“Eles mandavam a droga disfarçada de inhame” Carlos Alberto Colares, Policial Federal aposentado

Por Yasmim Rodrigues

A Polícia Federal é responsável por manter a segurança de diversos setores estratégicos do Brasil. O aeroporto é um deles. É por ele que chegam imigrantes e é, também, uma das principais portas para as tentativas de práticas de atividades ilícitas, como o tráfico internacional de drogas. Crime que pode resultar em uma pena de 5 a 15 anos de prisão.

Além dos aeroportos, os portos e as fronteiras secas são outros locais que a Polícia Federal fiscaliza. Assim, só é possível entrar no Brasil pelas áreas fiscalizadas. No aeroporto, principalmente, além da atividade de migração, existe também atividades de repressão a entorpecentes e ao contrabando.

O dia a dia de um agente federal, porém, é cheio de situações delicadas. Carlos Alberto Colares, 68, trabalhou em portos e aeroportos no setor de imigração como agente e delegado. Ele foi chefe da Polícia Federal, como agente, em Belém, de 1975 a 1978, e em Fortaleza, de 1980 até 1995. Aposentou-se aos 45 anos. Após a aposentadoria, trabalhou com advocacia na área de estrangeiros até o ano de 2015. O Jornalismo NIC entrevistou esse delegado federal aposentado para falar, entre outras coisas, sobre a questão da imigração e o tráfico de drogas.

Jornalismo NIC: Quais as formas mais comuns que são utilizadas para entrar ilegalmente no Brasil?

CC: Quando se entra por uma fronteira seca (limite entre países sem acidente geográfico natural) com visto de turista, por exemplo, mas começa a trabalhar no país. A atividade que está no passaporte não condiz com a atividade exercida e a pessoa passa a estar em uma situação irregular no país, tornando-se passível de deportação. A Polícia Federal faz a fiscalização dos vistos nos portos legais de entradas e também em todo estado para saber se algum turista burlou a fiscalização. Na minha época, houve uma situação a qual eu fui buscar estrangeiros em Camocim (município litorâneo localizado a 355Km da capital do Ceará, Fortaleza), pois o barco havia quebrado e eles entraram na cidade e, lá, não era um ponto legal de entrada.

JN: Como a Polícia Federal age quando há um suspeito de imigração ilegal?

CC: O estrangeiro é orientado a declarar quanto ele está trazendo. A legislação prevê que ele tem que mostrar meios [de subsistência] e, em alguns casos, comprovar a passagem de retorno. Se ele declarar um valor muito acima daquilo que ele vai precisar gastar, o policial deve ter a perspicácia de alertar o chefe dele que aquela pessoa pode ir para a vigilância específica. Porém, também ocorre uma multa pesadíssima para as empresas que empregarem um estrangeiro em situação irregular. Então, se um estrangeiro que está irregular tenta ser um investidor, por exemplo, o banco não abre conta para ele.

JN: Quais as ferramentas que a Polícia Federal tem para inspecionar alguma situação suspeita?

CC: Primeiramente, a polícia judiciária. Ela é o caminho para investigar, indiciar e encaminhar para a justiça para ser processado ou não. Os meios investigativos são os nossos conhecimentos policiais adquiridos na academia e no dia a dia. Os aparelhos que nós temos para auxiliar, as viaturas, os cursos, essas são as ferramentas do dia a dia.

JN: Quanto ao tráfico internacional de drogas, quais os critérios empregados para tornar um passageiro suspeito?

CC: É muito comum estar no aeroporto e ver a Polícia Federal tirar alguém da fila e já levá-lo para autuá-lo em flagrante, pois existe o despacho de bagagem. Quando os cães farejadores detectam alguma substância estranha, a pessoa é separada da fila. Vai até a sua bagagem e, na frente de testemunhas, a bagagem é aberta. Se constatada a infração penal, ela é autuada em flagrante. Eu presenciei um fato quando eu estava chefiando. A pessoa tinha um aspecto muito magro nos braços, tinha um pescoço fino, porém estava gordo, tinha algo esquisito. Ela estava usando um casaco e Fortaleza é uma cidade quente. Mesmo que estivesse embarcando para a Europa, naquela temporada, não estava frio na Europa. Mandamos tirar o casaco e, quando tirou, a pessoa estava com o corpo todo enrolado com pacotes de cocaína, quase 20 kg. Isso acontece com carrinhos de bebê e geralmente as pessoas são detectadas por perspicácia do policial ou até por informações fornecidas à polícia. Nos anos 1990, mesmo sendo da imigração, eu estive em um fato interessante que foi o Caso dos Inhames (grande apreensão de cocaína em Fortaleza), foram 600 kg de cocaína que nós pegamos. Eles mandavam a droga disfarçada de inhame, criaram um invólucro para 1 kg de cocaína com o aspecto do Inhame por fora e o misturavam com a carga. Eles exportavam inhame normal para o país deles, então para a Receita Federal, aquela exportação era de inhame.

JN: Quais são os casos mais comuns de pessoas que se envolvem com o tráfico internacional?

CC: Existem os chamados “mulas”. Recebem uma certa quantidade de dinheiro para ingerir, por exemplo, 1 kg de cocaína, muitos morrem. A “mula” geralmente sabe o que está fazendo, porque ninguém vai dar a outra pessoa 10 a 15 mil dólares para levar uma mercadoria sem que o lucro seja pelo menos o triplo do que se gastou. Então, dá para desconfiar. Porém, quando é uma quantidade menor, pode acontecer da pessoa não saber. Já houve um carrinho de bebê que tinha 2 kg de cocaína dentro dos tubos. Uma pessoa não vai desmontar todo o carrinho. Então, a quantidade ou o veículo pode indicar se a pessoa sabia ou não.

JN: Como é feito o controle de migração?

CC: Existem dois tipos de migração: a imigração, quando você está entrando no país, e a emigração, quando se deixa o Brasil. Para entrar em um país, tanto o Brasil como os outros, você deve estar condicionado para tal. Existem vários tipos de vistos, como o de turista, o visto de temporário seja para estudo, negócios ou assuntos religiosos; o visto permanente e outros que a lei contempla. Quando um passageiro entra por um ponto legal de entrada, ele não pode estar sem visto, pois se estiver, a empresa aérea que o embarcou é multada e todos os custos da deportação são debitados na empresa.

JN: Alguma situação que tenha marcado sua carreira no aeroporto?

CC: Houve um estrangeiro que vivia bem próximo a Canoa Quebrada, com a companheira e os filhos dela. Porém, ele tinha o costume de usar Marijuana e cultivar o Zabumba, um tipo de cogumelo alucinógeno. Ele foi denunciado, nós o prendemos e o deportamos para a França. Porém, de coração partido, porque ele queria estar perto dos filhos. Todo dia ele chorava e, quem for deportado por conta de entorpecentes, não pode retornar para o Brasil. Como os filhos não eram dele, não podia pedir permanência. Houve a quebra de uma família e foi muito pesaroso para nós.

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