Curso de medicina discute movimento feminista

Por Marta Negreiros

O feminismo, movimento social e político que tem como objetivo conquistar o acesso a direitos iguais entre homens e mulheres, vem ganhando cada vez mais espaço de debate em várias áreas da sociedade e na mídia. No meio acadêmico a discussão é de inegável relevância, já que o movimento envolve questões como segurança, ética e saúde. Ontem (25), a professora do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor), Aline Veras,  mestre em Saúde Coletiva e atuante da área de ginecologia com enfoque em sexualidade humana, ministrou uma palestra sobre feminismo para estudantes de medicina e abriu uma discussão importante sobre os direitos das mulheres na sociedade.

Aline Veras,  mestre em Saúde Coletiva e atuante da área de ginecologia, durante a palestra. Foto: Ares Soares.

Veras apresentou uma linha do tempo das lutas feministas desde o século XVI, na Revolução Francesa, quando a Marcha das Mulheres a Versalhes ocasionou a saída da família real do palácio de Versalhes para Paris, até os dias de hoje. A professora apontou três ondas importantes do feminismo na história. A primeira está diretamente ligado ao direito ao voto e a direitos trabalhistas iguais, que teria ocorrido no século XIX e avançado pelo começo do século XX. A segunda onda aconteceu na década de 1970, ampliando a discussão para uma diversa gama de questões: sexualidade, família, mercado de trabalho, direitos reprodutivos e desigualdades legais. A última onda surgiu a partir dos anos 1990 e foi uma ampliação das discussões da onda anterior, acrescentando pontos como ideologia de gênero, feminismo negro e de terceiro mundo.

Outra temática importante abordada por Veras foi a questão da violência contra a mulher. Mesmo com a decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal, em 2012, permitindo que qualquer pessoa, não apenas a vítima de violência, possa registrar ocorrência contra o agressor, estima-se que apenas 16% das agressões são denunciadas, segundo dados mostrados na palestra.

Presentes na discussão sobre feminismo. Foto: Ares Soares.

“Não é atoa que a Ariel abriu mão da sua voz para ir atrás do seu príncipe”, exemplificou Veras, através do filme da “Pequena Sereia”, longa infantil produzido pela Disney, para abrir a discussão sobre os discursos culturais enraizados que oprimem a mulher. Baseado no período da Segunda Guerra Mundial, a professora colocou em evidência filmes lançados na época que mostram como a mídia em geral também influencia o pensamento machista. Antes da guerra, a Disney lançou os clássicos da “Branca de Neve” e “Bela Adormecida”, mulheres que dormem e só podem ser acordadas pelo príncipe, exemplificando a dependência feminina do sexo masculino para sobreviver. Quando a guerra eclodiu, os homens tiveram que sair das fábricas para o campo de batalha, disso nasceu o discurso do “We can do it” (“Nós podemos fazer isso”, em tradução livre para o português) para encorajar a mulher a trabalhar. Nesse período também foi lançado o filme da “Mulher Maravilha”. Mas no período pós-guerra, com o retorno dos homens, as mulheres precisam voltar para a casa e para o trabalho doméstico, foi quando a Disney lançou “Cinderela”.

Fazendo um comparativo com toda a linha do tempo do feminismo, Veras concluiu que a maior parte dos desafios de ontem, ainda são os de hoje. “A frase ‘Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida’, de Simone de Beauvoir nunca foi tão atual”, opinou.

Gabriel Bezerra, 21, estudante de medicina exaltou a importância de eventos voltados para a discussão do feminismo. “Eu fui criado em uma família altamente machista, e são ações como essas que me fazem abrir os olhos sobre coisas que antes eu considerava ‘mimimi’. E, se até eu consegui ouvir, é prova que a luta das mulheres está no caminho certo, que elas estão conseguindo gritar”, declarou.  

O evento aconteceu no NAMI, Núcleo de Atenção Médica Integrada e foi aberto a alunos de todos os cursos.

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