“O artista pode viver sozinho, mas a galeria não existe sem o artista”

Por Clara Menezes e Melissa Carvalho

A arte brasileira é reconhecida mundialmente por causa de pintores como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Cândido Portinari, entre outros. Apesar da influência internacional, o país não tem nenhum fundo de investimento público destinado ao melhor desenvolvimento de artistas nacionais. Mesmo com poucos investimentos governamentais e privados, 81% das galerias aumentaram 22,5% do volume de negócios em 2013, segundo a pesquisa do Projeto Latitude – Platform for Brazilian art Galleries Abroad , em parceria com a Associação Brasileira de Arte Contemporânea (ABCT) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimento (Apex-Brasil).

Para falar sobre o assunto, o Jornalismo NIC entrevistou Victor Perlingeiro, 26, administrador da Galeria Multiarte. Mesmo com a falta de apoio governamental, o empreendimento se mantém há 30 anos no mercado cearense, além das sedes nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. A galeria trabalha, principalmente, com artistas modernos e alguns artistas contemporâneos. Além disso, tem uma editora especializada na publicação de livros de arte.

Jornalismo NIC: Qual a maior dificuldade de ser artista no Brasil?

Victor Perlingeiro: Eu acho que a grande dificuldade que existe no Brasil, pensar em Fortaleza também, é a falta de um lugar de formação e de informação. Não temos uma faculdade de bacharelado em Artes Visuais, em Artes Plásticas. Temos um curso técnico em uma universidade particular. Então, eu acho que esse seja o principal gargalo do cenário da arte: a falta de ensino superior. Eu entendo que isso ocorre, sobretudo, devido à pouca política pública. Eu não posso tirar a culpa do Estado, porque o curso de Artes Visuais é um curso restrito. É um curso muito caro. Tem que ter ateliês de pintura, de escultura, de arte visual, câmera. Não é uma sala de administração que você pode ter um ou dois laboratórios com computadores. Falta uma visão também de que arte é um negócio muito importante. 70% do turismo na França é arte. Paris recebe 100 milhões de visitantes por ano. Brasil recebe 8 milhões de turistas estrangeiros por ano. Arte e cultura é um ativo muito forte, que dá dinheiro, imposto, emprego e renda. É muito triste a gente pensar que 2% do PIB do Brasil é destinado à cultura. Eu realmente tenho que colocar uma parcela importante para o Estado, porque o Estado é fomentador. Artes Visuais e Cinema são um pouco fortes no Brasil. Mas só o cinema não dá conta. Imagina que é um ciclo vicioso: as pessoas não tem informação, as pessoas não se capacitam, algumas não têm condições de se capacitar. Por conta disso, você não se prepara para o mercado. Então, é evidente que, se você não tem informação, vai ser muito difícil ser um artista. Aquela coisa do talento natural, de você nascer artista, isso não existe. Isso nunca existiu. Existem as pessoas que são aptas, que são sensíveis. Artistas que começam com a sensibilidade aflorada. Mas técnica, concepção, conceitos e estratégias, tudo isso precisa de formação, pelo menos experiência. Deveria ter mais oportunidades, mais galerias.

JN: Quais os investimentos necessários para manter uma galeria? O retorno é lucrativo?

VP: Como empresa, tem que ter retorno. Os investimentos dependem do nível de operação que você quer ter. Então, se você gostaria de ter uma galeria, trabalhar no mercado secundário (artistas já falecidos, ou uma obra que pertença a uma pessoa e você vai vender por terceiros), seu investimento inicial vai ser muito mais alto. Se você gostaria de começar pequeno, com alguns artistas, com folha salarial baixa e sem precisar de muito capital de giro, então seus investimentos iniciais podem ser menores. Mas realmente é inegável que precisa ter um investimento. Se o governo tivesse interesse de incentivar esse mercado, ele ia criar taxas de empréstimo atrativas para as pessoas se capitalizarem. É um negócio lucrativo, mas é difícil. Exige um capital de giro. Eu não vendo arte como eu vendo sapato.

JN: Os brasileiros valorizam a arte?

VP: É complicado eu dizer que o Brasil valoriza a arte, que a gente tem incentivos para proteger o nosso artesanato. Se eu disser isso, não é uma realidade que abrange todo mundo. Mas, temos importantes pessoas que fazem parte desse sistema e fazem muita coisa acontecer. Eu acho que tem muita coisa a ser trabalhada. Se você for no Rio de Janeiro e em São Paulo, há exposições com um índice de visitação de 200 mil. É um número muito grande se você pensar quantos analfabetos funcionais temos no Brasil. Eu acho que a gente valoriza nossa cultura. As culturas regionais são muito preservadas. Isso faz parte do histórico das pessoas. Porém, temos museus importantíssimos no Brasil que passam por dificuldades, como qualquer setor. Eu acho que até os setores mais sólidos, como a construção civil, estão passando por problemas. A arte, que é pasta de negociação política, também sofreu muito. Mas, eu acho que o brasileiro valoriza. Deveria ser muito mais. Na medida do que a gente pode, a gente é muito bom. Esse ano teve exposição da Tarsila do Amaral, em Nova York. Ano passado, teve exposição da Lígia Clark. Teve exposição da coleção da Fundação Edson Queiroz na Itália e em Portugal. Teve exposição do Volp em Mônaco. Então, a arte brasileira é um produto muito forte que as pessoas querem saber e querem consumir.

JN: Na sua opinião, o que deveria ser feito para as pessoas terem mais contato com a arte?

VP: Já que o brasileiro médio não tem acesso à cultura de uma forma mais espontânea, eu acho que cabe à iniciativa privada incentivar isso. Como você vai fazer isso? A Unifor faz isso muito bem. Faz exposição, faz publicidade da exposição, chama gente de fora para fazer palestra, convida artista. Então, a Unifor faz o seu papel. Aqui, nós também temos um trabalho de formação de público muito forte. Todas as exposições que nós montamos em Fortaleza sempre são acompanhadas de uma palestra para o público. Se não é o artista que vem, caso seja um artista falecido, vem um crítico ou pesquisador. São coisas disponíveis para o público e são gratuitas. Além disso, eu gravo e coloco no meu site. Mas você tem que ter o fôlego, tem que ir plantando. Se o MoMA (Museum of Modern Art), de Nova York, tem verba para fazer publicidade e botar outdoor à disposição é porque eles precisam incentivar a visitação. Atrair de graça é muito difícil.

JN: Como vocês escolhem os artistas?

VP: Na arte moderna, é a partir da relevância que eles têm na história da arte. A gente trabalha basicamente com artistas consagrados, Portinari, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Ismael Nery. Nos artistas contemporâneos são os, de certa forma, consagrados e têm uma história. Então, o cuidado que a gente tem está na relevância do artista. Existe um perfil, cada galeria tem um. Tem galerias que são só para trabalhar com artistas, senão jovens, que estão começando agora, porque existe público para tudo.  Tem gente que não quer comprar coisa antiga, quer comprar o que foi produzido hoje de uma forma diferente, que tem uma linguagem mais atual. Nós somos especialistas em arte moderna e alguns artistas contemporâneos.

JN: Qual a maior dificuldade de apostar em artistas novos?

VP: Não são muitos artistas novos que a gente aposta. O artista tem que ser muito profissional. A galeria é o agente econômico e logístico do artista, sem o artista a galeria não existe. O artista pode viver sozinho, mas a galeria não existe sem o artista, ela é o agente, tem que proteger o artista. O artista tem que se ocupar com as questões legais, emocionais e logísticas, tem que fazer a coisa acontecer. Hoje as pessoas querem saber quem vai ser o próximo grande artista, quem é a próxima Adriana Varejão, próxima Beatriz Milhazes. As pessoas gostam de saber disso, a novidade, qual a próxima grande sacada. Acho que a principal dificuldade é o artista não se queimar, não ser exposto, não se desvirtuar muito do trabalho por uma questão mercadológica.

JN: E os incentivos privados para os novos artistas entrarem no circuito, valem a pena?

VP: Aqui no Ceará, incentivo privado, que eu conheço, a Unifor Plástica acho que tem uma premiação, existe um espaço para exposição. Existe um pouco da iniciativa pública, por exemplo, que é o Porto Iracema das Artes, que é uma escola de artes visuais. Tudo vale a pena, o problema é que são poucos para muita gente. Uma das atividades paralelas da galeria que se tornou grande são esses grupos de estudo. Semanalmente, eu recebo 12 grupos de estudo. São grupos de 10 a 12 pessoas que escutam um professor falar de história da arte. As pessoas pagam para estar aqui, mas por que? Porque não tem em outro lugar com qualidade. Também existem pessoas que não tem acesso. Algumas turmas nós que incentivamos, são grupos de estudos de alguns artistas patrocinados por nós. Também temos um grupo de estudo de pesquisadores que nós concedemos essa possibilidade para eles, mas são poucos. Existem os editais, têm o edital do Itaú Cultural, o Rumos. A Select, que é uma revista de arte, agora está com um edital que tem poucos anos que começou, mas parece ser bem interessante. Existem alguns lugares que têm espaço para isso, orçamento para dar esse apoio, mas é pouco. Para o jovem artista tem muitas dificuldades e barreiras, tem que ter perseverança.

JN: Faltou só comentar sobre as dificuldades da arte aqui no Ceará.

VP: A falsificação é uma coisa que a gente batalha muito para tentar erradicar, existe um mercado de obras falsas, que é muito chato. Não é um mercado fácil, não temos em Fortaleza tantos colecionadores como em São Paulo e Rio de Janeiro, isso é evidente, mas se nós estamos aqui há 30 anos é porque tem mercado.

JN: Você falou de obras falsas, trabalhos falsos. Como um comprador identifica que uma obra é falsa?

VP: Quem identifica é o vendedor, a não ser que ele seja um conhecedor, pesquisador ou conheça bem a obra do artista. O principal ativo é a credibilidade. Pessoas compram com a gente porque nunca demos nenhuma “bola fora”. Credibilidade é isso. Somos especialistas em alguns artistas. A questão é quando a pessoa quer se dar bem demais. O mundo da informação está disponível, todo mundo tem imagem, uma ideia de histórico de preço. Existem os catálogo Resonet, que são artistas que têm catálogo de toda produção e você pode consultar. E existem os especialistas. Nós somos especialistas em alguns artistas e, se você está com dúvida, pode consultar, que a gente tenta dar um parecer.

JN: O crescimento das mídias digitais ajuda na ascensão dos novos artistas?

VP: Com certeza. Uma coisa é enviar email para 100 clientes que mandaram mensagens, e no Instagram ou Facebook eu posso atingir 100 mil. Sendo que a internet também é um paradoxo. São muitas imagens, então você se perde. Dá capilaridade, mas fica impessoal. Se não for bem filtrado, você é esquecido. É importante, mas o trabalho corpo a corpo ainda é mais importante.

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