Depilação já é questionada por nova geração de mulheres

Por Levi Aguiar

Cada vez mais mulheres estão optando por aceitar seus pelos, deixando de lado a rotina da depilação. Neste ano, Bruna Linzmeyer, atriz e modelo, foi tema de uma discussão que envolvia este assunto. A atriz apareceu em um ensaio fotográfico que exibiu alguns de seus pelos das axilas e virilhas. O ensaio gerou desconforto em alguns internautas e levantou questões sobre higiene e a liberdade do corpo feminino. Outras casos também tiveram repercussão nas redes sociais como o caso da atriz e cantora, Willow Smith, e a mãe do vencedor do Oscar de 2016, Leonardo DiCaprio, Irmelin DiCaprio.

Bruna Linzmeyer, atriz e modelo, em ensaio fotográfico. Foto: Gleeson Paulino/ reprodução.

Em contraposição a essa perspectiva de aceitar os pelos, principalmente no caso das mulheres, uma pesquisa feita pela psicóloga Maria Luiza Sangiorgi para sua dissertação de mestrado, apresentada em 2017, na Universidade de São Paulo (USP), entrevistou 52.787 mulheres e 55,8% afirmaram se depilar em casa. Ao fim do estudo, ela concluiu que “as mulheres e homens brasileiros preferem a genitália feminina completamente depilada, indicando que a difusão da depilação íntima completa na mulher é também por uma demanda do sexo masculino”.

Segundo Denise Vasconcelos, ginecologista, nosso corpo é uma máquina perfeita e cada coisa está em seu lugar com determinada função, inclusive os pelos. A ginecologista também lista os casos em que os pelos agem como fator de proteção à genitália. “Eles têm uma função de proteção e prevenção contra algumas bactérias que podem ter acesso fácil ao local. Ajudam na transpiração, na manutenção da temperatura local que é um pouco mais elevada que o restante do corpo e na lubrificação da região externa da vagina, que é a vulva. Quando retirados em excesso, podem causar desequilíbrios locais, predispondo desde a processos alérgicos e até favorecendo alguns tipos de infecções ou  DST’s (doenças sexualmente transmissíveis)”, destaca.

Aceitação e empoderamento

“A gente se mutila muito, principalmente tentando alcançar algo imposto na mídia e que não existe fora dela. A propaganda usa de todas as formas para nos convencer a parecer com essas pessoas que representam esses padrões, estimulando-nos a consumir incessantemente até nos reduzir a meras consumidoras”, pontua Mylena Ferreira, estudante de Letras, 19. Mylena relata que passou a refletir criticamente a respeito de questões de gênero e sobre a necessidade das mulheres estarem sempre bem e depiladas.

Para a estudante, a escolha de se depilar ou não é uma desconstrução social. “Não ter pelos em algumas partes do corpo é uma característica de crianças.  A puberdade é marcada pela aparição desses pelos, ou seja, é algo natural. E não uma questão só de sujeira”.

A mulher na mídia

O Jornalismo NIC conversou com a mestre em psicologia, Roberta Araújo, 40, que contextualizou a mulher na mídia, seus processos de dominação e a padronização da noção do que é belo. Segundo a psicóloga, a padronização do corpo é um reflexo da sociedade, a ideia dos pelos serem bem vistos ou não é uma construção social. Os padrões de beleza feminina atuais passaram por várias mudanças ao longo do tempo. “Belezas é uma representação social. Não há o pensamento em aceitar o próprio corpo. O que há é uma  reflexão sobre qual aspecto eu posso mudar no meu físico. Por isso, a gente acompanha a ascensão cada vez maior da indústria de cosméticos, além das cirurgias plásticas de remodelagem do corpo”, explica.

Sobre a escolha que várias mulheres fazem de não depilarem seus corpos, Roberta acredita que isto está ligado ao feminismo, por esta perspectiva ter surgido com a luta e a liberdade por direitos entre os gêneros. “A gente vê o movimento de contraposição e de não se submeter ao que a mídia põe como belo e perfeito. O empoderamento, as modelos plus size e as mulheres que não se maquiam”, acrescenta.

História

Práticas de depilação são registradas desde o Egito e Grécia Antiga, a rainha Cleópatra, do Egito, usavam tiras de tecido ou de pele de animal, banhadas em cera quente de abelha, para arrancar os pelos. Na Grécia, os pelos eram arrancados com as mãos e as moças bebiam muitos goles de vinho para aguentar a dor.

Desde a década de 1970, no movimento de contracultura, as hippies refletiam sobre essas imposições e contestavam de forma radical comportamentos da cultura dominante, inclusive a imposição dos padrões de beleza da época.

Ayqa Khan

A artista americana de origem paquistanesa Ayqa Khan, busca naturalizar o retrato das mulheres mostrando seus pelos do corpo.

 

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