O maestro, a trompa e o jazz

Por Mateus Moura

A música está presente no dia a dia da maioria das pessoas. Não é diferente para Robson Lima, trompista e maestro da Big Band Unifor desde 2013. Na época em que ingressou no projeto, não havia referências musicais do jazz no Estado do Ceará. Os músicos estavam carentes de projetos interessantes e de oportunidades de fazer algo diferente. A iniciativa conseguiu alinhar um bom espaço para ensaios, ajuda de custo aos participantes e alguém para ficar a frente, orientar e coordenar os encontros com a vontade dos músicos de tocar. Desde então, a banda virou referência no jazz cearense e só progride.

Instrumento de sopro metálico, trompa. Foto: Mateus Moura

Lima, nascido em Maranguape, começou sua jornada em uma banda local. Não existiam professores no Ceará para ensinar a tocar seu instrumento. “Trompa (sopro metálico) é muito raro no mundo todo. No Brasil, talvez tenham 300 trompistas atualmente. É muito pouco. Aqui no Nordeste, em João Pessoa, Natal, já existem escolas de trompa, têm uma tradição mais antiga. No Ceará, eu fui buscar formação recentemente, há dez anos. Eu pretendo fundar uma escola de trompa aqui, mas é algo que ainda está verde”, comenta.

A alternativa, então, foi buscar festivais, tentar se aperfeiçoar. Em 1999, porém, encontrou Ozéas, seu primeiro professor. Altamente capacitado, Robson Lima destaca a importância de seu primeiro tutor em sua formação instrumental. “Foi um professor espetacular. Ele era o primeiro ‘trompa’ da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Eu nunca havia tido aula de trompa, tocava pouco, da minha maneira. Não existia internet na época, nem vídeo aula no YouTube para ensinar, era difícil”, declara.

Robson regendo em ensaio. Foto: Mateus Moura

Formado no curso de música da Universidade Estadual do Ceará (Uece), encontrou, durante seu período acadêmico, a oportunidade de receber uma bolsa, na França, para fazer uma especialização em trompa. “Enviei meu material para participar da seletiva, eles gostaram e fui aprovado. A duração era de dois anos, mas consegui terminar em um. Voltei para o Brasil em 2012, fiquei um tempo trabalhando com orquestra e um grupo de música barroca”, relata.

Em 2013, por meio da internet, Robson Lima se deparou com a oportunidade de participar de um grupo de big band que a Unifor estava criando. Foi a partir disso que tudo começou. “Fiz a minha inscrição. A concorrência estava bem alta, era apenas uma vaga para regente e coordenador do grupo. Fui aprovado. Eles me disseram que queriam um grupo de jazz, uma banda grande. Foi então que comecei minha trajetória na Big Band Unifor”, conta. Apesar das big bands tradicionais terem como repertório característico o jazz americano, este fator não inibiu Lima de tornar o projeto autêntico. “Isso não nos impediu de fazer coisas nossas, músicas brasileiras, músicas nordestinas, coisas que gostamos de tocar”, comenta.

Com participações em grandes festivais, Lima e sua big band ganharam destaque no festival Jazz & Blues de Guaramiranga, onde, neste ano, foram responsáveis pelo show principal. Formada por 17 músicos, utilizam instrumentos típicos das big bands americanas, com cinco saxofones, quatro trompetes, quatro trombones, piano, guitarra, baixo acústico e bateria.

Big Band Unifor no festival Jazz & Blues de Guaramiranga. Foto: divulgação

Já são cinco anos a frente do grupo. A função exercida por Robson Lima, como maestro, requer muita dedicação e preparação. “Assim como os músicos, existe um trabalho antes de chegar ao ensaio. Cada músico precisa estudar sua parte individual. Enquanto o músico tem a sua parte, o maestro tem a coletiva. A minha função é, antes do ensaio, estudar as partituras para saber o que cada um vai fazer, onde é mais importante os trompetes tocarem mais forte, onde tem um solo, um improviso… Orientar e equilibrar o grupo. Cada um deles sabe ler as partituras, mas eu vou estar equilibrando e dando o ritmo da música”,  explica.

A história das big bands

O som das chamadas big bands marcaram entre os anos 1920 e anos 1950, conhecidos como a era do swing. A música nascida nos guetos negros norte-americanos ganhou força e comandou o ritmo de diversos salões de bailes pelo planeta. Foi, sem dúvidas, a época de ouro do jazz. Com isso, grandes nomes da música surgiram, como Duke Ellington, Glenn Miller, Benny Goodman, Tommy Dorsey, Artie Shaw e Frank Sinatra. Confira:

Infografia: Mateus Moura

Logo, as big bands chegaram ao Brasil. Victor Hugo Santiago, músico, explica como foi a chegada do gênero ao país. “O estilo chegou no início do século XX, ainda se firmando. Se instalou com o veemência depois da Segunda Guerra Mundial, final dos anos 1940 e começo dos anos 1950, pareado com a então Bossa Nova, que vinha crescendo de forma sorrateira, porém promissora”, diz. Os clássicos da música popular brasileira dividiam a preferência com os sucessos de Glenn Miller e Duke Ellington. A grande referência da época no gênero musical das big bands foi a Orquestra Tabajara, que se encontra em atividade até os dias atuais.

Para Santiago, apesar do jazz não ter o mesmo volume de divulgação e exposição na mídia em comparação a outros ritmos, ainda tem seu espaço. “O jazz, que apesar de sofrer as dificuldades da era digital e seus formatos como meio de divulgação e apreciação musical, se fortalece em contrapartida e se encontra aquecido no que diz respeito ao consumo que, outrora, era em bordéis, cassinos, dentre outros ambientes considerados indevidos para muitos. Hoje, pode ser deleitado em cafés, ‘pubs’ e alguns restaurantes da cidade de Fortaleza”, ressalta.

 

Fotos: Mateus Moura

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