Solidão, espaços urbanos e contemporaneidade

Por Levi Aguiar

Capa do filme. Foto: divulgação

“A falta de comunicação, de desejos, apatia, depressão, suicídios, as neuroses, ataques de pânico, obesidade, tensão muscular, insegurança, hipocondria, estresse e sedentarismo são culpa dos arquitetos e incorporados. Esses males, exceto o suicídio, todos me acometem”. Assim começa o monólogo interior da voz de Martín (Javier Droles). A narrativa de “Medianeras – Buenos Aires na Era do amor virtual” está centralizada na vida dos personagens Martín, Mariana (Pilar López de Ayala), na arquitetura, na modernidade e no crescimento desordenado da cidade de Buenos Aires.

“Há mais de dez anos, sentei em frente ao computador e tenho a sensação que nunca mais levantei”, relata Martín, que vive de construir websites. Ele tinha uma namorada, mas ela se mudou para os Estados Unidos e nunca mais voltou, deixando com ele sua cachorrinha. Para ele perder o medo da cidade, seu psiquiatra sugere que se dedique a tirar fotografias, pois esta seria uma maneira de redescobrir a capital, as pessoas e procurar a beleza, mesmo onde ela não existia.

“Há mais de dez anos, sentei em frente ao computador e tenho a sensação que nunca mais levantei” (Martín)

A outra personagem é Mariana, formada em arquitetura, porém nunca exerceu a profissão e atua como como vitrinista. “Tarde, como sempre, percebi que era eu na vitrine. Como um manequim. Imóvel, silenciosa e fria”. Ela rompe um relacionamento de quatro anos com um rapaz. Quando se desfaz de suas fotos com o seu ex-namorado, deseja que sua cabeça funcione como seu computador, que, com apenas um clique, deleta todas as informações desejadas. Mariana vive em um apartamento cheio de manequins, papelão e outras coisas relativas ao seu trabalho. Em alguns episódios de solidão, a personagem conversa e até faz sexo com um dos manequins.

“Tarde, como sempre, percebi que era eu na vitrine. Como um manequim. Imóvel, silenciosa e fria” (Mariana)

“Medianeras” traz consigo a reflexão a respeito das novas identidades que se formam no mundo contemporâneo: o uso excessivo de aparelhos eletrônicos, a incapacidade de lidar com frustrações, a vida adulta solitária e os transtornos psicológicos em ascensão na modernidade.

Relação do homem com a cidade

Cena do filme. Foto: reprodução

A Organização das Nações Unidas estabeleceu o dia 08 de novembro de 1949 como o Dia Mundial do Urbanismo, visando a necessidade haver um planejamento das cidades, pois é papel do urbanista manter o equilíbrio entre as edificações e as áreas verdes, para que a população seja consciente sobre o papel que desempenha na concepção de áreas urbanas.

Ambos os personagens viviam em grandes edifícios divididos em pequenos apartamentos. Umas das primeiras cenas retratadas no filme são as imagens de vários edifícios localizados em Buenos Aires. A película critica a relação das pessoas com os espaços em que elas vivem. A análise pode ser associada ao que a filósofa Hannah Arendt descreveu como “sociedade atomizada”, os indivíduos estão totalmente isolados, sem laços sociais.

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