Novo álbum de Eminem levanta polêmica no rap

Por Gabriel Lopes

O novo álbum do rapper Eminem, Kamikaze, lançado no dia 31 de agosto, foi criticado por diversos veículos de comunicação, como pelos blogs Rolling Stone e Omelete, que levantaram vários questionamentos acerca do diálogo de Eminem com os rappers atuais e sobre o espaço de estilos opostos no rap, o mumble rap (músicas focadas mais no ritmo do que no conteúdo das letras) e o lyrical rap (músicas com foco na nas letras) na indústria da música. O rapper faz muitas críticas acerca da atual indústria musical no seu álbum, como em uma faixa de seu álbum, “Lucky You”, que rapper diz: “por que não fazemos um monte de músicas sobre nada e enrolamos?”. Nesse trecho, ele critica os rappers que não passam mensagens reflexivas para a sociedade em suas músicas.

“Por que não fazemos um monte de músicas sobre nada e enrolamos?” (Eminem)

No disco, Eminem desaprova a atual indústria musical do hip-hop, que valoriza em excesso o mumble rap. Esse estilo traz em suas letras temáticas limitadas, como dinheiro, drogas e sexo. Além disso, o gênero utiliza auto-tunes (modificação eletrônica da voz) em abundância, com a valorização constante do uso de graves, que dão um tom agressivo nas músicas. Seguindo na contramão da atual indústria cultural, Eminem é um adepto do lyrical rap, que procura trazer maior criticidade em suas letras. Nesse gênero musical, o rapper aborda variados temas relevantes da sociedade, geralmente utilizando uma batida mais simples e homogênea.

Gravação do clipe de Accioly. Foto: Yago Rodrigues

Accioly, 22, rapper e produtor de rap, analisa e explica o crescimento da visibilidade do mumble rap atualmente. “Observamos que as músicas que alcançam mais visualizações na última década, independente do gênero musical, são aquelas com temáticas de lazer, ostentação e curtição. Naturalmente, o rap acabou buscando absorver essa tendência como forma de receber mais visibilidade”, aponta.

Isso reflete na atual colocação do Top 200 Albums da Billboard. Na lista, a presença do gênero mumble rap é maciça nas primeiras colocações, estando os álbuns “ASTROWORLD”, de Travis Scott, e “Scorpion”, de Drake, em segundo e terceiro lugar na classificação desta semana, respectivamente.

No livro “Dialética do conhecimento”, de 1947, Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973) buscam explicar como funciona a indústria cultural, que massifica a produção de conteúdos culturais, padronizando formatos. A comercialização excessiva do mumble rap é uma consequência disso, visto que ele é um produto de fácil formato de venda, pois o público é acostumado a ouvir e consumir esse determinado gênero musical. Esse gênero tem maior aceitação em rádios, clipes e eventos por conta da baixa criticidade nos versos.

Apesar da ascensão do mumble rap, Michael Rizzi, 21, estudioso de rap e rapper, fala da importância do lyrical rap para a sociedade. “O rap veio para o Brasil nos anos 80 para dar voz aos excluídos, dar chance para aquele que não foi ouvido falar alguma coisa e mostrar os problemas reais da população esquecida. Ele é uma forma de comunicação, um ato político em forma de rima. Um viés mais lírico do gênero é fundamental para que essa mensagem seja passada adiante”, afirma.

Para Michael Rizzi, o rap é a voz da “população esquecida”. Foto: Arquivo Pessoal

Ampliação do rap

O rap é, na sua significação literal, rhythm and poetry (em tradução literal, ritmo e poesia). Surgiu nos anos 1960, na Jamaica, como uma maneira da população menos privilegiada de se expressar, mostrando sua realidade e criticando tudo aquilo que permeia a sociedade por meio da música.

Com o passar do tempo, o ritmo musical passou por inúmeras mudanças. O rap uniu-se a outros estilos musicais e passou a se popularizar, especialmente nos anos 1990, nos Estados Unidos, quando artistas como Tupac, Nas e Notorious B.I.G. levaram as problemáticas dos guetos para a população de classes sociais mais altas.

Recentemente, nos anos 2010, o rap passou por muitas mudanças, adequando-se a uma vertente mais popular e menos crítica, que agradou bastante o mercado da música. Nomes como Gucci Mane, Migos e Lil Pump são constantes no topo das paradas musicais, enquanto rappers que fazem uma música mais lírica, como J. Cole e Russ, não conseguem atingir tamanho sucesso comercial.

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