Historiadora Lilia Schwarcz lança livro na Unifor

Por Levi Aguiar

“Os direitos conquistados não são direitos ganhos, é preciso que a gente lute por eles”. Foi com essa frase que Lilia Schwarcz, historiadora e escritora, iniciou a sua palestra de lançamento do seu último livro “Dicionário da Escravidão e Liberdade”, na manhã de ontem (12/09), no auditório da Biblioteca da Unifor, ao apontar para o período político atual do país e ao momento das eleições presidenciais. A escritora enfatizou a necessidade de procurar por candidatos que “atuem para combater as desigualdades no Brasil”.

Lilia Schwarcz, historiadora, antropóloga e escritora. Foto: Ares soares.

A historiadora acredita que uma das maneiras do país superar seu aspecto preconceituoso é por intermédio de um movimento antirracista e ressalta que esta iniciativa precisa partir de pessoas brancas, sem que se abandone o protagonismo dos negros. Schwarcz incentiva que o movimento seja representado pelo indivíduo que vive naquela narrativa.

Além de historiadora, Schwarcz é antropóloga e autora de importantes obras como “Brasil: uma biografia” (2015) e “Lima Barreto – Triste Visionário” (2017). “Dicionário” foi organizado em parceria com Flávio Gomes, e reúne 50 textos críticos sobre o sistema escravista, abolido no Brasil em 13 de maio de 1888. “Não é só uma herança escravocrata, é um livro construído com o sentido de recriar a imagem do racismo no Brasil”, explica.

Douglas Sales, graduando de jornalismo,  assistiu a palestra da historiadora e elogiou a didática. Para o estudante, Schwarcz trabalha com assuntos delicados, como militância do movimento negro. “Ela tinha cuidado com as palavras, pois elas são carregadas de ideologias”, reforça. Sales destaca o momento em que a  historiadora usou a palavra “denegrir” e explicou como o termo pode ser racista, o ato de “tornar algo negro”. Também pontuou a utilização de expressões corriqueiras, mas que podem ser constituídas de preconceito. “Ela não se referia aos negros por escravos e sim de escravizados, pois eles eram pessoas que haviam sido escravizados e não escravos”.

Documentos

A construção do livro parte da reunião dos 50 textos que abrangem muito da pesquisa feita no país. “Alguns capítulos ficaram todos voltadas para pesquisa dos nossos colegas, a historiografia, quando se refere a escravidão, possui um vasto número de documentos escritos e visuais”, explica. A antropóloga pensou a construção cronológica dos livros, desde a primeira leva de escravizados africanos que chegaram no final do século XVI, avançando até o período de pós-abolição que seria até 1930. Schwarcz abre uma aspas para os pesquisadores que afirmam a atualidade da “pós-abolição”, por causa do contexto preconceituoso do país.

A escritora comentou sobre o fenômeno do “haitismo”. Este surgiu com a Revolução do Haiti e foi a rebelião de escravizados que levou São Domingos à independência. Segundo dados históricos, 40 mil franceses controlavam uma população de cerca de 450 mil escravizados, brutalmente explorados. Depois de diversas humilhações, os indivíduos escravizados começaram uma revolta que, inicialmente, registrou cerca de 100 mil rebeldes. “A notícia da revolução haitiana chegou no Brasil três meses depois. Temos notícias dos senhores de escravizados falando de um fenômeno no mundo negro e o receio de que revoltas como estas se tornassem comuns, pois no Brasil o número de negros era superior ao de brancos. Os negros tidos como ‘fujões’ eram chamados de negros haitianos”, argumenta. Para Schwarcz, esta revolta foi tão importante que se tornou adjetivo para caracterizar os negros que não aceitavam a escravidão mercantilista.

Um dos nomes mais conhecidos de representação visual do país no período colonial é o artista Jean-Baptiste Debret. A escritora caracteriza as ilustrações como não-críticas, pois o pintor prestava serviço à Coroa portuguesa, não tendo a intenção de mostrar imagens que pudessem denegrir o império. Schwarcz faz um parênteses a respeito da palavra “denegrir’, tornar negro, ressaltando o preconceito instaurado no nosso vocabulário. “Nós usamos essas imagens, que aparecem nos jornais, livros didáticos e revistas, de maneira apolítica. Elas são documentos que precisam ser analisados e criticados da seguinte perspectiva: Por que aquela obra foi feita? Para quem ela será destinada? Qual a intenção daquele retrato?”, questiona. Na perspectiva da autora, as obras só retratam o de corriqueiro e ameno do cotidiano dos escravizados.

A palestra lotou o auditória da Biblioteca da Universidade de Fortaleza (Unifor) atraindo, além de alunos, muitas pessoas ligadas à área da pesquisa estavam presentes, como Zelma Madeira, líder do Grupo de Pesquisa Relações Étnico-Raciais, Cultura e Sociedade da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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