“A sociedade sempre vai precisar de quem vá buscar informação por ela”

Por Levi Aguiar e Marta Negreiros

A presidente do Sindicato dos Jornalista do Ceará (Sindjorce), Samira Castro, conversou com o JornalismoNIC sobre diversos aspectos do jornalismo e as necessidades de seus atuantes. Além da sua atuação sindical, Samira teve uma forte atuação profissional tendo conquistado prêmios como HSBC Imprensa e Sustentabilidade, Prêmio Massey Ferguson e Prêmio BNB de Jornalismo. Em 2011, ela apareceu entre os 200 jornalistas mais premiados do Brasil no ranking do portal Jornalistas & Cia, resultado do seu trabalho como redatora da editoria de Reportagem do Diário do Nordeste, jornal onde atua desde 1997.

Na entrevista, a jornalista trata de pontos importantes para o campo profissional contemporâneo como a atuação do sindicato no dia a dia jornalista e as dificuldades do mercado de trabalho no Ceará. Trata também das preocupações para o futuro a partir dos segmentos da profissão juntamente com o choque de gerações e o advento do jornalismo digital. Confira:

JornalismoNIC: Como é a atuação do Sindicato dos Jornalistas?

Samira Castro: O sindicato atua estadualmente em defesa dos interesses dos trabalhadores jornalistas. Tem que cobrir todos os municípios do Estado do Ceará, sediado em Fortaleza. É filial da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), que é o conjunto dos 31 sindicatos de jornalistas que existe no Brasil. As nossas prerrogativas são garantir o exercício profissional, a liberdade de expressão e primar pela comunicação como direito humano. Somos filiados da Central Única de Trabalhadores (CUT) no Ceará, assim como filiados – e participantes da diretoria – do Dieese, que é o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. Somos ainda filiados e coordenadores do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) aqui no Ceará.

JN: Como o sindicato enxerga o futuro de cada segmento do jornalismo?

SC: O jornalismo foi um dos campos de trabalho que mais se modificou nos últimos 20 anos. O modo de fazer jornalismo se alterou completamente com o advento da internet comercial no Brasil. Essa alteração, obviamente, impacta no mercado de trabalho. A gente que acompanha as leituras mundiais que existem sobre o futuro do jornalismo, temos percebido um futuro de convergência de mídias, de produção multiplataforma. Mas, ao mesmo tempo, não dá para dizer se esse ou aquele meio vai acabar. Eu acho que a história é meio cíclica. Quando surgiu a TV as pessoas achavam que o rádio ia acabar, quando surgiu a imprensa [jornal diário] as pessoas achavam que os livros iam acabar. No entanto, tudo isso tem coexistido até hoje, cada um dentro do seu nicho específico de público. O que a gente vislumbra é uma diminuição da tiragem dos veículos impressos e, com isso, o campo de trabalho se reduz drasticamente. Ao mesmo tempo, as redações de impresso acabaram virando redações híbridas, elas têm mudado para a produção de conteúdo informativo no meio digital. Tudo isso tem exigido do profissional outras formas de encarar a profissão. Infelizmente, a gente tem aprendido ‘na marra’ a produzir com esse olhar das multiplataformas. Algumas universidades e cursos têm tentado adequar seus currículos, mas o problema é que a gente continua sendo uma pessoa e ganhando um salário. É ter que entender de mobile, georreferenciamento, jornalismo de dados, linguagem de mídias sociais, sair para uma pauta e atualizar aquela matéria pelo smartphone jogando a matéria atualizada na rede, mas, no final das contas, receber só um salário no fim do mês.

JN: A diferença de carga horária e salário do atual jornalista multimídia são questões que o sindicato busca aperfeiçoar?

SC: Esse tem sido um grande campo de luta do Sindicato do Jornalistas, não só do Ceará, mas no Brasil inteiro. A gente, por exemplo, aqui no Estado, durante muito tempo, tentou colocar nas convenções coletivas de trabalho – que são normas de trabalho negociadas entre o sindicato dos empregados e o sindicato dos patrões -, cláusulas em que o jornalista tivesse um adicional de salário pelo seu material aproveitado em outras mídias do próprio grupo. O problema é que as empresas não querem pagar, porque a realidade que se impõe no mercado é um segmento muito concentrado de mídia e muitos profissionais disponíveis. É a lei da oferta e da demanda. Eu tenho mais gente procurando trabalho, do que o campo tem para ofertar na área do jornalismo. O nosso desafio é esse: a gente tem uma legislação que protege, existe um decreto de lei federal emitido na época do Governo Militar, que diz que a nossa carga horária é de cinco horas por dia.

JN: Porque a jornada do jornalista é de 5 horas?

SC: Por conta de estudos que detectaram que o nível de estresse suportável no profissional que busca a notícia só podia aguentar aquela carga horária, ou seja, essas cinco horas que podem ser estendidas eventualmente para duas horas extras por dia. Na legislação tudo tem que estar bem escrito, porque, se não, dá margem à “interpretação”. Como não estava muito bem descrito o que são essas duas horas extras eventuais, as empresas começaram a interpretar que a lei permite contratar por duas horas a mais. Contrataram todo mundo por sete horas pagando sempre as duas extras. O que seria uma eventualidade, passou a ser uma carga horária de fato. E, aí, quando as pessoas entravam na profissão preferiam trabalhar as setes horas porque, pelo menos, ganhavam as duas horas extras. Nas entidades que respeitam a carga horária de cinco horas, o profissional ganha tão pouco que vai ter que ter um segundo ou terceiro emprego para poder fazer uma renda familiar condizente com as suas necessidades.

JN: Como senhora avalia a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de não obrigar a necessidade do diploma em jornalismo para atuar na área?

SC: Essa confusão do diploma ou não diploma específico de nível superior para carreira de jornalismo começou em São Paulo, com a decisão de uma juíza, para atender os interesses da Folha de São Paulo e o jornal Estadão. Isso virou uma bola de neve e as empresas perceberam um forte lobby para levar a situação ao Supremo alegando que o diploma de nível superior específico em jornalismo fere o princípio da liberdade de expressão. Isso se comprova que não existe. Primeiro, porque qualquer pessoa de notório saber formada em outras áreas contribui com os veículos de comunicação sendo fonte ou escrevendo artigo de opinião. Então, não tem ofensa à liberdade de expressão. Segundo, você joga na lata do lixo uma profissão que já tinha uma regulamentação dentro da Lei de Imprensa há muito tempo. O diploma foi um critério absolutamente transparente de acesso à profissão. Exercer profissionalmente o jornalismo, na minha avaliação, requer um nível superior específico.

JN: O quanto essa decisão afetou a profissão?

SC: No começo, foi um baque muito grande. Em 2009, se achava até que, sem a necessidade do diploma, as Universidades iam fechar, mas é ‘muito pelo contrário’. No Ceará, especificamente, a gente ainda consegue ter empresas que preferem contratar profissionais que têm o diploma de nível superior específico em jornalismo. São Paulo já é totalmente diferente, hoje em dia se tem mais registros profissionais de não diplomados. São realidades de mercado totalmente diferentes. No interior do Estado, infelizmente, nós enfrentamos essa falta de compromisso dos gestores públicos com a contratação de profissionais diplomados. No município de Fortaleza, nós temos uma Lei que foi aprovada na Câmara Municipal e sancionada quando a Luizianne Lins era prefeita, que o município de Fortaleza só pode contratar jornalistas com diploma para trabalhar no serviço público. Nós tentamos aprovar uma lei semelhante no Governo do Estado, mas exigia mexer na Constituição do Estado e a gente acabou não conseguindo articular esse ganho. Nacionalmente, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do diploma passou no Senado, com uma grande folga de votos. A PEC restabelece dentro da Constituição a obrigação do diploma de nível superior específico para exercer o jornalismo. Mas, quando chegou na Câmara [Federal], nunca se encontrou o momento ideal para ser colocada em votação porque nós precisamos de 408 votos, chama-se “quorum qualificado”. E,  conseguir 408 votos em um Congresso que está no meio de uma crise política, econômica e social, fica impossível.

JN: O perfil do jornalista atual, às vezes, é muito associado a blogueiros e produtores de conteúdo, como, por exemplo, o Hugo Gloss. Você poderia comentar essa questão entre jornalismo e entretenimento?

SC: Eu vou fazer um paralelo com a minha geração. Na minha época, as pessoas achavam que o jornalismo era uma profissão de alto glamour. Hoje em dia, eu vejo nessa nova geração mais ou menos o que acontecia com quem aparecia na televisão. Mas, dizer sua opinião pessoal, indicar loja tal ou marca tal, isso não é notícia. Isso é publicidade. É completamente diferente de você ir no local e apurar.  São coisas diferentes. E nem o entretenimento pode ser considerado jornalismo. Eu sou ainda mais radical: acho que nem programas policialescos são jornalísticos. É outro tipo de coisa. A gente está em um momento de desvalorização da nossa profissão enquanto o mundo nunca precisou tanto de notícia qualificada. Somos nós que aprendemos qual o valor-notícia, somos nós que aprendemos a apurar com ética. Esse é o nosso campo de trabalho. Hoje outras oportunidades se abrem, assim como se abriu, no final da década de 90, a assessoria de imprensa e, depois, de comunicação. Abriram-se as ouvidorias… Jornalista tem muito desse trabalho de lidar com o público e de ouvidores. E eu acho que vai abrir também para os “checadores” [repórteres de checagem de notícias]. Uma coisa é certa, a sociedade sempre vai precisar de quem vai buscar informação para ela, por ela e de quem dê voz às suas demandas.

JN: Como a senhora explicaria esse choque de gerações trabalhando em conjunto sob o impacto dos meios tecnológicos?

SC: Existe uma pesquisa, de 2011 – uma das mais atualizadas do nosso campo -, chamada Perfil do Jornalista Brasileiro, da Universidade Federal de Santa Catarina. Essa pesquisa diz que a categoria de jornalista atuante no Brasil é majoritariamente jovem de até 35 anos, feminina e se autodeclara branca. Desde a minha época, as redações têm, em todos os meios de comunicação, o hábito de expurgar o profissional a partir dos 50 anos de idade. Em raríssimos casos, você vê uma redação com maioria de pessoas mais experientes. Costuma-se ver mais como colunista, comentarista de política, como âncora específico, mas não vê essa pessoa no dia a dia na produção da notícia. Os profissionais mais antigos têm dificuldade de lidar com a tecnologia, exatamente porque não nasceram nativos digitais, isso é um fato. Mas, para coexistir, é preciso aquele profissional mais velho para ser a pessoa que agrega com seu conhecimento, com a sua história, com a sua experiência, com seu nome, e é preciso ter o profissional mais jovem que está mais antenado, que vai ter condições de sair [para cumprir a pauta na rua].

JN: Qual conselho você daria para os novos profissionais que estão tentando entrar no mercado de trabalho?

SC: A primeira coisa que o jornalista deve fazer é investir em conhecimento. O conhecimento você investe em si, no sentido de estar preparado. Com conhecimento você alça voo muito maiores. Se você tem oportunidade de morar fora, fazer intercâmbio, ter o próprio negócio, faça. Isso vai servir para você. É importante também entender que, no jornalismo, o trabalho é feito em equipe. Não existe trabalho sozinho. O jornalismo é importante desde o desenvolvedor do site ao motorista que te leva ao campo.

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