“Cinema do Dragão é um projeto autossustentável”

Por Carolina Melo e Gabriel Lopes

O cinema artístico tem uma riqueza cultural que costuma passar despercebido aos olhos do público mais jovem. Já os filmes do gênero blockbuster, típicos dos grandes cinemas comerciais, são elaborados  com efeitos visuais especiais e uma trama ativa que prendem a atenção do espectador. Este gênero cinematográfico atrai um público maior quando comparado ao público dos filmes artísticos. Em contrapartida, os filmes artísticos contam com uma dramaturgia composta por mais detalhes e as cenas ocorrem de forma gradativa. Por não lançarem mão de efeitos especiais e outros recursos apelativos, exigem uma maior atenção de quem o está assistindo e um gosto mais elaborado para o estilo.

Para tratar sobre essa modalidade de cinema em Fortaleza, o JornalismoNIC conversou com Pedro Azevedo, 25, formado em Cinema e Audiovisual pela Unifor, curador e programador do cinema Dragão do Mar há 5 anos. Na conversa, debatemos sua opinião sobre a apreciação do cinema artístico pelos jovens, como ocorre o funcionamento do cinema e como é feita a seleção dos filmes que entram em cartaz.

Jornalismo NIC: Em que foi baseado o atual formato do Cinema do Dragão?  

Pedro Azevedo: Essas salas foram inauguradas no fim dos anos 1990. Na época, elas eram administradas pelo UNIBANCO. Em 2013, o Governo do Estado do Ceará, em parceria com o Instituto Dragão do Mar e a Fundação Joaquim Nabuco, assumiram a gestão do cinema, quando houve uma virada no ponto de vista de gestão, pois as salas passaram a ser um espaço público, um espaço para a cidade. Nós nos inspiramos muito nas salas do cinema da Fundação de Recife. Essas salas do cinema da Fundação, que hoje são duas, eram geridas e programadas por uma dupla de curadores muito experientes, Aloísio Joaquim, que é um crítico de cinema e escrevia para a Folha de Pernambuco, e Cléber Venâncio Filho, diretor da Aquarius, que é um dos cineastas mais respeitados no Brasil. Por meio dessa parceria, desde 2013, a gente vem tentando experimentar um espaço novo na cidade, um espaço que promova a formação de plateia, ou seja, uma programação que foge do grande esquema comercial. Hoje, há um circuito bastante extenso no Brasil de filmes que nós chamamos de alternativos, independentes ou de arte. Nós buscamos oferecer o máximo de opções possíveis para as pessoas, exibindo filmes de todas as partes do mundo, dando atenção ao cinema brasileiro e ao cinema cearense.

JN: Como é feita a triagem dos filmes que serão exibidos no cinema?

PA: Apesar de termos salas do Estado e fazer parte do circuito alternativo, nós cobramos ingressos e existe uma agenda semanal do circuito brasileiro. No caso dos filmes brasileiros, por exemplo, nós temos vários parceiros importantes que apoiam o cinema brasileiro independente. Mas nós tentamos equilibrar muito bem essa situação da demanda comercial, os filmes que estão sendo ofertados pelo mercado com os filmes que nós achamos que fazem sentido e são importantes de serem exibidos na cidade. No Brasil, existem muitos festivais de cinema. A produção de longas-metragens, principalmente de curtas-metragens, é enorme, e a maioria desses filmes sequer tem a oportunidade de passar nas salas comerciais. Enquanto curador e programador das salas, eu circulo bastante entre festivais para poder entender como vai se desenhar o circuito e quais filmes são interessantes e que dialogam com o nosso público.

JN: O público que frequenta o Cinema do Dragão é predominante jovem. Por qual motivo você acha que esse tipo de público é atraído?

PA: Eu diria que é sensível perceber que nós temos um público universitário muito forte, um público que está principalmente nas universidade públicas. É um público que adere facilmente e de forma muito forte a nossa programação. Dito isso, eu diria que nós temos faixas bastante variadas de pessoas que já frequentavam as salas, desde os anos 1990, pessoas que são mais velhas. Eu diria que nós temos um público jovem universitário, talvez seja o perfil predominante. Talvez exista um diálogo mais direto com as questões que estão sendo postas na programação, com os debates que nós propomos. Eles têm um apelo muito forte com a juventude e com as pessoas que estão interessadas em fugir do circuito cultural óbvio da cidade. Eu acho que esse público está bastante ávido por opções culturais, que tratem de questões que eles estão vivendo.

JN: Segundo a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, 3022 roubos e 87 homicídios aconteceram na Praia de Iracema e arredores, no ano de 2017. De que maneira o Cinema do Dragão atrai seu público diante dessa realidade?

PA: A violência na capital cresceu sistematicamente, muito em razão do crescimento do crime organizado. A Praia de Iracema e o Centro, historicamente, é uma área que à noite, salvo os fins de semana, é realmente tomado. Dito isso, eu realmente acredito no poder da cultura e da arte como um motor de tentar tirar esse medo das pessoas, porque eu acho que os espaços precisam ser ocupados. Nós sempre enfrentamos esse problema da violência, não é nenhuma novidade. A forma que nós encontramos de contornar esse problema é continuar existindo, é continuar propondo uma programação rica, uma programação diversa, uma programação atraente, tirar as pessoas da zona de conforto delas. É sempre um processo muito importante. Ainda há pouco tempo, acho que não faz nem um mês, a Prefeitura realizou um projeto de requalificação urbana, aqui nos arredores do Dragão, com uma série de atividades culturais e teve o aniversário da escola Porto de Iracema, que ocupou a rua.

JN: Essa ação trouxe algum crescimento no público?

PA: Eu acho que sim. Na verdade, esse espaço é naturalmente ocupado, porque não tem só as salas de cinema, tem museu, galeria, escola e teatro. Eu acho que esse tipo de ação só vem para agregar e trazer ainda mais gente para o espaço.

JN: Comparado com os maiores cinemas da cidade, o Cinema do Dragão cobra um preço acessível para suas sessões. Como o cinema consegue manter a sua estrutura?

PA: É importante ressaltar que o projeto do Cinema do Dragão é um projeto autossustentável. As salas conseguem se manter a partir de receita própria e do que entra de bilheteria. Isso é algo sempre muito importante nesse projeto em formação, que é manter um preço acessível, principalmente a essas pessoas de faixas etárias mais jovens. Normalmente são estudantes, que, quando têm emprego, recebem salários baixos. Outro ponto importante é a inclusão, que é trazer as classes menos favorecidas para a sala de cinema também. É um projeto público, para a cidade. Então, o cinema consegue se sustentar, e isso é ótimo. Mas ele não é um cinema que funciona a partir da lógica do lucro. Isso não é algo que temos em vista, pois nós sabemos que existem filmes que têm menos apelo de público, mas que são filmes muito importantes, que precisam ser exibidos. A política de ingresso em um preço acessível é uma política pública e é algo que defendemos desde que as salas foram re-inauguradas, que as salas ofereçam uma programação e uma experiência muito diferente da experiência do cinema de shopping. Você paga o ingresso barato para assistir a um filme de qualidade excelente, algo que, às vezes, mesmo pagando um caríssimo em um shopping, acabamos tendo uma experiência desagradável. Essa excelência técnica, qualidade de imagem e de som, é algo que preocupa muita gente para ser um diferencial. Inclusive, essa excelência técnica, aliada ao ingresso barato e com uma programação atraente, são todos fatores que atraem o público que talvez esteja fora dessa zona de ocupação dessa área.

JN: Qual é sua opinião acerca da indústria cultural, que acaba padronizando as temáticas de filmes, especialmente em relação aos filmes que disputam grandes premiações?

PA: O que nós vemos no circuito de exibição é um padrão de consumo. Isso é feito para que as pessoas continuem na zona de conforto delas. Nada contra, aliás. Eu defendo inclusive a pluralidade de propostas, desde que não haja um monopólio. O que acontece muitas vezes em Fortaleza é que a maioria das salas estão passando sempre o mesmo filme, os blockbusters, os filmes de ação, os filmes de super-herói. Eu encaro isso como um sinal do tempo que nós vivemos, e isso não acontece somente no cinema, ele acontece também na música, nos quadrinhos, na cultura popular. A cultura de massa tende a se padronizar para que ela possa ser viável comercialmente. A nossa proposta é fugir um pouco disso, apesar de, enquanto cinéfilo, como alguém que estuda e gosta de cinema, eu respeito todas as propostas, mas eu encaro como um problema, como uma ameaça, quando existe um monopólio. No Brasil, existem poucas políticas de proteção ao cinema nacional, dentro do circuito de exibição, do circuito do parque exibidor. Poderíamos buscar entender como em alguns dos países existem modelos de proteção ao cinema nacional, como na França, por exemplo, que existe uma cota mínima de filmes produzidos nacionalmente sendo exibidos nas salas de cinema. Talvez nós pudéssemos encontrar algum caminho para aumentar o leque e de fato oferecer ao público uma variedade real de filmes que são produzidos, pois o que encontramos na maior parte das salas de cinema é uma parcela muito pequena daquilo que é produzido, principalmente no Brasil.

 

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