Intervenções cirúrgicas estão cada vez mais populares na adolescência

Por Alessandra Baldessar e Isabella Campos

O número de cirurgias plásticas entre adolescentes de 14 a 18 anos aumentou exponencialmente em um período de quatro anos. Segundo os últimos dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) , o aumento foi de 141% a mais que os anos anteriores. O crescimento entre adultos foi de 38.6%, mostrando, assim, o crescimento acelerado dessa prática entre o público jovem.

A médica Lucia Penaforte, titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Foto: Divulgação.

O Brasil é o segundo país em maior número de cirurgias plásticas do mundo – considerando todos os públicos – ficando atrás apenas dos Estados Unidos. A pesquisa da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, de 2013, ainda afirma que, entre os procedimentos estéticos mais procurados destacam-se rinoplastia, lipoaspiração, cirurgia de pálpebras, aumento mamário e lifting (levantamento, em tradução livre para o português) facial. Especialistas acreditam que esse aumento se deu por conta do advento da tecnologia e sua influência direta em nossas vidas. “Acredito que isso é devido, em parte, à mídia e à internet”, especula a cirurgiã plástica Lucia Penaforte.

Na era digital, a sociedade, em geral, está cada vez mais exposta aos ditos “corpos perfeitos” e “rostos perfeitos” pelas redes sociais, principalmente os adolescentes. Conforme a pesquisa feita em dez países pela Amdocs, empresa especializada em software e serviços para comunicações, 64% dos jovens entre 15 e 18 anos costumam acessar essas as redes assim que acordam.

Autoestima

A estudante Lia fala sobre os benefícios da cirurgia plástica em sua vida. Foto: Arquivo Pessoal.

Os comentários de terceiros sobre a aparência e o bullying, sofrido muitas vezes na escola, tornam-se as principais causas de busca imediata por procedimentos estéticos tão cedo. Lia Bruno, 21, graduanda em Jornalismo, teve o desejo de fazer rinoplastia (procedimento cirúrgico que tem como principal função remodelar o formato do nariz), desde muito cedo, ganhando a cirurgia como presente de sua avó aos 15 anos. “Sempre tive um complexo muito grande com o meu nariz desde que eu era muito nova, quando comecei a ouvir as pessoas dizendo que ele era feio”, conta a estudante. “No caso, eram parentes meus e coleguinhas na escola, então sofri muito bullying por causa do meu nariz. Os meninos principalmente me tratavam muito mal e faziam piada com ele”, recorda.

De acordo com a cirurgiã plástica Lucia Penaforte, a frequência com que recebe jovens para procedimentos estéticos em seu consultório é grande, começando a faixa etária com crianças a partir dos 9 e 10 anos, com correção de orelhas. “A criança com 6 anos já começa a ficar incomodada, principalmente os meninos, porque não conseguem esconder as orelhas [e sofrem bullying por isso]”, explica. Já com os jovens, a partir dos 15 anos, a maior procura é por parte do público feminino. Elas procuram, também, as cirurgias para “corrigir” as gigantomastias [crescimento excessivo dos seios], porque prejudicam a postura e até a coluna vertebral.

“A criança com 6 anos já começa a ficar incomodada, principalmente os meninos, porque não conseguem esconder as orelhas [e sofrem bullying por isso]” (Lucia Penaforte)

A autoestima e a aceitação da autoimagem são muito importantes na adolescência, são pontos essenciais na busca da identidade, na construção da maturidade e independência. Essa busca é um dos fatores do aumento na procura por procedimentos estéticos na adolescência e, segundo Lia Bruno, o resultado vale à pena. “Antigamente eu não gostava de foto, e, quando eu tirava, fazia muitas coisas para esconder meu nariz. Era triste”, relembra a universitária. “Antes, eu não gostava de me maquiar, me arrumar, mas depois da cirurgia me tornei uma pessoa muito mais vaidosa. Quis sair mais e, na época, comecei a fazer academia.Minha autoestima melhorou muito mesmo”, completou.   

Importância do esclarecimento

A socialite e empresária Kylie Jenner. Foto: Divulgação.

Muitos jovens, ao procurar o cirurgião plástico, já tem em mente a sua inspiração ideal, que vai de figurões de Hollywood até influenciadores de redes sociais. “Quando eu fui ao cirurgião pela primeira vez, eu tinha 15 anos e o nariz [que eu queria] já em mente. Eu sempre achei muito bonito o nariz da Julia Roberts e queria ter aquele nariz”, disse Lia Bruno, 21, que passou por rinoplastia aos 17 anos. “Eu não cheguei a falar [para o cirurgião] que queria ter o nariz da Julia Roberts, mas ele conversou comigo e explicou que não podia fazer o nariz igual ao de outra pessoa, [ele disse] ‘a gente vai fazer um nariz adequado para o seu rosto’”, completou Lia.

Recentemente, a jovem socialite e empresária Kylie Jenner, 21, conhecida pelos procedimentos estéticos que faz, declarou ter se livrado do preenchimento labial  que fazia desde os 16 anos, por conta do comentário de um ex-namorado. “Durante o meu primeiro beijo, o garoto falou ‘eu não acho que você deve beijar bem, porque você tem a boca muito pequena’. Eu não aceitei isso bem”, relatou Kylie no episódio do seu reality show, “Life of Kylie”, em 2017.  

Segundo a cirurgiã plástica Lucia Penaforte, os jovens chegam, em sua grande parte, sem muita informação sobre o procedimento que pretendem fazer. “Os jovens, quando chegam ao consultório, já estão bem ou mal informados. Tem muito modismo. A cirurgia plástica é, antes de tudo, medicina, ciência”, diz a médica. “Temos o dever de advertir sobre as consequências que podem advir de um procedimento desejado por modismos”, afirma.

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