O jornalismo impresso sofre impacto da digitalização

Por Mateus Moura

O século XXI trouxe evoluções e, novamente, a constante discussão dentro do jornalismo acerca da sobrevivência do impresso. O hábito de tomar uma xícara de café, folheando as páginas ainda com cheiro de tinta, pode ter sido uma prática comum do século XX, mas está longe de atrair as novas gerações. A praticidade e a velocidade proporcionadas pela internet trazem a comodidade que a grande maioria busca ao consumir notícia. Afinal, o jornal impresso irá acabar com a consolidação das novas mídias?

Jornalista Thays Lavor. Foto: reprodução.

Para Thays Lavor, jornalista freelancer formada pela Universidade de Fortaleza (Unifor), não acabará pelas próximas décadas. “Vai morrer? Pelo menos não agora. Não imagino isso para daqui 10 ou 20 anos. Esta é uma discussão que vem sendo feita há muito tempo”, afirma. A tendência é que os grandes jornais no mundo determinem quais serão os próximos passos. Priorizar grandes reportagens, que tragam questionamentos, apurações precisas, furos e riqueza em detalhes e mídias, além de investir em equipes de inteligência, por exemplo, pode ser uma alternativa.  “O The Guardian e o The New York Times aumentaram as vendas e as tiragens, além de investirem em grandes reportagens. Eles são influências para os outros grandes veículos do mundo. Eu acredito que os jornais impressos estão se reinventando”. comenta Thays.

Além dessa necessidade de se reinventar, é preciso se adaptar às diversas mudanças e novidades, aprender a coexistir com as mídias digitais, algo que já vem sendo adotado por grande parte das empresas. Atualmente, a maioria dos jornais têm sua versão impressa e digital, na tentativa de alcançar os mais variados públicos e abstrair o que cada mídia tem de melhor. “As redações de impresso acabaram se tornando redações híbridas. Elas têm mudado para a produção de conteúdo informativo no meio digital”, explica Samira de Castro, presidente do Sindicato dos Jornalistas (Sindjor).

O aspecto cultural do Brasil, no momento atual, gera uma superficialidade pela busca de informações que não se restringe apenas ao impresso, mas também ao digital. “No Brasil, temos um cenário muito peculiar, tem a ver com a cultura de leitura”, conta Felipe Góes, jornalista e designer gráfico formado pela Unifor. São poucas as horas de leitura consumidas pelos brasileiros diariamente, que se comprova na pesquisa publicada pelo Índice de Cultura Mundial, em 2016, sobre os países que mais lêem durante o dia. O Brasil ficou em vigésimo sétimo lugar, com média de cinco horas e doze minutos, atrás de Venezuela, Argentina e México.

Infográfico: Mateus Moura.

O desinteresse brasileiro reflete de forma direta no jornal impresso. Apesar de ser o veículo cuja confiabilidade do público é a mais alta (53%), em comparação aos outros meios de comunicação, o consumo é de apenas 6%, de acordo com pesquisa divulgada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), em 2014. Com todos esses fatores, a popularização das Fake News se intensificaram, sendo constantemente utilizadas pelas mídias digitais e facilmente propagadas. “Os brasileiros têm uma cultura muito superficial quando falamos sobre o impresso e mídias digitais. A incapacidade e impaciência das pessoas na busca por informações favorece a propagação das Fake News”, diz Góes.

Felipe Góes. Foto: reprodução.

Baseado nesta realidade, provavelmente, o jornalista terá que falar para os indivíduos mais sobre o seu cotidiano, sobre o que lhe impacta diretamente. Dado o volume de informação disponível hoje, vai ser preciso selecionar aquilo que é mais interessante para um determinado público, evitando que esse público se perca em um mar de informações e depois não tenha como se localizar. “Vai emergir muito mais o jornalismo de bairro, onde as pessoas vão se interessar mais pelo o que acontece ao seu redor, no seu local de moradia, pois é isso que importa para o cotidiano do indivíduo”, comenta Alejandro Sepúlveda, professor da disciplina Jornalismo Impresso.

As mudanças também afetaram o curso de Jornalismo da Unifor, que precisou se atualizar e passar por transformações para se adequar às novas condições que a profissão exige. Há dois anos e meio, a grade do curso teve mudanças significativas, com o objetivo de capacitar os profissionais para o mercado em evolução, facilitando sua inserção. “Não só atualizamos as disciplinas, mas também nos aproximamos do mercado, que está sendo profundamente transformado. Na Unifor, o estudante encontra um ambiente propício para se preparar aos novos desafios da profissão”, diz Sepúlveda.

Alejandro Sepúlveda, professor de jornalismo impresso. Foto: Ares Soares.

O jornal impresso no Ceará

O mercado na área de jornal impresso no Ceará é restrito. Em Fortaleza, existem três grandes jornais, sendo O Povo e o Diário do Nordeste os que possuem maior destaque em meio ao público consumidor. “Mesmo nos dois maiores, o momento de readequação das estruturas destas empresas tem restringido ainda mais a abertura de novas vagas”, conta Inácio Carvalho, editor de fechamento do Diário do Nordeste e também ex-aluno do curso.

É comum que haja rotatividade dos funcionários dentro das empresas, onde jornalistas deixam as redações em busca de novas opções e desafios, qualificação em universidades por meio de cursos de especialização, mestrados e MBAs, ou para áreas que estão em ascensão, como a assessoria de imprensa. “Essa rotatividade abre espaço para os jovens profissionais que, geralmente, chegam à redação como estagiários”, explica Carvalho.

 

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