Jornalistas ganham novo perfil na era digital

Por Letícia Serpa

O jornalismo atual já não é o mesmo de antes. A digitalização é uma realidade e já possui grande visibilidade do público. Além disso, o jornalista cada vez mais precisa adaptar-se ao sistema de multiplataforma, isto é, a atuação em todas as abordagens da profissão. Por trabalhar com o imediatismo, o profissional deve saber como tratar a notícia de forma rápida, esclarecedora e, agora, plural. É o que afirma Paulo César Norões, presidente da Associação Cearense de Emissoras de Rádio e Televisão (ACERT) e diretor de relações institucionais, programação e jornalismo do Sistema Verdes Mares (SVM) na entrevista a seguir, ao Jornalismo NIC, e explica um pouco dos desafios do jornalista que deseja ingressar no mercado de trabalho em meios jornalísticos tradicionais.

JornalismoNIC: Atualmente, a digitalização está presente a todo instante na vida das pessoas. Dessa forma, como o mercado de rádio e televisão ainda sobrevive como plataforma de comunicação?

Paulo César: O jornalismo, assim como muitas outras profissões, está mudando. Os avanços tecnológicos estão mudando a forma de disseminar as informações e, por isso, o jornalismo exige uma adaptação para os novos tempos. Estamos passando do modelo tradicional (jornal impresso, rádio e televisão), para um modelo digital que se impõe pela chegada da internet e, principalmente, pela popularização dos smartphones. Dessa forma, vários conceitos acabam mudando. Antigamente, você trabalhava com um deadline definido para um jornal que ia ser impresso no dia seguinte. Os telejornais também tinham o seu tempo determinado, e a rádio, que sempre foi mais online, por já ser tradicionalmente um veículo mais próximo do imediatismo, estava sempre no ar. Isso muda completamente a partir do momento em que você está acompanhando o que  acontece, no momento em que está acontecendo. Porém, isso não tira dos meios tradicionais a sua função ou papel fundamental, que é deter a credibilidade com o público e é, por isso, que o mercado de rádio e televisão ainda sobrevive diante da era da digitalização. Então, o grande papel dos meios tradicionais é exatamente se esmerar em dar a notícia correta para que a sua credibilidade seja mantida. Por isso, o jornalismo, de uma maneira geral, tem que prezar pela credibilidade, porque é isso o que vai mantê-lo neste processo de comunicação.

JN: A partir disso, algo vem mudando nas redações?

PC: Aqui no Brasil, existem grupos de comunicação que são muitos em um só. Então, a maioria das redações atendem todas as mídias. Isso está acontecendo em nível mundial, todos estão caminhando para isso, para essa convergência das mídias, com uma relevância grande no digital, que é hoje o companheiro de bolso de todo mundo. Dessa forma, as plataformas se completam. Então, onde eu recebo a notícia? Nos portais da internet. Onde eu aprofundo a notícia? No jornal impresso. Onde eu discuto? Nos debates da rádio ou da televisão. Ou seja, cada plataforma tem a sua função, como sempre teve, mas o que está acontecendo é uma redefinição desses meios. As pessoas costumam até se perguntar “o jornal impresso vai acabar?” Não, o jornal tem a sua função noticiadora que está se apropriando e, talvez no futuro, haja ainda mais mudanças. Mas, no momento, o que existe é uma redefinição de funções e, quando há jornais que funcionam assim, eles procuram fazer essa integração para que todos possam dizer como a notícia, que é uma só, pode ser tratada por cada uma dessas plataformas.

JN: O mercado de rádio ainda é o mesmo?

PC: O mercado de rádio nunca foi o atrativo maior para o jornalista. Hoje é a época em que está sendo um pouco mais, por meio do surgimento de emissoras que focam no jornalismo o dia todo. Então, isso abre um mercado bom. Mas, o curioso é que isso também está dentro da convergência. As emissoras também estão trabalhando em conjunto com os outros meios. O mercado de rádio se ampliou a partir dos novos modelos de redação. Então, os espaços para serem ocupados nessas plataformas também, o que gerou um maior número de vagas. Por isso, hoje, as rádios estão inseridas nessa convergência, as que fazem jornalismo principalmente. Além disso, a rádio é a mídia mais próxima e a que permite maior interação com o ouvinte. Há momentos no trânsito, por exemplo, em que ela salva você. Já que não é permitido navegar pela internet através do celular quando você dirige, você liga o rádio para ouvir as notícias, uma transmissão de futebol ou de um evento que está acontecendo. Ela te dá serviço, sobretudo, nas grandes capitais, comentando sobre o tráfego de veículos pela cidade. De certa forma, o rádio é mais uma prestação de serviços através de informações jornalísticas.

JN: O que difere o rádio dos outros meios tradicionais?

PC: Eu defendo a tese de que a rádio deve ser mais local. O diferencial deve ser exatamente tratar das coisas que acontecem na sua cidade, que dizem respeito diretamente a você. A própria televisão, de uns meses para cá, tem ficado cada vez mais local. Isso porque o fenômeno da globalização nos empurrou para dentro de tribos, algo que permitiu a união dos grupos que, hoje, se comunicam. As minorias têm voz, as etnias se representam, os grupos profissionais se reúnem e tudo isso se deu através da globalização, especialmente, pela internet. Então, eu considero que o grande diferencial da rádio, seja a proximidade. O jornalista precisa manter uma ligação próxima com as pessoas.

JN: Como seria o modelo ideal de um jornalista?

PC: Atualmente, o jornalista passa a ser cada vez mais um jornalista plural, ele precisa ser multiplataforma, tem que estar preparado não só para uma abordagem. Não é que ele vá ter que sair trabalhando triplicado, mas a divisão de tarefas vai aumentar. O jornalista precisa ter a notícia em mente, o que vai mudar é a forma de falar em cada plataforma. Por exemplo, se você está falando no rádio, você precisa ser mais descritivo. Já na TV, há coisas que não precisam ser ditas, a imagem fala por si só, e no jornal impresso também é diferente. Então, como jornalista, você precisa estar preparado para tudo. Porém, o fazer jornalismo é a mesma regra para todos, a conduta, a credibilidade e a ética precisam estar dentro, o que vai mudar é a forma de repassar. Além disso, o profissional do ramo precisa batalhar por sua credibilidade e zelar por isso. Costumo dizer que o jornalista trabalha 24h, pois a todo momento pode receber informações pela internet, que só devem ser repassadas se forem verdadeiras. O jornalista precisa se lembrar que está colocando, junto daquela informação, a credibilidade do seu nome. O mercado de hoje não está mais seletivo e, sim, disputado. Então, se você quer se destacar, precisa se qualificar. Não existe redação para todo mundo, por isso, vai levar vantagem quem se qualificar mais. Ao aproveitar os laboratórios práticos da universidades, você já sai mais ou menos preparado para o mercado de trabalho. É uma disputa. E, muito, provavelmente vão entrar nas redações os mais qualificados.

Box: Daniel Vasconcelos.

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