Uma nova perspectiva na moda cearense

Cintia Martins e Julia Giffoni  

A indústria da moda é marcada por explorar recursos naturais e mão de obra. Na contramão, o mercado e a economia vêm mostrando que novos empreendedores, estilistas e marcas estão buscando o oposto a isso. Eles aplicam os conceitos da economia criativa, a fim de ressignificar guarda roupas com peças feitas para durar a vida toda, sem explorar a mão de obra e o meio ambiente. Assim, geram lucro ao mesmo tempo em que aplicam uma nova cultura na indústria da moda.

No Brasil, a economia criativa já é uma realidade que cresce a cada ano e envolve diversas áreas, inclusive, a moda. Em 2012, um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) mostrou que 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2011 foi produzido pelos setores da economia criativa. De acordo com o órgão, o PIB gerado por esse novo formato cresceu quase 70% em dez anos, acima dos 34,4% registrados pela economia brasileira como um todo.

A economia criativa tem como base a inovação e o conhecimento, gerando riquezas a partir da criatividade, sustentabilidade e capital intelectual. O conceito iniciou em 1994 pelo então primeiro-ministro da Austrália, Paul Keating. Em 2015, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e da consultoria EY lançaram um relatório com base em dados da Organização Internacional da Trabalho (OIT) elencando 11 setores como a espinha dorsal da economia criativa. Fazem parte desta lista, indústrias como: televisão, artes visuais, mídia impressa (jornais e revistas), publicidade, arquitetura e games, além da moda.

 

Moda para Mim

No Ceará, em 2011, a economia criativa na moda já dava passos ambiciosos com Renata Santiago, estilista da sua própria marca (Moda para Mim), personal stylist e professora universitária. O projeto pensa além dos clichês da sustentabilidade na indústria têxtil, integrando responsabilidade social e cultural.

Renata Santiago em sala de aula. Foto: Júlia Giffoni

Para Renata, é importante falar da sua origem, nascida em Fortaleza. Por isso, o slogan da sua marca é “Feito no Ceará”. O conceito do projeto surgiu primeiro como um blog, em 2008, funcionando como espaço para falar sobre a moda no estado. “[O blog surgiu] dentro da minha construção do que seria o Moda Para Mim, que é uma ideia, mas também uma empresa, um grupo que está sempre se reinventando. Isso também é um pressuposto da economia criativa. Trabalho a consultoria de imagem dentro da consultoria de peças”, conta.

No seu trabalho de consultoria de imagens, a estilista também ministra cursos que visam trabalhar o feminino. “Eu vejo o quanto as mulheres ainda são massacradas com esse padrão do marido, da família e do que escuta quando criança e adolescente”, afirma. Nesse sentido, a professora e estilista faz uso da sua formação em Psicanálise. “Vem um pouco da Renata psicanalista na consultoria de imagem, que trabalho através da fala dessa mulher que ressignifica esse sofrimento, e descobre alegria no vestiário”, diz.

Foto: Júlia Giffoni

A estilista Renata Santiago afirma que é importante para as clientes se reconhecerem nas peças que usam, uma vez que a partir disso são descobertas infinitas possibilidades enquanto indivíduo profissional e pessoal. “Sempre foi algo relacionado a fazer pouco, quando ainda nem se falava em ‘slow fashion’, mas fazer melhor e com o lema de uma roupa para vida toda”, destaca.

Para Renata, a economia criativa também é uma valorização do regional e da cultura local. “Dentro dessa mesma construção, usei tecidos feitos no Brasil, de preferência no Ceará. Fui muitas vezes ao Mercado Central. Então, fiz uma coleção com tecidos de rede, só com fibras naturais, o que é um desafio porque o cearense ainda não absorveu o que é nosso”, desabafa.

Desafios culturais

Renata Santiago. Foto: Júlia Giffoni

Renata Santiago também é integrante do grupo Rotas Estratégicas, da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC). A estilista e outros empresários locais visam pensar estratégias e desafios para o Ceará se posicionar na Indústria da Moda. Para ela, um dos grandes esbarros da economia criativa na moda cearense é o fator cultural. “É um povo caduco culturalmente. A gente tem uma cultura que ainda é muito voltada para o pensamento colonizador, de vangloriar e querer o que vem de fora toda hora. Então, acho que a maior dificuldade é mudar isso”, ressalta.

Uma saída para essa adversidade, segundo a estilista, é criar um espaço de produção de cultura, de editorial aberto para experimentações. “Vamos pensar questões para mudar a cultura do nosso povo, experiências que realmente façam sentido. Eu vejo que muito já tem sido feito, e que, sem dúvida nenhuma, nesses doze anos que eu estou na moda, muitas coisas já mudaram, e estamos avançando. De nada adianta a gente usar uma fibra sustentável se a pessoa vai explorar outro aspecto. Empresarialmente é um esbarro muito grande para mim”, afirma.

Identidade visual

Partindo do amor pela profissão e pelo desejo de contribuir para a construção de novos referenciais masculinos, David Lee, 26, estilista cearense autodidata e um dos vencedores do concurso Novos Talentos QG Reserva, ressignifica em suas coleções a flor como elemento feminino e a presença marcante da cor amarela. O amarelo vibrante e otimista que toma a frente da comunicação de sua marca já é característica referencial na boca de seus amigos, parceiros e clientes. “É assim que a gente vai construindo, já estamos conseguindo ter evasão, sabe? De ter uma pessoa que diz ver o amarelo e lembrar de mim. É inconsciente, a gente vai colocando isso nas pessoas de uma forma consistente”, diz.  

O êxito entre ter um ponto fixo ou não pode ser um fator crucial para quem pensa em construir um novo negócio, ainda mais quando não se tem tantos recursos. No entanto, David desde o início investiu na identidade visual acerca do Instagram, onde gostaria que fosse o primeiro contato com os clientes, fator importante para ele já que se trata de moda, de imagem. A criatividade e o capital intelectual, além de andarem juntos, são a matéria prima para criação e produção de uma marca que queira um negócio inovador. “Como vestir uma pessoa que não acredita na desconstrução?” questiona. David ressalta a importância de conduzir quem trabalha com você, conectando causas, equipamentos, ideias e tudo o que constrói um futuro onde você possa vender a real perspectiva do seu produto.

 

Impacto ambiental

A indústria do vestuário é atualmente considerada a 5ª mais poluente do planeta segundo a WRAP (Programa de ação sobre resíduos e recursos). Portanto, o que vem ganhando a mira de marcas nacionais e internacionais é fazer da moda um negócio mais limpo, sustentável e amigo do meio ambiente. Dessa forma, agrega valores da economia criativa, que visa ser uma moda que não explora o meio ambiente.

No Brasil, já existe uma agenda que visa discutir as possibilidades de se fazer uma moda mais consciente. Em novembro de 2017, por exemplo, aconteceu em São Paulo, a Brasil Eco Fashion Week (BEFW) – 1º Semana de Moda Brasileira Sustentável. O evento objetiva ser uma resposta à crescente procura por um mercado de moda engajado a valores humanos, consciente de consumo e preservação ambiental. Durante o evento, foi apresentado um Índice de Transparência da Moda, relatório da ONG inglesa Fashion Revolution lançado em abril de 2017 que analisou quesitos empresariais de produção.

Idealizado por Claudio Silveira, a principal missão do Dragão Fashion Brasil Festival (DFB) é servir como celeiro para novos talentos e lançar estilistas e marcas comprometidas com uma visão mais autoral. Com o tempo, o DFB assumiu o gosto pela pluralidade e tornou-se um festival multicultural, abraçando 7 novos eixos: música, moda, formação, empreendedorismo, oportunidade, dança e arte. “A economia criativa não está focada só na sustentabilidade esse é um dos focos. Ela, na verdade, vem como uma forma de se criar alternativas de se vender produtos que foram feitos por famílias e pessoas que não tem mais um rendimento tão grande”, afirma Silveira.

Dessa maneira, o DFB abre espaço para pessoas dentro da cadeia produtiva, e também dentro de empresas de marketing e confecção. “Esse é o poder que o dragão impõe. É para que os estilistas quando se apresentarem, procurarem se fortalecer para acompanhar o mercado de trabalho”, ressalta.

O idealizador garante marcar esse encontro de design em um dos espaços de maior visibilidade dentro do festival. O Boulevard Casa do Dragão, são 1.200 m² de área que respira economia criativa com 64 expositores de todos os tipos, como design de roupas, design de artesanatos, de jóias, de quadros, bolsas e  sapatos. “Se você for criativo, você está dentro do Dragão. Conta a criação de um trabalho criativo, a apresentação de forma criativa. Vale mostrar que você é um estilista com foco, com muita criatividade, com pegada autoral e cultural. Você pode ser criativo com plástico, com renda, com tecido, com jeans, o que for!” destaca.

Um dos grandes parceiros do evento é a Enel, que atua na cadeia produtiva das artesãs, por meio do grupo Giro Social. O trabalho visa dar visibilidade aos trabalhos de pequenos artesãos a fim de fortalecer as famílias que são de baixa renda e fazem da economia criativa a sua sobrevivência. “Eu apoio uma loja de pequenos artesãos quando faço uma loja moderna, quando faço o produto vendido se sobressai, fazendo com que o produto fique mais visível”, conta Claudio Silveira.

Confira a matéria completa editada por Cíntia Martins e Julia Giffoni para a disciplina Oficina de Jornalismo 2018.1:

Uma nova perspectiva na moda cearense

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