Gordofobia afeta empregabilidade

Por Letícia de Medeiros

Uma pesquisa de 2013 da empresa de recrutamento Catho Online com profissionais de alta gerência apontou que, dos 16 mil entrevistados, 59,1% admitiram ter algum tipo de objeção no momento de contratar funcionários obesos. A pesquisa, chamada “Profissionais Brasileiros — Um Panorama sobre Contratação, Demissão e Carreira”, ainda revela que 6,2% dos empregadores disseram não contratar pessoas obesas. Esta aversão tem o nome de gordofobia e afeta, principalmente, o público feminino.

A gordofobia ainda é recorrente no mercado por pessoas ainda estarem ligadas à estética. Foto: Reprodução

Em matéria realizada pela IstoÉ, em 2011, a revista ouviu mulheres que foram discriminadas em âmbitos profissionais diversos, como na educação, na saúde, entre outros. O preconceito com a silhueta fez com que diversas mulheres recorressem a cirurgias e dietas restritas para não viver mais essa desigualdade. Para a psicóloga organizacional Raquel Pires, 32, essa “segregação” entre os diversos corpos ainda existe no mercado. Segundo ela, por mais que não aconteça em todas as empresas, a gordofobia ainda está presente.

“Pegando pela realidade de onde passei, pode acontecer como também pode não acontecer. Depende das pessoas que estamos lidando, pois ainda existem pessoas muito ligadas à estética e pouco ligadas ao intelecto dos trabalhadores”, explica Pires. Esse preconceito, entretanto, ocorre contra uma maioria da população, pois 53.8% da população brasileira está acima do peso, segundo dados divulgados em 2017 pelo Ministério da Saúde.

Caso real

A gordofobia no mercado de trabalho pode, consequentemente, levar pessoas a não serem contratadas devido ao peso. Esse foi o caso de G.A (que não quis ser identificada), 27. A jovem sofreu com o preconceito duas vezes no mercado. A primeira vaga que tentou foi para ser secretária. Em uma seleção com 30 meninas, ela foi escolhida para ter um “período de experiência”, mas, segundo ela, “não durou quatro dias”. “Eram piadas com meu corpo, meu cabelo, questões sobre não me adaptar à forma de me vestir de uma secretária, por ser difícil achar roupas que caibam em mim”, lamenta.

“Eram piadas com meu corpo, meu cabelo, questões sobre não me adaptar à forma de me vestir de uma secretária, por ser difícil achar roupas que caibam em mim” (G.A)

Além disso, a jovem relembra que diziam que ela não podia usar saltos, porque era gorda. Para eles, “era ‘óbvio’ que, com meu peso, eu não saberia nem andar de salto.  Enquanto a realidade é que eu nunca tinha visto a necessidade de utilizá-los. No fim de quatro dias, fui trocada por uma outra menina loira de cabelos lisos, magra e que andava em cima de saltos altíssimos”.

Pessoas obesas ou com sobrepeso tendem a receber apelidos negativos. Foto: Reprodução

Em um outro relato mais atual, G.A fala sobre a segregação vivida quando trabalhava na área educacional. “Eu trabalhava em uma escola e minha sala era acessada por um escada em espiral, toda vez que eu descia ou subia, escutava as mesmas frases: ‘vai emagrecer’, ‘até que enfim fazendo um exercício’, ‘olha tuas roupas já estão mais frouxas’. Quando decidiram descer a sala, o discurso mudou: ‘vai engordar é muito agora’, ‘a escada vai fazer falta né’, ‘agora tem que comer menos para poder compensar’”, recorda.

Atualmente, a jovem está dez quilos mais magra. Porém, ocorreu devido a uma depressão e aos remédios que está utilizando até hoje. Segundo ela, todos comemoram seu emagrecimento. “Eu não sou gorda ou fora dos padrões porque eu quero. É uma condição minha que, durante meus 27 anos, eu lutei contra. Eu me odiei por não ser igual. Hoje eu não consigo comer por pura culpa, subir numa balança e não ver o peso baixar chega a ser desesperador. Chego a ficar sem comer quase o dia todo com medo de recuperar o que eu perdi”, lamenta.

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