O lugar do autista na sociedade

Por Thomás Regueira

Uma das características mais marcantes do autismo é o déficit social, algo que dificulta muito a interação com outras pessoas. Por causa disso, é muito difícil para eles se incluírem em um círculo social de amigos e trabalhar em grupo. Devido à esses fatores, a importância da família, das instituições de ensino e da sociedade de uma forma geral em se conscientizar acerca do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é essencial para a inclusão social dos portadores do distúrbio. Segundo a psicóloga e psicanalista Silvana Rodrigues de Barros, especialista em tratamento psicanalítico de crianças com autismo e psicose, afirma que a família e as escolas, juntamente com a intervenção de uma fonoaudióloga, psicólogo e de terapias, são imprescindíveis para a progressão do tratamento.

O que é autismo?

Foto: Iara Pereira

O TEA é um distúrbio neurológico caracterizado pelo comprometimento da capacidade de interação social, da linguagem verbal e não-verbal, além de causar comportamento repetitivo e dificuldade de execução de determinadas ações. O autismo é classificado em três níveis: leve, moderado e severo. Dependendo do grau da pessoa, os sintomas e as formas de tratamento são diferentes.

De acordo com o Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão de pesquisa dos Estados Unidos, cerca de uma em cada 100 pessoas nascem com autismo. No Brasil, ainda não há dados estatísticos que calculam quantas pessoas têm TEA, mas estima-se que cerca de 2 milhões de brasileiros são autistas.

O drama de quem convive

“Inclusão só tá no nome” (Adriana Pouichain)

Adriana com Carlos Eduardo. Foto: arquivo pessoal

Adriana Pouchain é mãe do Carlos Eduardo, de cinco anos, criança portadora do TEA. Ela começou a perceber que ele era diferente desde que tinha dois anos de idade, pois falava com ele e parecia que não lhe ouvia. Após vários exames com um otorrinolaringologista, foi visto que a criança poderia ter algum grau de autismo. Logo depois foram em um psiquiatra especializado para fazer o diagnóstico, que confirmou que Carlos Eduardo é autista.

Cadu, como é conhecido, estuda em escola pública, pois muitas instituições não querem recebê-lo. Adriana torce para que um dia alguma escola possa acolhê-lo, mas comenta que a “inclusão só está no nome”. Ela sofre muito preconceito por ser mãe de uma criança autista. “Sofro muito desprezo, sentimento que começa com a própria família. Não há apoio.” O que ela mais deseja é que o filho possa se cuidar sozinho e se sentir incluso na sociedade.

 

A importância das escolas

“Realizar a inclusão de uma criança com autismo não é fácil” (Silvana Rodrigues)

Foto: Lílian Camelo

De acordo com a psicóloga Silvana Rodrigues, as escolas têm buscado se instrumentalizar, treinar e sensibilizar os professores e demais funcionários para acolherem devidamente os alunos autistas. “Realizar a inclusão de uma criança com autismo não é tarefa fácil. Muitos têm boas condições cognitivas, mas necessitam de modificações nas estratégias educacionais para avançaram na escola. A escola tem que ter, além da sensibilidade e do desejo de acolher, recursos técnicos específicos. Isso demanda investimento da escola. No meu trabalho com crianças e adolescentes com autismo, estou em constante diálogo com a escola e com os profissionais e que também os atendem.”

Ela também revela que há um interesse da sociedade em saber como funciona o autismo, porém ainda existem várias visões distorcidas e estereótipos a respeito. “TEA é um transtorno que se apresenta em variados graus de comprometimento. Precisamos saber o grau de comprometimento, dificuldades e potencialidades de cada um. Não existe o autista. Existem pessoas portadores de autismo, cada um tem sua própria personalidade, que depende de um conjunto de predisposições constitucionais, interações ambientes (família, escola, sociedade), motivacionais e emocionais”, explica.

Legislação

Em dezembro de 2012, foi sancionada a lei nº 12.764, que institui uma política nacional de proteção dos direitos da pessoa com transtorno do espectro autista. Essa lei garante que os autistas sejam considerados pessoas com deficiência e passem a ter acesso a todas as políticas de inclusão do governo, entre os principais benefícios está o pleno acesso à educação.

Caso a instituição de ensino recuse a matrícula de um aluno com TEA, ela estará sujeita a multas e, em alguns casos, a perda do cargo. A lei também requer que esse aluno tenha acompanhamento especial caso necessário, sem a cobrança de uma taxa pela instituição.

A importância da participação das universidades

Foto: Lílian Camelo

Segundo o Ministério de Educação (MEC), entre os anos de 2004 e 2012, ingressaram cerca de 900 alunos portadores de alguma deficiência física ou mental no ensino superior, porém apenas 6% deles chegaram a concluir o curso.

Terezinha Joca, coordenadora do Programa de Apoio Psicopedagógico (PAP) da Unifor, comenta que o acesso às universidades pode até ser facilitado quando a pessoa vai se inscrever no Vestibular e coloca que é portadora de alguma deficiência e que necessita de atendimento especial. Ela conta sobre o caso de um vestibulando que fez isso: “A letra dele era muito feia e ninguém entendia, porque ele tinha disgrafia. Então, pediu para fazer a prova no computador e deixamos. Mas, no momento em que ele entra na universidade, os professores não querem mais deixar [usar o computador na hora da prova]. É nosso trabalho sensibilizar o professor, porque é mais que um direito garantido, pois ele passou na prova do Vestibular”, fala.

“Sonho com um dia em que não vai ser preciso falar de inclusão, porque quando falamos a respeito é porque alguém está excluído” (Terezinha Joca)

Foto: Iara Pereira

Ela afirma que a Unifor, especificamente, tem se preocupado muito com o professorado e  procura conversar sobre alunos que eventualmente possam ter autismo ou outros transtornos. O PAP também oferece cursos de capacitação de professores ao longo do ano. Outra crítica que ela faz é que a maioria dos professores não são preparados para exercer a profissão: “Eles são bons profissionais que vão fazer mestrado e doutorado e decidem ser professores. Ninguém trabalha como vai lidar com a inclusão”.

Além disso, o PAP disponibiliza atendimento pedagógico para alunos com deficiências físicas e mentais, entre eles os autistas. Terezinha aconselha que os procurem porque, a partir daí, vão poder entender melhor o aluno e conversar com os professores, coordenação e família para que este possa se sentir incluso dentro do ambiente acadêmico. “Sonho com um dia em que não vai ser preciso falar de inclusão, porque quando falamos a respeito é porque alguém está excluído”, deseja a psicóloga para o futuro da inclusão.

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