Consumir se torna um vício da atualidade

Por Letícia Serpa

A cidade de Fortaleza recebeu, neste ano, uma das maiores franquias mundiais de marca de roupa. A loja de departamento foi inaugurada dia 12 de maio com um evento que premiou os 100 primeiros participantes da inauguração, que contou com a presença da blogueira Francine Ehlke. No dia de sua abertura, o espaço liquidou todos os produtos expostos, e os visitantes enlouqueceram com os descontos oferecidos pela marca. Por causa do evento, a loja teve que repor todo o seu estoque.  

Micheline Andrade, 46, psicóloga. Foto: Arquivo Pessoal

Mas, por que fazer um evento deste porte para uma simples inauguração de loja? Segundo a psicóloga Micheline Andrade, 46, o ato de comprar é algo tão importante para os consumidores que, quem coordena isso, aproveita para levar diversão e entretenimento ao público, de tal forma que as questões financeiras passam despercebidas na hora da compra. “Você nunca está comprando somente o produto, e sim, toda a experiência”, explica.  

Além disso, para Andrade, outro fator de suma importância e que, muitas vezes, faz com que pessoas queiram consumir cada vez mais, é a mídia influenciadora que constantemente leva conteúdos sedutores ao comprador. “A mídia tem um poder muito grande, interfere diretamente no desejo da pessoa de consumir. Por isso afeta, em grande parte, crianças e adolescentes que ainda não possuem uma maturidade suficiente para ponderar”, esclarece.

Contudo, a psicóloga revela que o ato de consumir faz parte do cotidiano de cada pessoa, pois é normal achar algo bonito e ter a vontade de adquirir o produto. O problema, na verdade, é quando isso se torna um vício. “Quando você percebe que a vontade de consumir afeta na frequência e na intensidade do ato em si, isso já é uma compulsão”, explica.

“Quando você percebe que a vontade de consumir afeta na frequência e na intensidade do ato em si, isso já é uma compulsão” (Micheline Andrade)

Segundo Micheline, na maioria das vezes, essas pessoas estão tentando preencher vazios interiores, relacionados a outras questões. “Esse consumismo compulsivo vem sempre na tentativa de aliviar a emoção sentida, seja de angústia, tristeza ou ansiedade. Ele vem também, principalmente, como forma de a pessoa ter a sensação de prazer momentâneo que, na ilusão, preenche aquele vazio”, aponta.

Ela afirma que pessoas consumistas a esse ponto, ao possuírem de fato o que desejam, não se sentem realmente felizes. A sensação se assemelha ao uso de narcóticos, pois a pessoa permanece em uma busca constante de algo para preencher um vazio interior. “A felicidade sentida no momento não é plena, pelo o contrário, faz aumentar mais ainda o vazio sentido. Isso se assemelha ao uso da droga, o prazer é instantâneo, mas passa”, compara.

“A felicidade sentida no momento não é plena, pelo o contrário, faz aumentar mais ainda o vazio sentido” (Micheline Andrade)

Ela ainda cita que “pessoas, por exemplo, que consomem apenas roupas de marcas caras, muitas vezes, se sentem mais valorizadas e, consequentemente, mais bonitas. Por isso, o consumo também tem a ver com a identidade de cada pessoa, com a valorização interna que ela sente em relação a si mesma. Normalmente, essas pessoas, além de inseguras, possuem uma auto estima muito baixa”, fala.

Caso

Maria do Socorro Albuquerque, 47. Foto: arquivo pessoal

“Sempre gostei de comprar minhas coisas. Trabalho desde os 12 anos, pois meu sonho sempre foi consumir tudo o que sinto vontade”, é o que conta a professora Maria do Socorro Albuquerque, 47. Ela afirma que se considera uma pessoa ansiosa e isso afeta diretamente no seu desejo de consumir. “A ansiedade aumenta a minha vontade de comprar e, com isso, me satisfazer com a aquisição que eu fizer”, relata.

Ela explica que agora sua compulsão já se encontra moderada, mas que, há algum tempo, ao perder o emprego que tinha anteriormente, se tornou completamente refém do consumo, o que acabou  gerando um distúrbio e a fez querer consumir sem parar. “Eu entrava em uma loja e tudo o que gostava eu comprava em dobro”.

“Foi no momento em que os meus cartões estouraram e foram bloqueados que eu procurei ajuda. Então, fui ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) da minha cidade para me tratar”, narra. Socorro até comenta que foi elogiada pelo psiquiatra por sua decisão espontânea. Ela afirma que até chegou a tomar alguns ansiolíticos para que hoje consuma normalmente. “Compro, mas com moderação”, encerra.

Tratamento

Segundo Micheline, são várias as formas de se ajudar uma pessoa consumista. “Através de acompanhamentos terapêuticos, pela psicanálise ou pela psicologia comportamental, como o psicodrama e a gestalt, podem cooperar no controle da compulsão”, afirma. A profissional fala que, dependendo da técnica, algumas pessoas são ajudadas, porém outras não. “A pessoa precisa primeiro se vincular a um terapeuta, confiar nele, para que isso realmente possa ao longo do tempo e através do vínculo, fazer algum efeito transformador dentro dela”.

E ainda cita que qualquer transformação precisa ser de dentro para fora e não o contrário, pois o processo analítico ajuda a pessoa a desenvolver recursos internos para lidar com as situações de ansiedade, conflito e aflição, que seriam os disparadores para a compulsão. “Essas pessoas precisam ser acompanhadas, pois sozinhas não têm recursos para lidar com isso, caso tivessem, não desenvolveriam a compulsão”.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php