A vida de quem profissionaliza o ballet

Por Gabriela Ferreira

O mercado para bailarinos profissionais no Ceará é muito limitado, sendo difícil se manter se a única fonte de renda for contratos para se apresentar em algum lugar. Por isso, a maioria dos bailarinos que pretendem viver profissionalmente de dança migram para outro estado e, muitas vezes, para outro país. É o caso da bailarina Renata Arruda, 25, que hoje vive na Romênia. Porém, ela começou seus estudos no Ceará, com 3 anos de idade.

É comum bailarinos procurarem oportunidades em outros países. Foto: Gabriela Ferreira

Ela conta que iniciou o ballet por causa de problemas ortopédicos e que, mesmo continuando na atividade, não pensava em ser bailarina. Nas suas férias, além de fazer cursos em Fortaleza, ela fez vários outros ao redor do Brasil, como em Recife, Manaus, Natal, Campinas (SP), São Paulo, Rio de Janeiro, Belém, entre outros. Aos 10 anos, participou do Festival de Joinville e visitou o Bolshoi, famosa escola de ballet da Rússia. “Na verdade, eu mal lembro desse acontecimento, mas minha mãe me disse que peguei a ficha de inscrição do Bolshoi e levei pra Fortaleza, e disse para meu pai: ‘Por favor, preenche que quero ir pra lá, lá é meu lugar!’”, diz.

Depois de passar pelo Bolshoi, Renata voltou para Fortaleza e, aconselhada por Madiana Romcy, sua então professora, fez o teste para a Escola Estadual de Danças Maria Olenewa, escola preparatória do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Renata foi aprovada e, dois anos depois, fez o teste para o Teatro Municipal. Ela passou no teste e se tornou a bailarina mais nova já aprovada pelo Municipal, com apenas 16 anos. “Foi aí que minha vida de bailarina passou a se tornar carreira. Passei a ganhar dinheiro vivendo de dança. E no Teatro permaneci 6 anos. Eu já me vi vivendo da dança com 16 anos!”. Ela contou com apoio total da família, do início da carreira no Brasil até a carreira internacional.

Tendo experiência em outros países, Renata conta um pouco sobre como a arte é tratada aqui no Brasil e fora. “Eu acho que no Brasil deveria ter mais condição e oportunidade. Aqui [Europa] as companhias fazem tour internacional. Claro que as companhias privadas fazem, como o grupo “O Corpo” e Deborah Colker, mas as do estado não. As leis, hoje em dia, dizem que artista não tem que ter carteira assinada. É um absurdo!” Segundo ela, em um país com crise, a primeira “coisa” a ser prejudicada é a arte. “Quando se tem crise, se compra pão, não se vai ao ballet. A arte é algo extra, mas é essencial”, afirma.

“Quando se tem crise, se compra pão, não se vai ao ballet”. Foto: Gabriela Ferreira

Preconceitos contra homens

Os obstáculos no mercado conseguem ser ainda maiores quando essa arte é praticada por homens. O bailarino Israel Mendes, 16, conta um pouco sobre como é viver estes obstáculos no dia a dia. “A gente vai sempre sentir esse preconceito. E o que que a gente pode fazer? A gente tem que seguir em frente, vai viver com preconceito na cabeça? Vai ter sempre gente preconceituosa e o que vai adiantar?”, questiona. Para ele, essa situação não vai mudar, por isso, o que importa é se sentir feliz com o que faz.

Os homens sofrem preconceitos por praticarem ballet. Foto: Gabriela Ferreira

Mendes começou a estudar ballet aos 14 anos, mas já praticava outras modalidades de dança, desde os 6 anos. “[Estudava] contemporâneo, hip hop, outras modalidades bem diferentes do ballet. O que você imaginar eu já dancei”. Seu desejo pelo ballet sempre foi presente. Assim como a grande maioria, Israel se profissionaliza como pode, participando de concursos de dança na cidade, incentivado por sua professora, Mainara Albuquerque. Em um desses concursos, Mendes conseguiu uma bolsa para um curso de um ano no Harid Conservatory Ballet School, na Flórida (EUA).

Porém, são muitos gastos, e Israel faz o possível para que seu sonho de estudar fora e melhorar sua técnica dê certo. “Estou fazendo o máximo de esforços para arrecadar bastante dinheiro, estou fazendo vendas, campanhas, rifas. Como eu não tenho muita condição financeira, eu tenho que estar sempre colocando alguma coisa em ação para poder arrecadar bastante dinheiro”, conta.

Além de seus esforços, o dançarino Israel recebe a ajuda de sua professora e sua família para tornar real seu desejo de ser tornar profissional. “Isso é o que a gente [estudantes de ballet] mais quer: seguir sendo bailarino profissional. Temos que ter um investimento”, afirma. Porém, segundo ele, os esforços para se tornar um profissional nessa arte é o mesmo que muitas profissões, como a de medicina. “No palco, em competições, eles não querem saber quantos anos de trabalho você tem, eles só querem que você mostre o que tem de melhor. Você só tem um minuto pra mostrar tudo que sabe no palco. É tudo questão de sacrifício!”, afirma.

Visão do profissional

Apesar das dificuldades, há pessoas no Ceará que tentam disseminar a arte e deixá-la viva e presente para as outras gerações. Há professores que tentam conservar a beleza e a importância da dança e repassar seu valor. A professora e coreógrafa Tereza Passos, que trabalha com dança e tem toda a sua família envolvida no ramo, conta um pouco sobre como é ser divulgadora e conservadora do ballet no estado:

 

Confira a matéria editada por Gabriela Ferreira:

Ballet no Ceará

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