Brasil tem alto índice de mães jovens

Por Sabrina Souza

O Brasil tem 68,4 bebês nascidos de mães adolescentes a cada mil meninas de 15 a 19 anos, segundo um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 23 de março deste ano. A pesquisa também apontou que, entre os países da América do Sul, o Brasil é o quarto em relação à gravidez de jovens. Os índices levam em conta os nascimentos entre os anos de 2010 a 2015.

O Brasil tem 68,4 bebês nascidos de mães adolescentes. Foto: Reprodução

Até o século passado, as meninas se casavam a partir dos 13 anos e aquilo era considerado normal. Naquela época, os remédios contraceptivos eram um grande tabu para a sociedade. Havia uma proibição, no Brasil, de fazer qualquer coisa que impedisse gerar um filho. Mas, em 1965, foi aprovada uma lei, pela Suprema Corte, em que uma mulher já casada poderia usar esse tipo de remédio. Apenas em 1972, foi aprovada a lei que permitia a distribuição de anticoncepcionais para solteiras.

Experiências

Bruna Vieira, 27, foi mãe precocemente, com 17 anos. “Não era uma gravidez planejada. Descobri [a gravidez] quando já estava no 7º mês de gestação. Até então, eu não sentia nada de anormal no meu corpo”. Bruna relata que fez uma ultrassonografia, após sentir dores e descobriu que, por causa da má alimentação, a criança estava abaixo do peso. Porém, encontrava-se totalmente formada e pronta para nascer.

Sua filha nasceu saudável e, hoje, tem dez anos. Quanto aos seus sonhos durante a juventude, “tive alguns planos que não pude realizar no momento, em termo de estudo e profissão”, conta Bruna. No seu caso, a imaturidade foi um desafio. Ela morava com os avós, e diz que “[antes da gravidez] eu não precisava ter responsabilidades com nada. Morava com meus avós, não cozinhava, não lavava, não me preocupava com as compras do mês e nem contas a pagar”.

A maioria dessas gestações são inesperadas pelas jovens. Foto: Reprodução

Em relação ao preconceito dentro do mercado de trabalho, ela afirma que existe, sim. “Há pouco, enviei um currículo para uma loja. O próprio dono me ligou, pois se interessou pelo meu currículo, mas o mesmo perguntou se eu tinha filhos, respondi que sim. Em seguida, perguntou se minha filha não atrapalharia no trabalho. Ficou de me ligar novamente e não ligou”, relata.

Segundo Bruna, “a vantagem [de ser mãe jovem] é que por ser ainda nova, minha filha e as amigas dela me vêem como amiga delas. Às vezes, minha filha chega em casa dizendo que as amigas dela disseram que sou muito legal, participo de brincadeiras, não reclamo de tudo”, aponta.

Para a auxiliar administrativa, Natália Poltronieri, 22, a gravidez não era esperada. “Foi um susto”, conta. Natália teve sua filha Clara, hoje com dois anos, em plena juventude. Para ela, a aceitação da sociedade e inclusão no mercado de trabalho são desafios. Conta que logo no início, após ter sua filha, ninguém queria empregá-la pelo fato de ser mãe jovem e solteira.

Quando descobriu que estava gestante, Natália tinha planos de estudos, que, segundo ela, foi o fato que mais a abalou. Além disso, a jovem conta que sua família ficou dividida em relação à aceitação. Na igreja que frequentava, “os olhos entortaram bastante, mas depois ficou tudo bem”, conta. Sobre ter outros relacionamentos, Natália comenta que “existem muitos caras com preconceito sim, mas eu, até hoje, não me senti aberta para um novo relacionamento”, revela. Entretanto, acredita que a maior vantagem da maternidade jovem é poder acompanhar melhor o crescimento da filha.

Prevenção

O relatório da OMS faz algumas sugestões para reduzir os números de gravidez na adolescência. São ações que podem ser leis ou normas e trabalhos de educação a serem desenvolvidos de forma individual, familiar e comunitária. Confira o infográfico:

Fonte: Organização Mundial da Saúde

 

Para o pedagogo Clayniston Malaquias, as instituições de ensino devem abordar sobre sexualidade. Porém, em geral, “existe uma certa falta de preparo e planejamento com relação a educação sexual. Vejo como atuante na área há 10 anos. Profissionalmente, faltam indicativos reais da eficácia desse assunto na escola. Professores e coordenadores precisam de formação nesta área, indicativos e reais possibilidades de inserção do assunto no meio escolar”, aponta.

“Existe uma certa falta de preparo e planejamento com relação a educação sexual” (Clayniston Malaquias)

Sobre a implicação de uma gravidez na adolescência, o pedagogo afirma que a maioria dos casos são de gestações inesperadas. Portanto, acontecem mudanças bruscas de realidade e aceitação. “Na realidade, é um assunto que precisa ser tratado de forma a remediar algumas situações, como aceitação e não aversão à menina nessa situação. Vejo cada vez mais jovens deixando os estudos, abandonando o plano de formação profissional e familiar para poder lidar com uma questão para a qual não estão, e nem  foram preparadas ou instruídas”, afirma.

Na opinião do pedagogo, a família é a principal fonte de educação. “Baseado em pesquisas sociais, a formação familiar é anterior à qualquer organização política e educacional. A escola deve atuar como uma auxiliar na educação da família”, comenta Clayniston.

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