“Os pedestres são a base da criação das vias”, afirma a arquiteta Skye Duncan

Por Levi Aguiar

Fortaleza tem se destacado por seus investimentos em projetos que visam melhorias no trânsito. No mês de julho, a cidade recebeu o prêmio Sustainable Transport Awards que simboliza o reconhecimento internacional aos projetos inovadores de mobilidade urbana sustentável, concedido pelo Instituto de Políticas de Transportes e Desenvolvimento. A Prefeitura Municipal de Fortaleza e a Universidade de Fortaleza (Unifor) realizaram a terceira edição do Fórum Observatório de Segurança Viária com a temática “Cidades para Pessoas”, na tarde do último dia 6 de agosto, no Auditório 1, da instituição de ensino. Skye Duncan, neozelandesa, formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Columbia, em Nova York, participou da palestra e enfatizou a necessidade de potencializar o acesso às ruas para os pedestres, promovendo uma melhoria nos espaços públicos.

Skye Duncan, neozelandesa, arquitetura e urbanista. Foto: Ares Soares.

Duncan tem mais de 15 anos de experiência em arquitetura, desenho urbano e planejamento. Atuou no Departamento de Planejamento Urbano da cidade de Nova York, nos EUA, além de colaborar com várias agências e organizações nas políticas da cidade para torná-la mais sustentável e habitável. As intervenções abordadas pela palestrante, que aparentam ser simples, influenciam no cotidiano urbano. O estudante do curso de Arquitetura e Urbanismo, Mattheus Fernandes, 24, acredita que vidas podem ser salvas a partir das práticas relacionadas à mobilidade. “A cidade hoje é pensada para carros, mas nem todos temos acesso ao transporte privado, então devemos dar força à ideia de coletividade”, admite.

 

Cidades para pessoas

“É importante que haja uma regulamentação que conscientize os motoristas para que reduzam a velocidade”, afirmou a urbanista. Duncan comparou duas situações. No primeiro caso, mostra um atropelamento por um veículo a 30km/h, quando a vítima tem 90% de chances de sobreviver por causa da velocidade. No segundo caso, quando o veículo está a 60km/h, as chances são de 90% para que a vítima não sobreviva. Luiz Alberto Saboia, Secretário Executivo de Conservação e Serviços Públicos de Fortaleza, reforçou a fala da neozelandesa. “Os casos de morte na avenida Leste-Oeste diminuíram 54% depois do aprimoramento da sinalização de trânsito e da redução da velocidade máxima para 50km/h na via. Estamos cuidando de vidas, pois reduzindo a velocidade estamos salvando vidas”, garantiu.

A palestra lotou o auditório da Unifor, alunos e professores estavam presentes. Foto: Ares Soares.

“Os pedestres são a base da criação das vias. E as ruas te ensinam, te induzem a um comportamento”, relatou a arquiteta. Pensar a importância urbanística das vias reflete na saúde e segurança das ruas. Pois a revitalização atrai pessoas para os locais coletivos, para fazer caminhadas e desfrutar momentos de lazer com amigos e família, ou seja, há uma apropriação dos espaços públicos. A estudante do curso de Arquitetura e Urbanismo, Danyella Lima, 20, presente à palestra, acredita que “a forma de desenho urbano ajuda em como a cidade será guiada e respeitada”. A estudante também destaca ser fundamental a função dos pedestres na ocupação de espaços urbanos.

Dados de trânsito

A fala trazida por Saboia concentrou-se em Mobilidade Urbana “muito mais do que fluxo de veículos”. A palestra expôs dados sobre os casos de acidentes. Segundo pesquisas feitas pelo Observatório de Segurança Viária em parceria com a Secretaria de Conservação e Serviços Públicos, 50,8% dos casos de acidentes no trânsito ocorrem com motociclistas. Os dados apontam que, desde 2004, há uma diminuição de mortes de pedestres, e este percentual representa atualmente 36,7% dos casos. Comparado aos anos anteriores, 2017 apresenta uma redução de 35% dos casos de risco de morte no trânsito. “Primeiro nós moldamos as cidades, depois elas nos moldam”, parafraseou Saboia o arquiteto Jan Gehl.

“Primeiro nós moldamos as cidades, depois elas nos moldam” (Jan Gehl)

A pesquisa teve a preocupação de mapear as principais áreas nas quais ocorrem acidentes em Fortaleza, dentre elas estão as avenidas: Leste-Oeste, João Pessoa, Osório de Paiva e Perimetral.

Gráfico: Secretaria Municipal de Conservação e Serviços/ Divulvação.

Em Fortaleza

Revitalização do Centro Dragão do Mar Arte e Cultura. Foto: reprodução.

O Projeto ‘Cidade da Gente’ consiste em reunir lazer, cultura e ocupação em lugares da cidade de Fortaleza. Com apoio da Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global, a Prefeitura de Fortaleza deu início ao projeto de revitalização das ruas. Durante 15 dias, o entorno do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura está mais atrativo para o tráfego de pedestres com sinalização em cores, bancos, plantas e redução da via para automóveis. Também foi feita uma experiência no bairro Cidade 2000, em setembro de 2017, quando o projeto ‘Cidade da Gente’ propôs um novo espaço para o convívio social, onde antes era uma via de circulação intensa de veículos sem espaço para pedestres. A intervenção é temporária, os participantes do projeto alegam que se trata de um teste, pois decisões concretas de mudança do tráfego na região devem ser tomadas gradativamente.

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