“ É necessário se trabalhar para convivermos de forma democrática e com respeito às diferenças”

Alexandre Bessa

Carlos Sampaio, secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), em entrevista exclusiva ao Jornalismo Nic, defende o trabalho da Justiça Eleitoral e a convivência democrática dos cidadãos, com respeito às diferenças ideológicas. Assim, falou sobre temas polêmicos recorrentes nas últimas semanas e o que se pode esperar desse segundo turno de eleição.

Em um cenário político polarizado e de ânimos acirrados, o primeiro turno das eleições de 2018 foi cercado de polêmicas. Dos 16 candidatos que buscavam a presidência do Brasil, restaram apenas dois para um segundo turno do pleito, que será realizado no dia 28, um domingo. Tendo em vista a disputa entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, de partidos e ideologias opostas, o Jornalismo NIC procurou elucidar algumas questões controversas para os nossos leitores.

JornalismoNic: Nas eleições de 2014, a opção pelo voto branco e nulo foi o maior índice desde as eleições de 1998. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que, apesar de uma leve diminuição, o índice desses votos continua alto. Como o senhor avalia esse fenômeno?

Carlos Sampaio: Em eleições desse tipo, com muitos cargos para serem votados, como foi a do ano de 2014 e o primeiro turno de 2018, percebe-se que o eleitor não conhece bem a sequência de votação. No geral, ele [eleitor] não leva sequer a cola com o número dos candidatos e acaba se perdendo na hora de votar, votando de forma incorreta e invalidando, assim, seu voto. Isso contribui em grande parte para o número de votos nulos em eleições como esta. Nós realizamos testes feitos nas urnas e estes mostram que o número de votos nulos por erro é enorme.

JN: Qual a principal diferença no que diz respeito aos números e tipos de votos  entre o primeiro e no segundo turnos das eleições?

CS: O segundo turno é mais fácil. Geralmente, os eleitores mais indecisos tendem a estreitar suas escolhas e optar por um candidato para o segundo turno. Os votos brancos e nulos, no segundo turno, são aqueles eleitores que não tem realmente nenhum candidato que os representa. Isso, muitas vezes, causa o aumento da abstenção. Nas eleições para presidente de 2006, o candidato que perdeu no segundo turno obteve ainda menos votos do que no primeiro. Ou seja, muita gente que votava nesse candidato percebeu que ele provavelmente perderia de qualquer forma e se absteve de votar.

Fonte: G1

JN: Como o senhor avalia o argumento de que as pesquisas eleitorais podem acabar por moldar a opinião e a escolha de voto dos eleitores? As pesquisas influenciam a escolha de voto?

Carlos Sampaio: Existe toda uma legislação que estabelece como pesquisas desse tipo devem ser feitas. Mas o que se percebe é que muitas vezes as pesquisas não batem com o resultado final da eleição.

JN: Uma das polêmicas mais comuns em pleitos é sobre a importância do voto útil em um cenário de dualidade política. Qual sua opinião sobre essa prática? É perceptível a prática  desse tipo de voto?

CS:  De acordo com o que as pesquisas apontavam antes do primeiro turno das eleições e após o resultado final, é aparente que se teve esse tipo de voto. Pessoas que achavam que determinado candidato [rejeitado por elas] poderia vencer as eleições, preferiram outro [com condições de vencê-lo], e acabam por direcionar seu voto contra esse determinado candidato.

JN: Qual sua opinião sobre a obrigatoriedade do voto?

Carlos Sampaio: Essa questão é muito relativa à cultura. Aqui no Brasil, acho que ainda não se pode abrir mão da obrigatoriedade do voto, pois isso pode favorecer com que determinados grupos manipulem com maior facilidade as eleições. É um perigo que as votações deixem de ser um retrato da vontade da população. Nota-se que, por conta dos escândalos de corrupção, a classe política no Brasil está desacreditada. Porém, creio que o caminho para melhorar o país é através da política, através do voto, buscando a renovação da democracia. Não sei dizer se o brasileiro hoje estaria preparado para o voto facultativo, mas acredito que isso aumentaria muito o índice de abstenção. Por final, isso acaba por deslegitimar a eleição e o candidato eleito, pois este seria eleito baseado em uma parcela muito pequena da população. Acredito que talvez por uma ou duas gerações que ainda estão por vir, o voto obrigatório deva ser um caminho e realidade.

JN: Qual sua análise sobre a vulnerabilidade da urna eletrônica?

Carlos Sampaio: Isso é um assunto que sempre surge em eleições gerais, para presidência e outros cargos. É até engraçado, pois em eleições municipais, não se ouve a respeito desse assunto. Nessa eleição de 2018, ocorre algo estranho. Quem está denunciando fraude de urnas eletrônicas são os candidatos mais votados e não os com o menores números de votos. O fato é que o Brasil já usa a urna eletrônica há 22 anos e não há nenhum caso de fraude em processo eleitoral comprovado nesse tempo de uso.

JN: Porque a confiabilidade da urna eletrônica sempre volta à pauta? O voto impresso seria uma maior garantia de segurança? Traria alguma melhora para o sistema?

Carlos Sampaio: Para nós da Justiça Eleitoral e para mim particularmente, que já estudei e participei de comissão no TSE que trata sobre o assunto, o  voto impresso é uma falsa sensação de segurança. Existe um senso comum entre a população de que o voto impresso é impossível de ser fraudado, pois se tem o comprovante físico do papel, mas não é bem assim. Ambos os tipos de votos são fraudáveis, com o comprovante impresso ou não. Nós da Justiça Eleitoral queremos que se tenha também o voto impresso para acabar com a polêmica em relação a urna eletrônica. Mas, para mim, não é uma solução que seja necessária. O componente humano na questão e o aspecto cultural podem até mesmo aumentar o número de fraudes, coisa que no voto eletrônico não se tem. Nessas eleições de 2018, estávamos prontos para iniciar a implantação do voto impresso, porém, o Supremo Tribunal Federal declarou que era inconstitucional. Então, o fato de não se ter o voto impresso na eleição presidencial deste ano não é por conta da justiça eleitoral, mas por escolha do STF.

JN: Como o senhor avalia o impacto da disseminação de informações na internet e o fenômeno das fake news?

Carlos Sampaio: Para nós, nessa eleição se teve um impacto negativo. O maior foi na divulgação de notícias falsas sobre fraude no sistema da urna eletrônica. Esse tipo de notícia falsa se espalha em uma velocidade assombrosa. Muitas notícias denegrindo o trabalho da Justiça Eleitoral, quando, na verdade, essas pessoas não conhecem nosso trabalho e falam sem conhecimento, ou apenas reproduzindo um discurso que ouviram de terceiros. Todo o procedimento de preparação de sistemas, transporte de urnas, do sistema como um todo é aberto à fiscalização de partidos. Porém, nunca há tal fiscalização por conta deles. O código fonte é aberto a partir de seis meses antes da eleição. Os próprios partidos podem checar se os programas estão funcionando como deveriam e fazendo o que deveriam fazer, mas nunca aparece ninguém. Depois, quando surge algo fora do padrão, ou um eleitor vota errado, se reclama de fraude e nós somos bombardeados de denúncias sem fundamento. Nesse ponto específico, tem sido bem ruim para nós. Por outro lado, a mídia tem sido favorável ao posicionamento correto. Ela não tem dado muito alarde a essas denúncias e a própria têm investigado para checar se tais denúncias têm fundamento ou não, chegando a conclusão que quase todas elas são fake news. O impacto desse tipo de informações tem sido grande nessas eleições, apesar que sempre se teve esse tipo de situação.

JN: É possível avaliar, enquanto profissional do TRE, o atual cenário político do país?

Carlos Sampaio: Estamos vivendo em um cenário político bastante conturbado. Desde a eleição de 2014, o país se dividiu e se encontra muito polarizado. O ideal seria que, independente de quem vença a eleição presidencial, o novo presidente tivesse como meta unir o país. Unir o país em cima de propostas, inclusive, e não de alianças formadas através de afinidade. É necessário que este procure trabalhar para que nós convivamos em um ambiente democrático e com respeito às diferenças. Que todos possam ter a sua voz e jamais se governe através de ataques pessoais e de baixo nível. Sempre se utilizando de propostas e boas ações. É isso que eu espero para o país, independente de quem vença a eleição presidencial.

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