Busca por alívio de irritação nasal pode causar vício em descongestionantes

Por Letícia Serpa

No mês passado, a Anvisa suspendeu 12 lotes de uma marca de descongestionante nasal por constatarem um desvio de qualidade nos produtos. A mercadoria seria utilizada para desentupir as vias nasais de pessoas com problemas de rinite alérgica ou sinusite. Esta mesma medicação, e outras semelhantes, acabam sendo usadas em excesso durante o tratamento para controlar os sintomas recorrentes da doença, causando prejuízos à saúde de seus usuários.

Marília Pinheiro, otorrinolaringologista. Foto: arquivo pessoal.

Segundo a otorrinolaringologista, Marília Pinheiro, os descongestionantes nasais têm efeitos colaterais prejudiciais por serem vasoconstrictores. “Eles resultam no fechamento dos vasos sanguíneos e, dessa forma, causam picos hipertensivos e pré-estabelecem a hipertensão com o uso prolongado”, afirma. Outro efeito prejudicial é o irritamento nas mucosas nasais, que pode provocar sangramentos e ressecamentos nasais.

Em uma enquete realizada pelo Jornalismo NIC, com 234 pessoas, 141 assumiram que têm vício na medicação. A maioria assumiu carregar embalagens do remédio consigo, caso sintam necessidade do uso.

A médica explica que o vício ocorre porque a medicação costuma dar, ao paciente, um efeito de abrir as fossas nasais com muita rapidez, a chamada vasoconstrição. “O descongestionante abre espaço para a pessoa respirar com muita rapidez. Ela fica querendo aquele efeito prolongadamente, porque ele age rápido, mas também demora pouco tempo nessa ação. Por isso, a pessoa quer usar repetidas vezes para ter uma boa respiração e manter esse efeito satisfatório prolongadamente”, esclarece.

“O meu coração batia mais rápido, porque eu usava bastante descongestionante”

Thiago Melo, estudante de Jornalismo. Foto: arquivo pessoal.

Usar descongestionantes nasais era um hábito comum para o estudante de jornalismo, Thiago Melo, 20. “Eu tenho problema de rinite alérgica desde criança e, em uma das vezes que eu estive em crise, a inflamação foi tão séria que desceu secreção para o ouvido”. O estudante relata que, por causa das constantes crises, começou a criar um costume de usar o descongestionante. “Eu usava o descongestionante quando estava em crise alérgica, mas depois, mesmo após o término da alergia, o meu nariz ainda ficava entupido e eu me tornei um viciado, refém do medicamento”, conta.

Sentir o seu coração mais acelerado, como se estivesse com uma arritmia cardíaca, era um dos efeitos colaterais sentido pelo estudante. “O meu coração batia mais rápido, porque eu usava bastante descongestionante. Então eu pesquisei e descobri que [o remédio] gerava taquicardia. Além de fazer mal para o coração e para o olfato, já que eu poderia perder o olfato com o tempo”, enfatiza. Depois de um tratamento com corticoide, os cartuchos do nariz do estudante começaram a desinchar. “Hoje eu não uso mais nada, porque não entope como antigamente, me sinto bem mais confortável ao respirar”.

Tratamento

Marília Pinheiro afirma que a melhor forma de tratar o vício seria ir dessensibilizando a pessoa do medicamento. “Eu sempre oriento os pacientes a ir diluindo o frasco com soro fisiológico, a medida que ele vai consumindo o produto, para deixar mais fraco”. Se o medicamento for tirado de uma vez, o usuário pode sofrer de efeito rebote, que é a vinda da obstrução nasal intensa, pois o nariz já se acostumou com aquela medicação.

Também é preciso a introdução de outro medicamento, menos nocivo que os descongestionantes, que trate esse problema da obstrução nasal. “É o exemplo dos corticoides nasais, sprays que agem a nível local no nariz e que podem ir reduzindo os cartuchos, desinflamando a mucosa nasal e fazendo com que o paciente tenha um espaço para respirar melhor. Algumas pessoas conseguem ter uma boa resposta, ao tirar o descongestionante e ficar só no corticóide. É interessante tratar os fatores alérgicos que geralmente são as causas dessa obstrução nasal”, explica.  

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