Transição capilar é mais do que uma questão estética

Por Yasmim Rodrigues

Corpo, maquiagem e pele são, muitas vezes, características padronizadas pela sociedade que impõe modelos a serem seguidos. Nessa discussão, evidencia-se o cabelo. “No decorrer da história, nas culturas, o cabelo tem um significado muito interessante: o corte, a forma, o estilo, tem uma marca social, um significado”, afirma a psicóloga Isabel Martins, 38. Segundo a psicóloga, na medida em que uma pessoa muda para se adequar a um padrão social porque não está bem consigo mesma, ela se sente ‘desempoderada’. Uma das consequências desse padrão é o alisamento químico do cabelo. Uma enquete feita pelo Jornalismo NIC com 68 jovens entre 16 e 22 anos indicou que, destes, 33 já haviam feito alguma forma de alisamento químico.

Alguns disseram que o alisamento foi feito para diminuir o frizz e o volume. Porém, entre os que comentaram a enquete, 10 afirmaram que o fizeram porque o liso era mais aceito, por pressão social, e porque não gostam de seus respectivos cabelos em sua forma natural. “Quando eu era mais nova não sabia como ajeitar para ficar com cachos bonitos. Hoje em dia, amo meus cachos e não abro mão deles”, afirma a estudante Anna Aragão, 18. Segundo a psicóloga Isabel Martins, “há uma relação com a autoestima, os cabelos são um reflexo do nosso estilo e da forma que a gente se vê”.

“Hoje em dia, amo meus cachos e não abro mão deles” (Anna Aragão)

Nesse contexto, popularizaram-se as escovas alisadoras com misturas de produtos químicos como o Formol, comprovadamente tóxico para o ser humano. Porém, os danos provocados pelos alisamentos não se restringem ao físico: alisar o cabelo também reforça a imposição de um padrão de beleza que não contempla a maioria das pessoas. Por conta disso, tem sido cada vez mais comum ouvir o termo “transição capilar”, que consiste em abandonar as técnicas de alisamento e aceitar o cabelo em sua forma original. “No momento em que ele se aceita e passa por um processo de transição, no qual a terapia ajuda muito para que a pessoa comece a se olhar de outro jeito e se gostar, ela começa a aceitar a própria essência, ela vai poder escolher”, afirma a psicóloga.

O início

Arthur depois da transição. Foto: Arquivo Pessoal

“Quando eu tinha 15 anos, comecei a alisar o cabelo porque era moda ter o cabelo liso. Alisei umas 4 vezes, eu fiz química pesada mesmo”, afirma a estudante de Jornalismo Cintia Martins, 24. Muitas pessoas começaram a alisar os cabelos na infância porque foram pressionadas pelo padrão de beleza. “Minha mãe sofreu bullying quando era criança pelo cabelo cacheado, ela acabou por se apaixonar pelo liso. Então, quando eu era criança e reclamava de ter o cabelo armado, diferente de todo mundo ou difícil de cuidar, ela sempre dizia que eu deveria alisar”, relembra a estudante de Medicina, Maria Eduarda Félix, 18. Esse foi o caso, também, do estudante de Arquitetura, Pedro Arthur Vieira, 17. “Sempre me senti forçado a alisar o cabelo, minha mãe sempre reproduziu o preconceito que a sociedade tem com os cachos, como se fosse sinônimo de descuido, como algo feio de se ter”, lembra.

“Eu alisei mais por pressão e por baixa autoestima do que por gostar de cabelo liso. Isso me deixou com a autoestima ainda mais baixa”, afirma a estudante Maria Eduarda. “Alisar me incomodava muito: o cheiro, a dor de ter os cabelos puxados pela escova… Um dia resolvi ter coragem para bater o pé, dizer não e deixar meu cabelo ser como quisesse”, confessa Pedro Arthur. Porém, além dos prejuízos emocionais, o excesso de química também pode causar graves danos à saúde dos fios. “Eu não passei pela transição por uma questão de empoderamento. A química acabou com meu cabelo, foi difícil abrir mão do que eu considerava fácil e esteticamente bonito. A partir disso, eu descobri outras formas de me relacionar com meu cabelo. Eu não tive essa opção, mas queria ter tido, queria que tivesse sido uma escolha”, desabafa Cintia.

A decisão

Maria Eduarda antes da transição. Foto: Arquivo Pessoal

A estudante Maria Eduarda parou de alisar seu cabelo para ser uma boa influência aos seus futuros filhos. Após essa decisão, ela aprendeu a amar seus cachos. Cintia, por sua vez, deixou de alisar por perceber que não se divertiu em uma viagem por ter que manter os cabelos lisos. “Eu fiz uma viagem com meu namorado e eu não podia tomar banho de mar, eu não podia fazer nada, meu cabelo não pegava mais prancha e deu corte químico bem na frente”, afirma. “A gente tem uma ideia da importância do cabelo, mas vê-lo se deteriorando no seu dia a dia é muito difícil”, conta.

O processo da transição, entretanto, exige persistência e dedicação. “Eu aprendi a fazer box braids para passar pela transição de uma forma menos dolorosa, porque o cabelo fica horrível”, afirma Cintia. “No começo, era um pesadelo. Eu passava muita  coisa no cabelo para disfarçar. No dia que eu lavava, não saia de casa. Depois do meu primeiro corte que eu comecei a ganhar mais confiança e ver mais autenticidade no meu cabelo”, afirma Maria Eduarda.

Maria Eduarda depois da transição. Foto: Arquivo Pessoal

A vida pós transição capilar

“Não é só uma questão estética, é um processo de transição interna também”, salienta a psicóloga Isabel Martins. “O indivíduo vai começando a se empoderar e, pouco a pouco, ele assume a sua essência”, afirma. “É importante que essa decisão seja madura. Nós temos algo sublime que é a nossa subjetividade, tem a ver com a nossa construção. Para uma pessoa, a experiência tem um significado e para outra pessoa tem outro”, conta Isabel.

“Parece um sofrimento muito grande, parece uma eternidade, mas nada se compara a felicidade do resultado final. Uma vez, em uma roda de conversa sobre aparência e aceitação na minha igreja, uma menina que tinha feito transição disse que a liberdade de poder lavar o cabelo e sair com ele molhado, sem prancha ou nenhum ritual maluco da ditadura do liso, é mais que libertador”, conta Maria Eduarda. A estudante afirma que, quando saiu com cabelo molhado pela primeira vez, se emocionou.

Cintia antes da transição. Foto: Arquivo Pessoal

“Essas coisinhas pequenas do dia a dia mudam tanto nossa vida. Você tira amor próprio de onde nem sabia que tinha, passa a comemorar cada cachinho que nasce, descobre um mundo de penteados e formas de hidratar. Muda muito mais coisa do que se imagina. A cada descoberta, o amor por quem você é – de forma natural, autêntica e completa – cresce”, completa. Segundo ela, a autoestima melhora e, consequentemente, sua aparência física incomoda menos. “Vale muito à pena. Mudança de vida total, libertador de verdade”. Para Cintia, “é um alívio gigante não ter que alisar o cabelo de 6 em 6 meses. Esteticamente, eu me sinto bem melhor do que eu era antes. Não penso em alisar meu cabelo, já me conectei com essa pessoa que eu sou agora. É um processo doloroso, mas também bonito, a identidade parece que se aflora em vários segmentos”.

Cintia depois da transição. Foto: Jâmia Figueiredo

O cabelo e a identidade

“O meu cabelo afro, é o poder de dizer: Sou dona da minha própria imagem, e só eu posso modificá-la”. Foto: Arquivo Pessoal

Para a acadêmica de Psicologia, mulher negra e militante dos movimentos e causas sociais, Islene Casusa, 21, a transição capilar é uma autonomia da mulher negra e um reconhecimento de sua imagem. “A transição é um processo de recriação da autoestima: ‘já que uma vez me desconfigurei e estou tentando a reconstrução’. Para chegar ao empoderamento, tem que passar por uma escada longa, com degraus por muitas vezes dolorosos”, ensina.

Para Islene, os cachos não influenciam diretamente o movimento negro. “Existem mulheres que se aceitam e se reconhecem com os seus cabelos alisados. Agora, quando o movimento começa a trabalhar a temática de embranquecimento e destaca o alisamento como um fator social que quer modificar a negritude, o movimento negro faz um alerta e todo um processo de reconhecimento do que é ser mulher negra. Mas não existe um influenciamento direto, existe trabalho e construção”, declara.

Ainda de acordo com Islene, o cabelo dela representa a sua resistência. “É a representatividade de passagem e lealdade a tudo o que sou hoje: uma mulher negra”, pontua. “Antes de entender o que eu sou hoje, eu não tinha identidade, não sabia quem eu era e nem consciência social sobre o embraquecimento. Foi com a ajuda de outras pessoas que descobri que eu era uma mulher negra que estava sendo embraquecida”, admite.

Islene acredita que ter esse conhecimento hoje é importante para “saber enxergar um contexto sócio-histórico e poder falar sobre a atual escravidão de uma mulher negra. É poder não aceitar os estereótipos de exótica ou mulata e saber que, por trás desses estereótipos, existe todo um contexto histórico, escravagista, agressor e embraquecedor”, afirma a acadêmica de Psicologia. “O meu cabelo afro é o poder de dizer: ‘sou dona da minha própria imagem, e só eu posso modificá-la’”, completa Islene.

Box: Yasmim Rodrigues

É importante ressaltar que usar o cabelo natural não é obrigação de ninguém. “Quer continuar alisando o cabelo? Ok, mas toma cuidado, uma pessoa que não saiba mexer com ele pode estragá-lo”, sugere Cintia Martins. “Mas tenta também enxergar por outro lado: será que não é legal deixar o cabelo como cacheado? A dica que eu dou pra quem quer fazer transição é usar as tranças”, completa.

Para a estudante, a pessoa deve ter o poder de decidir sobre alisar ou não o cabelo, contanto que não decida por causa da pressão. “Não deixe chegar a esse ponto das loucuras de querer entrar no padrão”, aconselha Cintia. “Paciência e determinação são a chave, mas tapar os ouvidos para os comentários negativos e abrir para aqueles que te apoiam é fundamental também. A caminhada vai ser difícil, mas o cabelo é seu e é você que tem que amá-lo, seja como for”, completa Pedro Arthur.

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