Novas tecnologias impactam a forma de fazer o jornalismo

Por Alessandra Baldessar e Isabella Campos

O curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor) está completando 18 anos neste segundo semestre de 2018. Durante esses anos, um dos desafios no campo de trabalho foi o constante avanço tecnológico e o seu impacto direto na vida profissional dos jornalistas. As transformações que ocorreram nos meios de comunicação alteraram a forma de se fazer jornalismo, além de mudar a forma como a informação se dissemina.

A Unifor, mesmo com mudanças constantes no perfil do profissional jornalista, procura estar sempre em sintonia com as novas demandas do mercado de trabalho. Na era do jornalismo multitarefa, formar jornalistas competentes e com vasto conhecimento tornou-se essencial. “O jornalista passa a ser cada vez mais um jornalista plural, tendo que ser multiplataforma hoje em dia. Ele tem que estar preparado não só para uma abordagem, tem que sair da faculdade sabendo que deve estar preparado para tratar as informações”, explica Paulo César Norões, presidente da Associação Cearense de Emissoras de Rádio e Televisão (ACERT), sobre o perfil do novo jornalista no mercado de trabalho. “Universidades que estão formando estes jornalistas têm que se adequar à grade neste sentido, e a Unifor já está trabalhando nesta direção”, completa Norões.

Eduardo Freire acredita na transformação de ferramentas ao longo do tempo. Foto: Marília Ceres.

Com a transformação que as mídias digitais causaram na disseminação de notícias, um dos questionamentos que fica é o que significa ser jornalista no século XXI. Para Eduardo Freire, 55, doutorando em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professor do curso de Jornalismo da Unifor desde 2002, a mudança está apenas nas ferramentas para obter informação e divulgá-las. “Do ponto de vista de produção, dos passos a dar, são mais ou menos os mesmos. Tem que apurar, entrevistar, pesquisar. [Antigamente] era mais difícil porque você não tinha um Google, não tinha todas essas facilidades que têm [hoje]”, explica o professor. “Então a grande diferença é de ferramentas, e as ferramentas vão ficar se transformando o tempo todo”, explica.

“A grande diferença é de ferramentas, e as ferramentas vão ficar se transformando o tempo todo” (Eduardo Freire)

Convergência

Freelancer, Thays Lavor fala dos meios convergentes do jornalismo. Fonte: Oficina da Letícia Lima.

O leitor do século XXI não é mais aquele que senta todos os dias à mesa, folheando seu jornal pela manhã. Hoje, as notícias chegam a todo o momento, com apenas um clique. Segundo Thays Lavor, 36, formada em Jornalismo pela Unifor e freelancer para veículos nacionais e internacionais, a grande mudança nesses anos foi a convergência entre os meios de comunicação. “[Desde] quando entrei na redação [como estagiária] em 2008 até hoje, muita coisa mudou. Antes existiam o impresso e o online separados. O mais convergente que existia era um celular que filmava, e o pessoal do portal meio que pedia um favor pra gente gravar”, relembra Thays. Ela ressalta que, atualmente, aprender ou, ao menos ter uma noção básica disso, passou a ser uma regra.

Atualmente, a convergência de mídias é uma realidade e está revolucionando as redações de jornais em nível mundial. “Não dá para ser um jornalista muito tradicional nos dias de hoje. Você tem que estar por dentro dos maiores avanços tecnológicos no âmbito da comunicação, e isso é esperado de você”, diz Cintia Bailey, 37, também formada pela Unifor em Jornalismo e idealizadora do “Chá com Rapadura”, podcast popular na internet.

Mesmo na era digital – e com a invasão tecnológica no meio jornalístico –, os grandes veículos de comunicação, como televisão e rádio, detêm sua importância. Isso se dá por conta da dificuldade em filtrar as notícias que são postadas a todo o momento. Com a credibilidade construída ao longo dos anos, esses meios resistem e se tornam cada vez mais importantes. “O grande papel dos meios tradicionais é exatamente se esmerar em dar a notícia correta, para que mantenham a sua credibilidade e ser uma referência para, quando aparecerem essas fontes indefinidas, conseguirem se sobressair”, explica Paulo César Norões, presidente da ACERT.

“O grande papel dos meios tradicionais é exatamente se esmerar em dar a notícia correta, para que mantenham a sua credibilidade” (Paulo César Norões)

Fake news

As fake news (notícias falsas, em tradução livre para o português) não eram um conceito muito conhecido pela maioria das pessoas há três anos, por exemplo. Mas agora é visto como uma das maiores ameaças à democracia, ao livre debate e à ordem Ocidental. Além de ser um dos termos favoritos de Donald Trump, o que tem aumentado as tensões entre as nações e levado a debates sobre uma regulamentação mais estrita das mídias sociais. O conceito também foi considerado a palavra do ano de 2017 pelo dicionário britânico “Collins”.

A ascensão das mídias sociais derrubou muitas fronteiras que impediam as fake news de se espalharem. Em particular, permitiu que qualquer pessoa criasse e divulgasse informações, especialmente aquelas que se mostraram mais habilitadas a “operar” redes sociais. O Facebook e o Twitter permitiram que as pessoas trocassem informações em grande escala, enquanto plataformas de publicação como o WordPress facilitaram a criação de sites e blogs. Em suma, as barreiras para criar notícias falsas foram desfeitas.

Cintia Bailey é dona do Chá com Rapadura, um dos mais populares podcasts brasileiros. Foto: Arquivo Pessoal.

“Acho que o grande choque em relação a fake news é a quantidade de gente, nos dias de hoje, disposta a não questionar, e a rapidez com que querem disseminar tais notícias”, sugere Cintia Bailey. “Hoje, tudo é muito rápido e logo uma notícia vira old news [notícia velha]. A preocupação com as fake news é que as pessoas parecem querer estar por dentro de tudo neste instante, mesmo evitando checar e pensar duas vezes antes de acreditar e distribuir o que estão lendo”, afirma.

Amanda Marques, 22, graduanda em Jornalismo e social media, credita à acomodação do leitor a causa da superficialidade das notícias. “É a teoria da pirâmide invertida que a gente [jornalistas] conhece”, ela explica. “Ela surgiu na Primeira Guerra Mundial, porque os jornalistas precisavam mandar informação muito rápido. Então, mandavam o lide primeiro, o que era mais importante para o que era menos importante. As pessoas usam isso até hoje. Se, naquela época, o leitor pegava o jornal e só lia o lide, imagina agora, que ele tem um aparelho celular minúsculo com um milhão de informações vindo de todos os lados”, discorre.

O papel do jornalista

A social media Amanda Marques comenta da superficialidade das notícias. Foto: Arquivo Pessoal.

“Nós, como contadores de história, temos uma responsabilidade muito grande. Então, as pessoas, por mais que às vezes elas não pareçam querer ser informadas, elas querem saber. E alguém tem que contar. Mas o que vai fazer a diferença, é como você vai contar essa história. Você vai adaptar a sua história pra caber em uma mídia e a pessoa vai ver um vídeo, escutar seu podcast, entender tudo o que está ali sem precisar ler. Ela vai ter noção de que aquilo é uma informação verdadeira. Isso faz toda a diferença”. A fala de Amanda Marques traduz o que se espera do jornalista do futuro, mas é o que na verdade se esperar dele já no presente.

Em uma época de quantidade esmagadora de informações, tanto verdadeiras quanto falsas, é importante apresentar conteúdo com áudio, imagem, fotografia e infográfico, se possível, para prender a atenção do receptor. No entanto, o diferencial do profissional da área é outro: trazer essas informações de forma bem trabalhada e, acima de tudo, verificada. “Eu acho que, cada vez mais, o jornalismo vai ser mais importante”, comenta o professor Eduardo Freire. “Principalmente, porque, como todo mundo está produzindo, as pessoas precisam ter fontes de informação qualificadas”, afirma.

Segundo Freira, as pessoas não vão tomar uma decisão pelo Instagram ou por um grupo de Whatsapp, por exemplo. “Você vai entrar numa grande confusão, numa grande briga, e não vai descobrir nada. Então você vai procurar se informar pelos nomes importantes do jornalismo, e vai ser a imprensa estabelecida, a fonte que elas vão buscar. Logo, vão precisar de jornalistas, e jornalistas que tenham qualidade”, garante o professor.

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