Curso de Jornalismo completa 18 anos atento às mudanças tecnológicas

Por Clara Menezes e Letícia Feitosa

O curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor) foi fundado no segundo semestre de 2000 e, hoje, dia 1 de agosto de 2018, completa 18 anos. Até chegar em sua maioridade, o curso se reinventou e buscou se alinhar com as necessidades do novo mercado de trabalho. O ensino da gestão e a migração para o digital são características da matriz curricular, que tenta acompanhar estas novas atualizações da profissão.

Porém, há 18 anos, o foco era outro, “tinha muito uma pegada de impresso. Tinha uma visão muito estanque. Jornalismo impresso, televisão, rádio. A parte da internet, da convergência, ainda não era muito forte”, relembra o professor Eduardo Freire, professor do curso desde 2002.

Implementação

Kalu foi uma das professoras que organizaram o projeto pedagógico. Foto: FotoNIC

O projeto pedagógico iniciou um ano antes da criação do curso, com as professoras Gabriela Frota Reinaldo, Olga Guedes Bailey e Carmen Luisa Chaves. Antes, apenas existia o curso de Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda, que foi o primeiro no Ceará. “Depois quiseram fazer o curso de Jornalismo também”, conta a professora Carmen Luisa Chaves, a Kalu, como é conhecida. A docente lembra que começou ministrando aulas para  estudantes de Publicidade, porque era o único curso da área da Comunicação ofertado na Unifor.

Assim como Kalu, a professora Kátia Patrocínio faz parte da primeira turma de docentes do curso de Jornalismo da Unifor e ensina na instituição até os dias de hoje. Kátia também era formada em Jornalismo e lecionava no curso de Publicidade. Ela começou ensinando Teoria da Comunicação, enquanto se preparava para ser a professora de Rádio para as turmas de publicitários. Kátia relata que viu os laboratórios sendo equipados, “inclusive os de Rádio, para começar as disciplinas voltadas para a publicidade. Quando o Jornalismo chegou, isso [os estúdios] já estava feito e o novo curso pôde usar as mesmas estruturas. Na época, teve o reconhecimento do curso na cidade, porque, até então, nós só tínhamos o curso de Jornalismo na Universidade Federal do Ceará (UFC)”, recorda.

Edgard Patrício foi o primeiro coordenador do curso. Foto: Letícia Feitosa

“Como foi a definição de quem seria a coordenação? Se colocou para o colegiado decidir. Então, houve uma votação e eu fui eleito diretamente. Foi aí que eu assumi a coordenação do curso”, conta o primeiro coordenador, Edgard Patrício, hoje professor da UFC. No início, a ideia era evitar a superposição de conteúdo. De acordo com Patrício, muitos alunos reclamavam do fato de estudarem conteúdos semelhantes em disciplinas diferentes. Na época, a solução encontrada foi a implantação do projeto “Ateneu”. Era definido uma temática no início do semestre e, durante o período estudantil, cada professor ligava essa temática ao conteúdo de sua disciplina. No fim, o aluno apresentava um único trabalho por semestre, que valia para todas as disciplinas. “O que a gente intencionava com isso? Aprofundar os trabalhos que eram apresentados já a partir do primeiro semestre. Ele [aluno] tinha uma dimensão transversal em relação a todas as disciplinas”, explica.

Para ele, um destaque do início do curso foi a excursão para Jaguaribara, em 2000. O professor salienta a importância da viagem pela experiência com os alunos e o compromisso da Unifor com as atividades do curso, ao custear ônibus e demais despesas. Iniciativa que a instituição mantém até hoje com o Projeto Pau de Arara e outras atividades de campo propostas pelos professores. De acordo com Patrício, “havia o propósito, dentro da própria universidade, de fortalecer o curso no seu nascimento. Muitas coisas que a gente conseguiu foi fruto da Unifor apostar no curso de Jornalismo como um curso que poderia dar certo”.

Pesquisa

Após os anos iniciais, o curso foi se consolidando e se tornando referência no mercado cearense. Depois de Edgard Patrício, a coordenação ficou sob a responsabilidade da professora Erotilde Honório, que assumiu o curso de 2001 até julho de 2007. Para ela, uma das ênfases era “investir na capacidade dos alunos de relacionar teoria e realidade. Fazê-los pensar e iniciá-los no prazer da leitura”. Nessa época, a maioria dos professores já estava engajada em alguma linha de pesquisa, o que foi incentivado a partir da qualificação de professores e do fortalecimento dos grupos de pesquisa.

“Investir na capacidade dos alunos de relacionar teoria e realidade. Fazê-los pensar e iniciá-los no prazer da leitura” (Erotilde Honório)

Desde este período, a mudança curricular já era algo pensado pelo corpo docente. “Mas, a primeira grande luta dentro do curso foi liberar equipamentos para a realização de trabalhos dentro e, principalmente, fora da universidade”, assim destaca o papel das atividades extracurriculares e de extensão. Para ela, a autonomia no pensar dos alunos era mais importante, assim como fazer parcerias entre os estudantes e, por extensão, entre eles e os professores.

De acordo com a professora fundadora, Kalu Chaves, o curso de Jornalismo, desde o início, tenta equilibrar o mundo acadêmico e o mercado. “Se a gente for pensar no universo das universidades particulares, o mundo acadêmico também entrou para o mercado”, afirma a docente. Para Erotilde, as teorias do jornalismo envelheceram. “Não vejo nada posto no lugar, nada de novo”, completa, dando um quadro preocupante do jornalismo atual e mostrando os desafios que o curso de Jornalismo enfrentará nos próximos anos.

Eduardo Freire já tinha o desejo de atualizar a matriz do curso. Foto: FotoNIC

Para dar continuidade ao trabalho de Erotilde, o professor Eduardo Freire assumiu a coordenação no segundo semestre de 2007. Um dos desejos de Freire era atualizar a matriz do curso, mas já estava havendo uma discussão sobre as mudanças das diretrizes curriculares no Ministério da Educação (MEC). Então, não se podia fazer muitas modificações na grade curricular da época. “A gente ficou naquele jogo: não podíamos ir para frente, porque não adiantava mudar e depois ter que mudar de novo. Fora as dificuldades de se chegar em um consenso, porque tentou-se ouvir vários professores, as diversas visões que se tinha do futuro do jornalismo”, relembra.

Digitalização

O curso inicialmente era muito voltado ao impresso e não havia praticamente nenhuma ação nas mídias sociais. As primeiras disciplinas voltadas para a web foram ofertadas apenas em 2003/2004. “No tempo em que Erotilde era coordenadora, eu insistia que não poderia não haver internet na nossa grade. Aí foi quando eu consegui convencê-la que poderia ter uma disciplina de webjornalismo”,  relembra Freire, hoje professor de Design Jornalístico, Jornalismo Digital e Jornalismo em Meios Interativos.

Dessa maneira, o curso começou a se encaminhar para o digital. Porém, somente em 2010 a ideia da convergência começou a ganhar forma. “O curso era muito estanque, consolidado, como era a visão do jornalismo até 2010. Não existia mobile, smartphone, a gente não tinha rede social. O que a gente usava era o Orkut, que era muito diferente do conceito de rede social que se tem hoje”, explica. Somente com a criação do Núcleo Integrado de Comunicação (NIC), em 2010, que a concepção de convergência se fortaleceu dentro do curso. Neste mesmo ano, o professor Wagner Borges assume a coordenação e agrega um perfil mais ligado ao empreendedorismo ao curso de Jornalismo.

Gestão

Wagner Borges trouxe o ensino da gestão para a nova matriz. Foto: FotoNIC

Os cursos de jornalismo do Brasil precisaram se adaptar às novas diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Educação (MEC), publicadas em 2013. Com essas mudanças, as grades curriculares atualizadas são, de certa forma, mais práticas. “A gente precisava atualizar três questões: a gestão, o jornalismo e o fato de que o jornalismo, inexoravelmente, ia se encaminhar para o digital”, afirma Wagner Borges.

No entanto, antes da implementação das novas diretrizes do MEC, Borges conta que o plano pedagógico do curso já estava sendo pensado desde 2010. Dessa maneira, no primeiro semestre de 2016, foi implementada a nova grade do curso. “Hoje, temos um curso onde é formado um poliglota digital, ou seja, os estudantes têm que estar habilitados a trabalhar em qualquer plataforma. Além disso, vocês precisam ter condições de ser empreendedores”, relata o coordenador.

Segundo Borges, a grade é voltada, principalmente, para que os alunos possam ter o conhecimento suficiente para empreender. “Nós, profissionais, somos praticamente montados para trabalhar nas empresas, mas temos que aprender a não depender delas”, conta. Agora, o estudante, além de ter conhecimentos para fazer o jornalismo de redação, ele pode criar seu próprio empreendimento, se assim preferir.

Futuro da profissão

Todas essas mudanças ocorreram no transcurso dos últimos 18 anos para que o curso se adaptasse às novas exigências do mercado. “Eu acho que o jornalismo caminha para um conhecimento melhor das ferramentas e das linguagens. O jornalista multifacetado, polivalente, é uma tendência que não vai voltar atrás”, opina Eduardo Freire. Por isso,  os estudantes precisam entender as linguagens a partir das tecnologias. Em meio à desinformação causada pelas fake news, o papel do jornalismo atual vem sendo discutido, principalmente, entre os acadêmicos e profissionais da área.

O jornalista, hoje, além de informar, tem a função de mediar as informações ditas nas redes sociais. A professora Kalu Chaves acompanhou esse processo e percebe que “o curso tenta manter esse equilíbrio. Tenta estar próximo ao mercado e tenta, também, incentivar a pesquisa. Não é um caminho fácil, não é nada fácil”. Confira algumas opiniões de professores sobre o futuro da profissão:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php