Coelho Neto, o psicólogo do luto

Por Thomás Regueira

Na vida só temos certeza de duas coisas: nascemos e, consequentemente, vamos morrer. Na sociedade ocidental, muitas pessoas temem a morte, associando-a a algo sombrio, misterioso e que deve ser evitada a todo custo. No entanto, em alguns lugares, a morte é motivo de celebração em homenagem aos que já foram, é o caso do Dia de los Muertos, no México. Ela é inevitável, todos vão morrer um dia.

Quando alguém morre, as pessoas com quem teve algum contato se comovem e entram em processo de luto, que é o conjunto de reações e sentimentos em relação à morte de alguém. Esse período é bastante delicado e, geralmente, marcado pelo sentimento de tristeza. O luto é individual, alguns sabem lidar bem, outros apresentam dificuldades em aceitá-lo. Dependendo de sua gravidade, ele pode desencadear diversos problemas psicológicos. Na famosa obra do escritor William Shakespeare, “Romeu e Julieta”, após Julieta encontrar seu amado morto, se matou em seguida.

Foto de Coelho neto, foto: arquivo pessoal

O profissional do luto

Luiz Coelho Neto, 55, é psicólogo especializado no tratamento de luto e perdas. Ele ajuda as pessoas a lidarem com todos os tipos de luto. “O luto é a quebra do vínculo afetivo que você tem com qualquer pessoa ou situação, até mesmo com trabalho. Ele não vem só por conta do óbito, mas pode vir de um fim de relacionamento, aborto, mudança de cidade ou país e aposentadoria”, afirma.

 

 

“O luto é a quebra do vínculo afetivo que você tem com qualquer pessoa ou situação, até mesmo com trabalho. Ele não vem só por conta do óbito, mas pode vir também de um fim de relacionamento, aborto, mudança de cidade ou país e aposentadoria.” – Luiz Coelho Neto

Coelho Neto nasceu em Juazeiro do Norte, no sul do Ceará, em uma família relativamente grande para os padrões atuais: ele, a mãe, o pai e mais quatro irmãos. Ele declara se sentir muito feliz por fazer parte dessa família e por vir ao mundo por intermédio dela. Em 2009 perdeu o pai, que faleceu de um infarto. “Foi uma grande perda, me trouxe um abalo muito grande, mesmo trabalhando na área [de perdas e lutos]”, relata.

Formado em Administração e em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (Unifor), começou a ter interesse na área do luto durante o curso. Na época, o curso de psicologia não tratava especificamente do tema, fato que o motivou a saber se a área realmente existia e como funcionava. Essas buscas o levaram a fazer uma especialização de dois anos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), na qual tinha um laboratório de estudos exclusivamente sobre o luto. Lá, ele conheceu o Instituto Quatro Estações, que é voltado para o tratamento de perdas, lutos e transformações da vida.

Quando retornou para Fortaleza, inspirado pelo que encontrou em São Paulo, tentou aplicar essas práticas na cidade. O que o levou a criar seu próprio instituto de psicologia em perdas e lutos, o Instituto Ciclo. Ele foi o primeiro profissional a trabalhar com o tema na capital e provavelmente no Estado. “Já havia profissionais que trabalhavam com a tanatologia, compreendida como o estudo da morte, mas sem uma proposta psicoterapêutica”, explica.

Capa do livro A Ida, foto: reprodução

Em 2014, Coelho Neto lançou o livro “A Ida”, onde encoraja o leitor a ter um olhar mais destemido sobre o momento de partida, escrito em linguagem clara e simples para que todos tenham acesso. Ele tenta desconstruir as impressões negativas dos temas envolvendo a morte. Além disso, ressalta a importância do trabalho feito em casa velatórias, agências funerárias e cemitérios.

A importância do seu trabalho

Para além do consultório, ele tamm prepara os funcionários e os diretores desses locais para que façam um trabalho mais humanizado. “Veja, chegar em você para fazer o velório de uma pessoa já é extremamente doloroso e constrangedor, então imagina ser tratado com frieza? É diferente de outros serviços, pois você vai estar se despedindo de alguém querido, é algo normal para os profissionais, mas não para os outros. No meu livro, eu enfatizo que é um trabalho louvável e tem que ser visto como algo especial”, alega. Para ele, é importante que todos saibam que a morte faz parte da vida. “Luto tem que ser chorado e vivido, temos canais lacrimais para lavar a alma e expressar nossas emoções”, pontua.

“Luto tem que ser chorado e vivido, temos canais lacrimais para lavar a alma e expressar nossas emoções.” – Luiz Coelho Neto

Outro trabalho que Luiz Coelho Neto realiza, dentro da perspectiva psicoterapêutica, é o acompanhamento de pacientes em estado terminal e suas famílias. Geralmente eles têm câncer ou estão com a saúde extremamente debilitada e “têm seus dias contados”. Ele conta que enquanto alguns brigam contra a morte, outros estão preparados para encará-la com mais facilidade. “O momento é lindo, é uma paz, eles se despedem dos outros, são almas tranquilas, como se estivessem nascendo para outro momento”, testemunha.

Coelho neto com pacientes e colaboradores, fonte: arquivo pessoal

Durante sua carreira já ajudou muita gente, e foi recompensado com gratidão. Ele comenta que as pessoas se dizem salvas graças ao seu trabalho, o comparando como um anjo disfarçado de gente. Porém, sente-se como alguém completamente normal e, com bastante humildade, ele fala: “sempre digo aos meus pacientes que a força está com eles, sou apenas um facilitador. Como uma garrafa tampada, apenas tiro a rolha que a tampa, não tenho nenhum poder e mérito.”

“Como uma garrafa tampada, apenas tiro a rolha que a tampa, não tenho nenhum poder e mérito.” – Luiz Coelho Neto

Por trabalhar com algo de certa forma incomum, ele já foi questionado diversas vezes sobre a escolha de sua profissão mas, mesmo assim, se sente grato. “É um trabalho que embora pareça mórbido e esquisito, na verdade é extremamente gratificante. Quando conhecemos essa realidade, encará-la e trabalhar na dor dos outros, não somos a mesma pessoa e mudamos”, declara.

Pretensões para o futuro

Em relação aos planos para o futuro do seu trabalho, ele pretende ampliar a atuação do Instituto Ciclo. Ano passado, no Cineteatro São Luís, foi realizado um evento do instituto no qual foi exibido o curta-metragem “Verdade Passageira”, onde a protagonista perde um filho, e também uma apresentação teatral de mães enlutadas. “Eu descobri a cura através da arte fílmica e do teatro. Quero trazer conforto para gente que não teve acesso e não tem como compreender essa dor, que pode ser trabalhada e ser aceita de forma a continuar a vida mesmo com as perdas”, relata.

Confira abaixo uma filmagem do evento.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php