Praia do Batoque: conheça a história de luta e resistência da comunidade

Por Alice Araújo Lima

O som do movimento constante das águas batendo nas margens do rio foi uma das razões para os moradores batizarem o local de praia do Batoque. Quem vê a reserva na sua quietude, entre vila de pescadores e casas de veraneio, não imagina os mais de trinta anos de luta pelo direito da terra enfrentado pelos nativos. A praia do Batoque, em Aquiraz (Ceará), é desde 2003 uma Unidade de Conservação administrada pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), e se diferencia das outras praias mais conhecidas do município por exibir belezas naturais que cativam pela simplicidade e pelas paisagens preservadas.

Luta e Resistência

Se hoje os habitantes se reconhecem como povos tradicionais e mantém uma relação sustentável com os recursos naturais, isso se deve à perseverança do povo para manter suas terras longe da especulação. “Nós tivemos capela queimada, pessoas foram perseguidas aqui dentro da nossa comunidade”, conta Pedro Hermes, presidente da Associação Comunitária dos Moradores do Batoque. Hoje, aos 26 anos, Hermes tem a responsabilidade de ser líder da comunidade em que nasceu e se criou, defendendo as lutas que começaram muito antes dele nascer. “Graças à luta do nosso pessoal aqui, os mais antigos, nós temos o direito de estar e de garantir o futuro dos nossos filhos”, conta Hermes na entrevista registrada no vídeo abaixo.

 

Por volta da década de 30 as primeiras famílias se instalaram em Batoque, viviam da pesca e da agricultura de subsistência. Nos anos 80, iniciaram-se os conflitos pela posse de terra. Empresários e imobiliárias questionaram o direito dos nativos à moradia. Com a ajuda de pastorais da Igreja Católica, a Associação de Moradores do Batoque foi criada e por mais de uma década enfrentou retaliações de especuladores. O infográfico abaixo conta os mais marcantes acontecimentos dessa história de resistência.

Reserva Extrativista

Criada em 2003 por meio de decreto, a Reserva Extrativista Marinha do Batoque foi a primeira iniciativa nesse sentido no Estado do Ceará. De acordo com a gestora da Resex e representante do ICMBio, Mírian Lucatelli (34), essa categoria de Unidade de Conservação (UC) garante o modo de vida tradicional. “Garante a preservação de sua cultura, de seu modo de vida, sua sobrevivência”, comenta Lucatelli. Durante a entrevista, a gestora deu mais detalhes sobre o que de fato é uma Reserva Extrativista e falou sobre a importância da conquista da Resex do Batoque para os nativos.

 

Falas da comunidade

Muito além do encanto da lagoa e da beleza da barra do Riacho Boa Vista, é a história do Batoque que destaca os filhos do lugar. Sem a força e união da comunidade, a população não seria hoje reconhecida como extrativista tradicional. São pescadores, marisqueiras, mulheres e homens que fizeram parte dessa trajetória, direta ou indiretamente. Pois quem não participou, herdou a guerra ao ouvirem essa história ser contada desde criança e hoje continuam a lutar para preservar e para conseguir melhorias para a comunidade.

A Professora Anatércia Gomes (44) e a presidente da Associação de Pescadores e Marisqueiras, Audeni Lourenço (43), quando perguntadas sobre as dificuldades da praia atualmente, deram destaque para a carência de políticas públicas. Confira nos áudios abaixo as entrevistas com as duas personagens importantes dessa narrativa que contam suas contribuições na luta pela reserva e também os problemas mais recentes do local.

“Sou professora, nativa da comunidade de Batoque e, desde o início da luta do Batoque, que eu participo”Anatércia Gomes de Oliveira, uma das fundadoras da Associação Comunitária dos Moradores.

“As lutas da gente é constante no dia-a-dia, a gente tá aqui para preservar, para indicar ao visitante o quanto a reserva é importante” – Audeni Lourenço Miranda, presidente da Associação de Pescadores e Marisqueiras do Batoque.

O presidente da Associação dos Moradores reforça a importância de um turismo sustentável para a preservação da praia. “Nosso turismo é um turismo nativo, bem natural, onde a natureza abraça o nosso visitante”, comenta Hermes. As políticas públicas e a segurança são os pontos mais desassistidos na Resex de acordo com os moradores e embora os embates por terra não existam mais, eles deram lugar a esses dificuldades estruturais.

Com a conquista da reserva, o convívio entre os moradores e os visitantes da Praia do Batoque precisou ser exercido de forma respeitosa, obedecendo os limites da Unidade de Conservação. Durante a entrevista no vídeo ao lado, Pedro Hermes conta mais sobre o planejamento do turismo local e como ele é importante para manter a preservação da reserva. Para saber mais sobre a praia do Batoque e as lutas da comunidade, visite a fanpage da Associação Comunitária dos Moradores do Batoque no Facebook.

Confira a matéria editada por Alice Araújo Lima:

Praia do Batoque: conheça a história de luta e resistência da comunidade

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