Apostas online: entretenimento que pode se tornar um problema de saúde

Por Gabriel Lopes

O mercado de apostas online, ano após ano, ganha adeptos que perdem consideráveis quantias com elas. Segundo a Revista Época, os brasileiros perderam US$ 4,1 bilhões de dólares em sites de apostas e loterias no ano de 2015. O grande número de sites internacionais para apostas online – cerca de 400 sites, de acordo com levantamento do portal Exame – contribui para que quantias bilionárias sejam perdidas todos os anos pelos apostadores.

O número de apostadores cresce cada vez mais no Brasil. Foto: Reprodução

 João Marcelo de Oliveira, 18, empresário, aposta frequentemente online desde 2015. “Eu gostava muito de assistir esportes e um amigo meu me disse que tinha como apostar em placares de jogos, em quem faria os gols, em qual time seria vencedor dos confrontos. Então, eu comecei a apostar na época, com quantias baixas, 5 ou 10 reais”, relata.

No começo, a frequência das apostas era alta. João Marcelo conta que “no início, quando se começa a ganhar, o número de apostas é elevado, chegando a cinco apostas por dia, em média”. Porém, segundo o jovem, ele parou de apostar por seis meses após perder uma grande quantia de dinheiro. “Depois, voltei a apostar barato, com quantias baixas”, revela.

Apesar das apostas serem um tipo de entretenimento, a constância excessiva na prática desse ato, unida a uma quantidade considerável de dinheiro aplicado, pode configurar um vício. O problema foi catalogado dessa maneira pela Organização Mundial de Saúde (OMS), no Código Internacional de Doenças, que classificou esse tipo de atitude como jogo patológico. Segundo os critérios diagnósticos do DSM-V (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), o jogo patológico é identificado com a presença de pelo menos cinco dos itens a seguir:

Infográfico: Gabriel Lopes

Ilana Landim, 28, psicóloga especializada em Clínica Analítica-Comportamental, costuma dizer que determinado grupo de comportamento pode se tornar um transtorno psiquiátrico quando pode vir a trazer prejuízo social para a vida do indivíduo, incluindo impacto na sua relação com família, amigos e trabalho. Além disso, ela ressalta que “o jogo compulsivo pode estar relacionado com outras comorbidades, como abuso de drogas (especialmente alcoolismo), depressão, transtornos impulsivos, entre outros”.

“O jogo compulsivo pode estar relacionado com outras comorbidades, como abuso de drogas (especialmente alcoolismo), depressão, transtornos impulsivos, entre outros” (Ilana Landim)

“A psicologia comportamental (análise do comportamento e terapia cognitivo-comportamental) vem apresentando boas evidências científicas de que são tratamentos que funcionam para diminuir índices de jogar compulsivo. Há algumas técnicas específicas, como a dessensibilização, manejo de contingências, busca por respostas alternativas a jogar, entre outras”, explica Ilana sobre os mecanismos utilizados para o tratamento desse vício.

Legislação competente

A legislação brasileira ainda é muito permissiva em relação às apostas online. Foto: Reprodução

O artigo 50 do Decreto-Lei n° 3.688, de 3 de outubro de 1941 (Lei das Contravenções Penais) trata o estabelecimento ou exploração do jogo de azar como uma contravenção penal, desde que ocorra em lugar público ou acessível ao público, sendo punível com uma prisão simples, de três meses a um ano, ou multa, que varia entre dois mil reais e duzentos mil reais.

As apostas online, apesar de serem enquadradas como “as apostas sobre qualquer outra competição esportiva”, e também como passíveis de multa, não são legalmente puníveis, visto que a sede dos sites de aposta são em países estrangeiros que permitem a prática de aposta, como Costa Rica, Gibraltar e Curaçao.

De acordo com o artigo 2° do Decreto-Lei n° 3.688, “a lei brasileira só é aplicável à contravenção penal praticada no território nacional”, excluindo assim qualquer punibilidade sobre os apostadores online, que, na prática, estão apostando fora do Brasil.

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