Thadeu Nascimento, a luta continua

 Por Marta Negreiros

O primeiro abrigo para homens trans do Brasil, batizado como Abrigo Thadeu Nascimento, fechou as portas depois de nove meses de funcionamento. Localizada no bairro José Bonifácio, em Fortaleza, a casa de fachada simples e interior acolhedor chegou a hospedar 14 pessoas sem nenhuma ajuda governamental. O projeto de iniciativa totalmente independente era liderado por Kaio Lemos e Apollo Franco. O abrigo foi desativado por falta de recursos e dívidas acumuladas.

Em seu tempo de funcionamento, a casa era sustentada com apoio e doações da sociedade civil, sem nenhuma garantia de renda fixa. O aluguel de 900 reais era pago pela Associação Transmasculina do Ceará (Atransce), que recebia doações financeiras em conta bancária específica em prol de uma campanha para a locação. “A questão financeira é uma das mais problemáticas. Levantar essa grana mensalmente era um desafio que nos preocupava. Não tínhamos doações todos os meses e não tínhamos só o aluguel como pendência financeira”, declara Lemos, um dos diretores do abrigo.

Sala que se transformou em um quarto. Foto: Marta Negreiros.

Problemas como espaço e gestão de convivência também são citados por Lemos como alguns dos motivos que ocasionaram a desativação do abrigo. “Outra problemática enfrentada – apesar de essa não ser um pesar, mas que foi de grande luta – está relacionada à estrutura da casa. Era uma casa de estrutura física que não foi planejada para servir de abrigo e, por isso, não tínhamos um local confortável. Muitas vezes, tivemos que dividir o mesmo o chão para dormir”, afirma.

A jornalista Mara Beatriz, 39, mãe de uma menina trans de 13 anos e coordenadora do coletivo “Mães pela Diversidade no Ceará”, outra iniciativa independente de apoio a pessoas trans em Fortaleza, era uma das colaboradoras do abrigo e lamenta o fim temporário do projeto. “Eu conheço todas as pessoas que moravam lá. E o que essas famílias fazem, ao expulsar seus filhos de casa, acaba sendo uma violência simbólica que vai gerar muitas consequências para a vida desses jovens. Iniciativas como essa do abrigo, que acolhe LGBTs que não têm apoio dentro de casa, é de extrema importância”, pontua Beatriz.

Coletivo Mães Pela Diversidade. Foto: arquivo pessoal.

Falta de apoio governamental

De acordo com a ONG Transgender Europe (TGEu), o Brasil é o país com mais registros de homicídios de pessoas transgêneras, evidenciando o despreparo de conscientização e estruturação da sociedade a respeito do preconceito às minorias. Tanto para Mara Beatriz, quanto para Kaio Lemos, o engajamento do Governo para causas da classe LGBT é insuficiente. “A gente não tem, de forma alguma, apoio institucional, a maior prova disso é que o abrigo fechou. Há muito tempo nós precisamos aqui no Ceará de um ambulatório transexualizador que já existe em alguns estados no país. É uma questão de saúde pública, na qual estamos muito atrasados”, alega a jornalista. Além disso, ainda são muito limitadas questões de políticas públicas de segurança, educação e saúde para pessoas LGBTs no Brasil.

Lemos ainda acredita na reabertura do abrigo e continua na busca por apoio governamental. Afirma que o abrigo, como projeto piloto da Atransce, permanece conquistando credibilidade e buscando apoio junto à sociedade cearense. “Aguardamos o projeto da Câmara, que vai nos subsidiar, ser aprovado e também o posicionamento do Estado e do Município”, afirma o diretor do projeto.  

 

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