Patriotismo de quatro em quatro anos

  Por Levi Aguiar e Marta Negreiros

A Copa do Mundo FIFA, evento esportivo mais importante no cenário futebolístico, será sediada na Rússia daqui a exatamente 19 dias, com o jogo entre a anfitriã e Arábia Saudita. Os confrontos entre as 32 seleções classificadas foram assistidos por 3,2 bilhões de pessoas na edição de 2014, no Brasil, segundo dados divulgados pela Federação Internacional de Futebol (FIFA). O grande alcance da competição causa comoção nacional em muitos países que incorporam o futebol em sua cultura, inclusive no Brasil. Os brasileiros mesmo vivenciando momentos de crises, corrupção, paralisação dos caminhoneiros e o desabastecimento, conseguem esquecer um pouco dos problemas, e se unirem para acompanhar o futebol brasileiro.

​Torcedores de Manaus assistindo ao jogo da seleção nas ruas na Copa de 2014. Foto: reprodução
Ruas pintadas em verde e amarelo. Foto: Delfim Martins

A seleção brasileira é a maior vencedora da Copa, ganhou cinco títulos e nunca ficou fora de nenhuma edição. Por isso, o País sempre é citado como referência nacional e mundial. A tradição é reunir a família e os amigos para assistir todos os jogos da seleção canarinha e vibrar a cada vitória na Copa do Mundo. A relação dos brasileiros com o futebol é íntima e está presente no cotidiano de grande parte da população. Segundo o doutorando em Sociologia, Cláudio Sena, “o esporte no Brasil tem um papel fundamental. A população tem uma ligação muito forte com o futebol e o sentimento de patriotismo, que aflora neste período”, pontua.

 

“O esporte no Brasil tem um papel fundamental. A população tem uma ligação muito forte com o futebol e o sentimento de patriotismo, que aflora neste período” (Cláudio Sena)

A estudante Ianca Moreira, 18, não atua ou acompanha futebol normalmente, mas entra na onda da Copa como o restante do País. “Acho que o esporte une as pessoas. Quando tem Copa, há um clima diferente entre a gente, mais alegre e descontraído, parece que todo mundo é amigo. É como se nos juntássemos para alcançar o mesmo objetivo”, relata. Para a mestre em Comunicação, Mariana Fontenele, “o futebol, aqui no Brasil, consegue superar as barreiras raciais, sociais. Em algum momento, as pessoas se reúnem em torno de um evento esportivo e, no período deste evento,  esquecem essas barreiras”.

“Quando tem Copa, há um clima diferente entre a gente, mais alegre e descontraído, parece que todo mundo é amigo” (Ianca Moreira)

Representações visuais e mercado em torno do futebol

​Universitária que já está resgatando as camisas da seleção. Foto: Juliano Almada

O sentimento pelo esporte e pelo País aflora neste recorte. Algo que é demonstrado, muitas vezes, visualmente. As ruas são pintadas com as cores da bandeira e as pessoas saem mostrando, com orgulho, a camisa da seleção. A estudante Ianca não costuma vestir camisas de clubes ou da seleção em sua rotina normal, mas adota o estilo na Copa do Mundo para se sentir dentro do contexto da época. “Eu acho que a seleção, especialmente quando está ganhando, faz com que o brasileiro sinta orgulho de pertencer a um país que se destaca no futebol. Por isso, quer estampar a ‘brasilidade’ por meio de roupas e acessórios”, afirma.

Sena ressalta a influência das propagandas na construção da identidade do brasileiro na Copa, “neste período, é comum slogans como ‘é hora de ser brasileiro’ se popularizarem, com o intuito que os brasileiros sejam ‘mais brasileiros’”. Ele também comenta sobre o aquecimento do mercado. Neste ano, por exemplo, no período de janeiro até o começo de maio, a procura pela camisa da seleção aumentou cerca de 600% apenas na Netshoes, loja de itens esportivos, segundo dados divulgados pela própria empresa.

Futebol como cultura

Para Fontenele, o futebol, enquanto cultura, está presente em vários momentos da nossa vida, até na hora de falar. “Falamos algumas expressões linguísticas no nosso dia a dia, como ‘chutar’, que virou ‘dar um palpite’ e não ‘chutar a bola’. Outra expressão é ‘suar a camisa’, que significa empenhar-se em algo”, exemplifica. Ela também comenta que no Brasil, “a Copa traz esse sentimento de alegria e festividade, principalmente se a seleção ganhar, já que estamos passando por situações complicadas. Para nós brasileiros, é importante que pelos menos no futebol estamos bem”.

“A Copa traz esse sentimento de alegria e festividade, principalmente se a seleção ganhar, já que estamos passando por situações complicadas. Para nós brasileiros, é importante que pelos menos no futebol estamos bem” (Mariana Fontenele)

Na periferia, crianças veem o futebol como uma possibilidade para mudar de vida e ajudar a família, pois enxergam os jogadores brasileiros como exemplo, já que a maioria também tem origens periféricas e, a partir do esporte, alcançam reconhecimento social e estabilidade financeira. Fontenele argumenta que esse é um aspecto explorado pela mídia no período da Copa, como forma de sensibilizar a população. “Narrativas que são criadas quando, por exemplo, alguns jornais dão destaque a história de vida de alguns jogadores e exploram essa vida pessoal a fim de criar uma identificação do público”, alega.

Gabriel Jesus pintando as ruas para a Copa de 2014. Foto: reprodução

Gabriel Jesus, um dos protagonistas brasileiros na Copa deste ano, está constantemente aparecendo como um destes exemplos. A foto dele há quatro anos, pintando a rua para a Copa no Brasil, viralizou nas redes sociais, colocada em comparação com fotos dele jogando atualmente pela seleção principal. “A mídia está concentrando muita força nele, nessa narrativa do garoto pobre, que dá muita repercussão e abre possibilidades para transformações sociais a partir do esporte”, declara Sena.

Cláudio Sena tem uma visão mais crítica sobre o sentimento de patriotismo e comoção brasileira, “é algo muito efêmero, eu não sei se diz respeito exatamente ao que nós somos. É a ideia da cordialidade brasileira que já foi comprovado sociologicamente, e que nem sempre é tão cordial assim. Do jeito que a gente ama a seleção brasileira com toda força enquanto ela ganha, na primeira derrota ela passa a ser extremamente odiada”, fala. Ele também diz que o samba e o futebol são aspectos com os quais o Brasil vangloria-se de representar tão bem. Apesar de todos os quadros de crise e corrupção, algumas forças sobrevivem, como o potencial artístico e o potencial desportivo do brasileiro.

 

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