“A drag é uma figura questionadora, é a contraversão da sociedade em que vivemos”

  Alexandre Bessa

É com magnificência que Rodrigo Ferrera, 26, se apresenta no palco. O artista ao incorporar seu alter ego Mulher Barbada consegue se deixar registrado na mente de quem o assiste. A experiência de assistir à Mulher Barbada só se faz completa por aqueles que alcançam os instantes em que a arte se mostra viva e visceral.

Não se sabe precisar exatamente onde termina Rodrigo e onde começa a Mulher Barbada. Aos poucos, um vai dando lugar ao outro. Eles se vazam e se confundem continuamente. Quando questionado sobre isso, admite que não saberia explicar. Tem alguns momentos em que um se sobressai ao outro, momentos que ainda não sabe diferenciar ao certo quando ocorrem, porém, sabe, com certeza, que existem. “É um processo. Entende? A descoberta. Não é só colocar os cílios ou o enchimento – apesar de que isso também faz parte -, mas é algo que é contínuo, mesmo antes ou depois desses momentos”, comenta Rodrigo.

Para Rodrigo, a Mulher Barbada é um contínuo processo de descoberta. Foto: Paulo Sena/ Tribuna do Ceará

Sob a luz forte de um único refletor, a Mulher Barbada canta com presença. Quem entende do trabalho com arte, do processo de performance e da concepção de cena, se flagra admirando a beleza técnica do trabalho. O público leigo, por sua vez, ganha a complexidade e a verdade expressas pelo potencial humano nas artes representado ali por Ferrera.

Metamorfose e aceitação

Mulher Barbada, em uma apresentação. Foto: Reprodução

Um grande impulso para que Rodrigo Ferreira pudesse aperfeiçoar seu modo de se expressar foi o Curso de Princípios Básicos em Teatro (CPBT) do Theatro José de Alencar, em Fortaleza. Lá, teve como um de seus mestres o professor Joca Andrade, que o ajudaria nesse processo de descoberta. “O Joca mudou minha vida”, comenta. Mesmo após ter se formado no curso, o ator permaneceu próximo a Andrade e atuou com as outras turmas que o sucederam.

Porém, nem sempre teve um Joca Andrade. Rodrigo, com apenas 26 anos de idade, admite que já enfrentou situações de insegurança, de dúvida e de constantes mudanças em sua vida. Quando jovem, assistia a tutoriais de maquiagem e figurino no Youtube para satisfazer sua curiosidade artística, mas já sabia que queria ser ator. Hoje, se transformou em um artista cheio de facetas pois, segundo ele, “é com a mudança que vem a aceitação”. Processo de descoberta sem o qual não seria possível o nascimento da Mulher Barbada.

“Apesar de crescer em um lugar com características muito machistas, sempre tive uma mãe e uma avó que me apoiaram e aceitaram em todas as minhas decisões. Falei abertamente sobre a minha sexualidade com meu avô pela primeira vez com 15 anos de idade e, como consequência, ficamos meses sem nos falar. Acho que, talvez, naquele momento, eu tenha tido pela primeira vez a noção do poder que tenho ao me autoafirmar”, explica Rodrigo como aceitou sua parcela feminina.

Apesar de crescer em um lugar com características muito machistas, sempre tive uma mãe e uma avó que me apoiaram e aceitaram em todas as minhas decisões (Rodrigo Ferrera)

É a metamorfose, a mudança e a aceitação do processo. As diferentes fases que o indivíduo sofre moldam o repertório do artista. Nasce, então, a barba, o pelo que dá vida e modifica o rosto, acentuando, assim, a nova persona. Acentuando apenas o que sempre esteve lá. Entre suas referências, está a drag Mathu Andersen, do famoso reality show americano Ru Paul’s Drag Race, edição de 2009. Mathu ostenta uma vistosa barba branca, sua marca registrada.

O mistério entre o feminino e o masculino é o que envolve e estimula Rodrigo. Ele revela que, caso não tivesse a barba como sua aliada, acabaria optando pelo visual andrógino. Mas, por acaso, a barba existe e ela acaba fazendo com que Rodrigo se torne ainda mais feminino.

Coletivo artístico “As Travestidas”

Rodrigo Ferrera faz parte do Coletivo As Travestidas. Foto: Reprodução

A música e a performance já estavam consolidadas no artista quando a  curiosidade o levou para o ‘Coletivo Artístico As Travestidas’, cujo idealizador é Silvero Pereira, com seu alter ego Gisele Almodóvar, conhecida agora por todo o país.  Na época, o tema da transexualidade era menos explorado pela mídia e, consequentemente, desconhecido da sociedade. O coletivo sempre teve em sua história espetáculos e montagens colocando em pauta assuntos polêmicos como transexualidade, transformismo, crítica à violência e os diversos preconceitos sofridos por aqueles que vivem à margem da sociedade. Dessa forma, foi terreno fértil para que Rodrigo pudesse colocar em prática todo sua subjetividade.

De início, ele iria fazer papel apenas do elenco de “Quem Tem Medo de Travesti”, mas logo o convite se estendeu também para fazer parte do “Cabaré das Travestidas”. “Nesse momento, eu gelei, mas topei o desafio. No Cabaré, eu tinha que ter uma persona drag ou transformista e eis que surge a Mulher Barbada”, revela. Hoje, Rodrigo também faz parte do elenco do espetáculo “Trans-Ohno”, que é inspirado dança-teatro butoh do artista Kazuo Ohno.

O papel da drag na sociedade e o futuro

Segundo Rodrigo, tentar compreender o papel da drag na sociedade atual é algo difícil de se fazer com precisão. A drag, de acordo com ele, pode ser tratada enquanto entretenimento, negócios ou política. “É importante lembrar que a drag é uma figura questionadora. Ela é uma contraversão da sociedade em que vivemos, ela é o exagero vívido”, afirma.

Ele ainda explica que a drag é uma figura de resistência por colocar no próprio corpo aquilo que é e acredita. Sobre o futuro, Rodrigo explica que o lugar da arte é muito impreciso, até mesmo por conta dos vieses políticos e sociais instáveis. Porém, ele diz que, apesar da insegurança, existe um mercado crescente e milionário musical de artistas LGBT’s emergente. Esse cenário engloba artistas como Pabllo Vittar e Johnny Hooker.

Rodrigo diz que quer lançar seu trabalho autoral há bastante tempo. Os planos e parceria com Silvero e o Coletivo continuam ativos e já existem planos para o Carnaval do ano de 2019, que englobam o bloco de carnaval As Travestidas e novas músicas que estão chegando. Apesar da incerteza da sociedade atual, é com esperança e sinceridade que ele encara o futuro. E, acima de tudo, com arte.

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