifica como homem, mulher ou uma combinação entre os dois. “A estética do meu álbum explora a diversidade de gênero, existem várias pessoas abraçadas na capa do meu single “Algum lugar”. Gosto de brincar com essa questão dos gênero diferentes. Para mim, ser não-binário é ter liberdade de ser quem eu quiser ser, me sinto realizado comigo mesmo. O fator negativo está na sociedade que ainda não entende muito esse conceito”, reflete.

Além disso, Vivazz acredita no esforço como principal chave para o sucesso e inspira cantores que também desejam começar no ramo alternativo. “O que estou vivendo hoje, nunca imaginei. Você precisa lutar pelo que acredita. Deixei meu antigo trabalho e me sacrifiquei demais. O brilho está em você e ninguém pode tirar”, conclui.

 

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