Vazamento de nudes gera problemas emocionais

Por Letícia de Medeiros e Yasmim Rodrigues

“Eu não sabia o que fazer, para quem socorrer. Eu só conseguia pensar na minha mãe e no desgosto dela”. Assim começa o relato de Pollyanna Teixeira, 20, que teve sua intimidade exposta aos 14 anos de idade. “Eu havia enviado [fotos íntimas] para uma pessoa, coisa tola de primeira paixão adolescente. Começamos a trocar nudes como uma aposta, eu não sei muito bem como aconteceu, se ele de fato passou essas fotos para o melhor amigo dele, ou, como ele relata, esse amigo teria acesso ao seu celular e pegou as fotos”, conta.

Mais de 300 jovens tiveram problemas com fotos íntimas expostas sem consentimento. Foto: Reprodução

Essa é a realidade de muitos jovens que foram vítimas do vazamento de fotos íntimas e tiveram a sua vida mudada completamente. Pollyanna continua: “Lembro como se fosse hoje, quando eu descobri. Foi em uma sexta, na sala de aula, quando um amigo me chamou dizendo que tinham enviado uma mensagem para ele: ‘Você tem foto da Pollyanna nua? Você quer?’. Ele me mostrou, junto com um outro amigo dele. Esse amigo pediu na minha frente: ‘Me manda essa foto também’”, relembra.

Em 2016, mais de 300 jovens tiveram problemas com fotos íntimas expostas sem consentimento e recorreram ao Canal de Ajuda Safernet, que oferece o serviço de ajuda contra crimes e violações dos Direitos Humanos na internet. Desses 300 jovens que recorreram ao Safernet, 202 delas eram mulheres. Segundo o site do Safernet, entre as vítimas menores de 18 anos, 80% são mulheres. Os dados são referentes ao Brasil. 

O trauma

Com o vazamento de fotos íntimas, o trauma pela exposição de sua intimidade afeta a sua autoconfiança, assim como relata Pollyana Teixeira. “Em um domingo, foi criado um Instagram, com todas as minhas fotos. Seguiram todos que eu seguia, e foi assim que viralizou. Todos ficaram sabendo, até parentes no Rio de Janeiro e a diretora do colégio em que estudei. Eu fiz de tudo pra minha mãe não descobrir, engoli a seco tudo e todos os olhares. Não conseguia sair na rua a não ser de cabeça baixa, tinha a sensação que todos tinham me visto nua. Eu me senti um lixo, como se fosse um pedaço de carne em uma vitrine de açougue”, recorda.

Não conseguia sair na rua a não ser de cabeça baixa, tinha a sensação que todos tinham me visto nua (Pollyana Teixeira)

Pollyana perdeu contato com algumas pessoas, como o rapaz com quem se relacionava na época. “Fui tentar falar com ele, ele me ignorou”, conta. Mas, também recebeu ajuda de muitas outras. Na visão específica do trauma, a psicóloga Meline Carvalho, 34, explica que “o trauma acaba interferindo no processo de autorregulação organísmica da pessoa, na busca de autonomia, na busca de segurança. Então contamina sensações e impede que a gente consiga trabalhar de forma plena as fronteiras de contato. Essas experiências que não foram proveitosas deixam o sujeito hipervigilante, paralisado, trabalha com gestos de fuga, luta e sofre muito”, afirma.

A Lei

A lei Carolina Dieckmann protege vítimas desse tipo de invasão. Foto: Reprodução

Em 2012, o caso da atriz Carolina Dieckmann repercutiu em todo o Brasil. 36 fotos íntimas dela foram divulgadas, após uma tentativa de extorsão. Para não divulgar as fotos, o hacker pediu R$ 10.000 e a atriz decidiu não ceder à chantagem. Em entrevista para a televisão, Carolina contou sobre os momentos de angústia que passou. “Minha preocupação era só falar para desligar a internet, porque não queria que ele [o filho mais velho] tivesse acesso àquilo”, lembra.

O caso Carolina Dieckmann deu nome a uma lei, que entrou em vigor em 2012, e mais tarde protegeria as pessoas vítimas desse tipo de invasão. “A principal contribuição da Lei Carolina Dieckmann em relação a crimes cometidos contra mulheres é a tipificação da conduta de invasão de dispositivo informático alheio”, especifica o advogado criminal, Leandro Vasques, 44. “Conectado ou não à rede de computadores, mediante violação indevida de mecanismo de segurança e com o fim de obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização expressa ou tácita do titular do dispositivo ou instalar vulnerabilidades para obter vantagem ilícita”, explica.

Superação

Superar o trauma é um processo. Meline afirma que a relação entre o psicólogo e o paciente também ajuda na metodologia. “A gente trabalha na tentativa de buscar nessa terapia a segurança, uma confiança na relação interpessoal entre o terapeuta e o paciente, para que a afetividade na psicoterapia possa também ser trabalhada em cima do trauma. Segundo a psicóloga, a superação é algo que precisa ser trabalhada com cautela.

Para Pollyana, o passado foi um professor. “Hoje vejo mais como um aprendizado, e vejo que tirei de letra, que fiz o possível mesmo, e filtrei melhor minhas amizades. Me vejo mais forte depois de tudo”, explica. A jovem diz que o vazamento de suas fotos fez com que ela adotasse algumas condutas para prevenir que outras pessoas passem pelo que ela passou.“Jamais repasso fotos íntimas que recebo. Tento conscientizar [as pessoas], mas esse machismo enraizado, que faz a culpa sempre cair em cima da mulher, por ter tirado [a foto]. Em relação a outras meninas, eu aconselho a denunciar sempre, se manter de cabeça erguida. Denuncie sempre e nunca deixe que olhares de quem não sabe metade da pessoa que você é, lhe subjugarem”.

Box: Letícia Medeiros e Yasmim Rodrigues

Atualmente, Pollyana tem um projeto chamado Traços de Insônia. “É sobre poesia e nudez. Toda mulher, em algum momento seja para si, para mandar para um outro alguém ou para ver como o corpo está, naquele momento de autoestima lá em cima, usa a nudez. Elas me mandam isso e eu posto, posso colocar ou em anônimo, ou com marcação, elas escolhem. As legendas são escritas poéticas, escritas por mim, ou por algum autor que mandou seus versos”, explica.

O endereço do projeto no instagram é: @tracosdeinsonia

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