Bete Jaguaribe e a luta pela cultura

Por Levi Aguiar

“Meus agradecimentos são para as mulheres, a comunidade LGBT e os jovens brasileiros que nos ensinam diariamente as artes da sobrevivência”, esse é um trecho que compõe a abertura da tese de doutorado de Ana Elisabete Freitas Jaguaribe. No fragmento, ela deixa transparecer um pouco das suas convicções e vivências que se caracterizam pela militância e a defesa das políticas de incentivo à cultura.

Atuou no Ministério da Cultura onde coordenou projetos de incentivo à produções culturais, assim como participou de administrações municipais e estaduais na mesma área. Atualmente, é professora e coordena o curso de graduação em Cinema e Audiovisual na Universidade de Fortaleza (Unifor) e é diretora da Escola Porto Iracema das Artes. Bete Jaguaribe é jornalista por formação, trabalhou em redações e com marketing político.

Cinema e cultura

Na década de 1990, aproximou-se do campo cultural quando assumiu uma função na Secretaria de Cultura. “Na época, o Estado não tinha projetos voltados para a cultura, e esse equipe propôs a iniciativa do projeto do Centro Cultural Dragão do Mar e da Lei de Incentivo à Cultura”, enumera. O grupo que propôs estas mudanças na cultura do Estado foi forjado ainda no assessoramento da candidatura da primeira prefeita de Fortaleza, já com propostas diferenciadas no setor.

Bete Jaguaribe durante encontro no Porto Iracema das Artes. Foto: reprodução.

A partir desta experiência, Jaguaribe passou a traçar um caminho que a distanciou do jornalismo, quando coordenou políticas de audiovisual, a criação da Escola de Arte e vários outros projetos de apoio ao audiovisual.  Ressalta que, para uma região, é fundamental ter um cinema que a retrate. A gestora cita o exemplo de ‘Crocodilo Dundee’ que deu visibilidade à Austrália. “Há cidades que se tornam conhecidas por causa da produção cinematográfica produzida nela”, declara.

Nos anos de 2004 a 2007 foi Secretária Nacional de Audiovisual interina, no período em que Gilberto Gil atuava como ministro da Cultura (2003-2008). Neste período, um dos projetos era fazer o Brasil, que até então só produzia 20 filmes por ano, passar a produzir 100 filmes anuais. Para se ter um parâmetro de comparação do feito, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), no ano de 2017, o país manteve o nível,  produzindo 158 títulos nacionais.

Para Bete Jaguaribe, o cinema faz parte das esferas da arte que estão dando referências para o país ao dar voz e assumir um papel de denúncia. Conta que hoje em dia, há um grupo de jovens que opta por viver de cinema, incentivados pelas duas graduações de cinema no Estado. A coordenadora do projeto do Porto enumera diversas ações que viabilizam essa arte. “Temos projetos públicos de formação em audiovisual no Estado, além de financiamento, edital, incentivo à produção,  apoio do fundo setorial e a TV paga que vincula o cinema produzido no país”, relata.

Doutorado e docência

Jaguaribe destaca que o magistério foi um dos seus ofícios de maior importância pessoal, apesar de nunca ter planejado ser professora. Ela narra que os jovens estão se tornado cada vez mais tolerantes, isso faz com que ela se sinta instigada a se atualizar e ser mais generosa com eles. A docente diz que o grande problema é quando deixamos de dar visibilidade ao que realmente importa e damos relevância aos equívocos: “eu adoro a juventude contemporânea, eles respeitam todo o tipo de gente. A galera de hoje é muito mais tolerante”.

O título de doutora foi uma extensão de sua militância política. “O fato de levar denúncias aos intelectuais, por intermédio de uma tese, já era algo válido”. Jaguaribe afirma que a sua vida é feita de atos políticos e nada do que ela faça está fora desta dimensão. “Não falo da política partidária, mas a política da atitude comprometida com o bem da humanidade”, destaca. Sua tese fala sobre o coletivo “Alumbramento”, um grupo de jovens que emerge no cenário cultural do País em 2006. Ela trabalha a relação ‘cinema e sociedade’ no âmbito do movimento de renovação, nomeado como o ‘novíssimo cinema brasileiro’ e/ou ‘cinema de garagem’.

Trajetória

Professora Bete Jaguaribe. Foto: Levi Aguiar.

Nascida em Jaguaruana, a 133 km da capital. Durante a infância, estudou em um colégio de freiras e ressalta sua timidez, principalmente neste período. Seu interesse pela política surgiu durante os seus primeiros anos no curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Na época, havia um compromisso político. Imaginávamos que poderíamos mudar o mundo com jornalismo”, admite. Depois de concluir sua graduação, especializou-se em marketing.

Jaguaribe atuou com um grupo de jovens, assim como ela, idealistas. “A gente se reunia no comitê de comunicação para fazer a campanha de graça”, lembra. A jornalista orgulha-se de ter participado da campanha da “primeira mulher eleita prefeita de uma capital de Estado brasileiro” em um período de redemocratização, referia-se à ex-prefeita Maria Luiza Fontenele. Jaguaribe trabalhava em um dos grandes jornais e lembra que esses veículos de comunicação eram contra a candidatura da prefeita. “Foi ousado e trouxe mudanças ao cenário político. A gente compreendia o jornalismo como uma arma política não partidária, de transformação do mundo, havia uma geração comprometida com a recuperação democrática do país”.

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