Dança: o movimento que traz a mudança

Por Isabella Campos

19 crianças e adolescentes foram assassinados por semana, em 2017, no Ceará, segundo dados do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência (CCPHA). Os lugares mais atingidos por essa situação foram bairros da periferia de Fortaleza, como Bom Jardim, Jangurussu e Barra do Ceará.  Para reverter essas estatísticas, existem projetos sociais ligados a arte e esportes que têm o objetivo de ajudar os jovens a se expressar, se engajar e a aprender a fazer boas escolhas. Foi o caso de Denizio Júnior, bailarino e professor, que abraçou a dança como profissão.

Festival de dança da Edisca. Foto: Reprodução

Nascido em Maranguape, teve seu primeiro contato com a dança urbana em 2007, por meio de um projeto em uma igreja local. No ano seguinte, assumiu a liderança do grupo, que foi eleito por três anos seguidos o melhor grupo coreográfico no festival de talentos da cidade. Esse incentivo à dança, o impulsionou a reconhecer seu espaço e todas as possibilidades que tinha com o seu talento.

“A dança foi um canal que me levou até Deus, que me fez descobrir e entender os propósitos da minha vida”. É assim que Denizio Júnior tentou traduzir em palavras as ações que a dança promoveu na sua vida. “Dança é falar sem dizer uma palavra”, resume Denizio seu sentimento pela dança.

Sua trajetória na dança o levou a ser bailarino bolsista da Academia Vera Passos, no ano de 2015, onde ganhou vários prêmios, como o primeiro lugar no Passo de Arte Norte e Nordeste de 2016. Atualmente, ele reside na Croácia, onde é professor e bailarino do grupo missionário M18International. “A arte transforma a vida. Poder transmitir isso aos outros não tem preço, é renovador e inspirador”, explica.

Os projetos que envolvem a arte da dança como proposta de transformação mostram a sua importância no atual contexto social. Inspirando essas crianças e jovens a cada dia, como a Associação Vidança, que promove o trabalho no Vila Velha; o Instituto Katiana Pena, localizado na área do Bom Jardim, bairro que lidera o ranking de homicídios de adolescentes em Fortaleza; e a Edisca, que trabalha com jovens das áreas mais carentes da cidade.   

Vidança

Associação Vidança, com 37 anos de história, interferindo positivamente na vida de criança, jovens e adultos do bairro Vilha Velha. Foto: Vidança

A Associação Vidança passa o ano de portas abertas para receber novos alunos. Está localizada no bairro Vila Velha, próximo à Barra do Ceará.

O projeto social começou de um desejo de Anália Timbó (fundadora e diretora da associação)  de ajudar e interferir na vida de jovens da comunidade por meio da dança. “Anália passou a ter o desejo de alcançar os jovens da comunidade, como ela foi alcançada na década de 1970 com o SESI”, disse Marina Holanda, assessora de comunicação da Associação Vidança.

Hoje, com 37 anos de história, o Vidança atende 200 pessoas, tendo como função social a transformação e a inclusão por meio da arte. Além da dança como arte principal, a Vidança também oferece outras atividades, como percussão, artes manuais e corte costura. Essa última é oferecida principalmente para as mães incluídas no projeto. “Tudo isso é muito regado de valores humanos”, acentua a assessora.

O Vidança não conta com apoio financeiro governamental e se mantém por meio de participação em editais para investimento em projetos. Também conta com a contribuição financeira de grandes parceiros e já foi contemplado com a parceria do Criança Esperança, programa da Rede Globo e da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), nos anos de 2003, 2008 e 2018.

Instituto Katiana Pena

“Um ponto de transformação, um refúgio, um esconderijo [dessa realidade]” Cibele Araújo, ex-aluna, bailarina e professora do Instituto Katiana Pena, já a 12 anos no projeto. Foto: Instagram
O Instituto Katiana Pena tem como fundadora e diretora, Katiana Pena, ex-bailarina do projeto social Edisca. “Eu queria ser transformada e que essa transformação reverberasse em tudo que eu tocasse”, diz Katiana Pena sobre sua inspiração para o projeto social. O projeto atua em um dos bairros com um dos maiores índices de violência de Fortaleza, o Bom Jardim. O Instituto Katiana Pena abre suas portas durante todo o dia  para o livre acesso da comunidade. “É para sociedade, é para o nosso bairro, não tem motivos para fechar os portões”, explica Cibele Araújo, 20, bailarina e professora do Instituto.

O projeto tem inscrições semestrais e usa a dança como a principal ferramenta de transformação no bairro Bom Jardim. O motivo de sua existência “parte da indignação desse cenário de violência da comunidade, com pouco acesso à educação e outros mecanismos que trabalhassem a transformação”, relata Lucas Lion, bailarino e professor, há 9 anos no projeto. Começou com 120 alunos e hoje abrange 550, entre crianças, jovens e adultos.

Com o custo de vida cada vez mais alto, o Instituto Katiana Pena se sustenta com a ajuda de parceiros, em sua maioria, comerciantes que confiam em seu trabalho. Além disso, promovem bazares e apresentações produzidos pelo corpo de baile do instituto, que se chama “Corpo-Mudança”. Os espetáculos retratam a realidade da periferia. “Sempre pensamos nas ruas, na periferia, na nossa realidade”, conta Jefson Rodrigues, 27, bailarino e professor do instituto. “Nossa dança é a arte da mudança”, completa Lucas.

“Nossa dança é a arte da mudança” (Lucas Lion)

Edisca

Nossa bandeira é a arte e a gente acredita que educa pelos processos da arte” Madeline Abreu, responsável pela Área Social da Edisca. Foto: Reprodução.

Fundado pela bailarina Dora Andrade, a Edisca (Escola de Desenvolvimento e Integração Social para Criança e Adolescente) é uma Organização Não Governamental (ONG) sem fins lucrativos. A organização trabalha para o desenvolvimento de crianças e jovens que se encontram em situação de vulnerabilidade social em comunidades carentes de Fortaleza por meio da dança, e hoje tem capacidade para atender 400 alunos. A Edisca promove esse trabalho há 27 anos e é uma das instituições de arte mais reconhecidas no Brasil.

O projeto de dança é o meio pela qual a Edisca é mais conhecida. Mas esses jovens também têm acesso a outros segmentos dentro da ONG, como os projetos de saúde, psicologia e nutrição no eixo preventivo e educativo. São acompanhamentos importantes para esse alunos, devido às condições de realidade social que muitos se encontram.

“A gente forma bailarinos, mas a gente quer promover desenvolvimento humano, para a pessoa ter condições de conseguir, de alguma forma, fazer boas escolhas”, fala Madeline Abreu, responsável pela área Social da Edisca. O objetivo da instituição é promover o desenvolvimento humano de crianças e adolescentes, visando formar cidadãos sensíveis, criativos e éticos.

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