A presença do machismo na infância

 Por Yasmim Rodrigues

“Eu sempre gostei de dançar e, quando era criança, dançava todas as músicas. Mas quando meu avô me via dançar, ele falava que eu parecia uma menina e que homem não dançava daquele jeito”. A memória do estudante Matheus Garcia, 18, é um fato comum na sociedade brasileira. Segundo uma pesquisa de 2017 feita pela Skol, 72% de 2002 entrevistados admitiram ter feito comentários ofensivos sobre esse assunto. O machismo, porém, está presente nas pequenas atitudes do dia a dia, atingindo até mesmo as crianças. A distinção entre brinquedos de “menina” e de “menino”, por exemplo, é uma dessas situações.

“Para uma criança, tudo é muito inocente. Ela faz as coisas que tem vontade. Ao meu ver, quando você a impede de fazer algo porque não condiz com o que seria ‘normal’, acaba perpetuando um pensamento arcaico para as futuras gerações”, afirma Matheus Garcia. Segundo a psicóloga Christina Montenegro, 66, especializada em Sociologia Política e Cultura, o fenômeno é um conjunto de sequelas do que ela define por “caldo cultural patriarcalista patrimonialista”. “As crianças são iniciadas e guiadas por suas primeiras fantasias sobre os estímulos que recebem. O universo que recebe nossas crianças é ainda patriarcalista patrimonialista”, afirma.

Histórias, como a do estudante Matheus Garcia, são bastante comuns e há casos nos quais a criança não só é reprimida, mas é proibida de realizar alguma atividade que gosta. “Eu estava na aula de Educação Física. O meu professor distribuiu coletes para os meninos jogarem futebol, mas eu disse que queria jogar futebol”, relata a estudante Pietra Georgia, 18. Segundo ela, os meninos não queriam que ela jogasse e o professor concordou com eles. “Ele [o educador] mandou eu ir brincar com as outras meninas”, conta a estudante Pietra Georgia, 18.

“Ele [o educador] mandou eu ir brincar com as outras meninas”, conta a estudante Pietra Georgia. Foto: Reprodução
De acordo com a psicóloga, as crianças percebem essa cultura “dentro da barriga, na primeira respiração, nas sutilezas do dia a dia, nos comportamentos ditos/impostos como sendo ‘de homem’ e comportamentos ditos/impostos como sendo  ‘de mulher’”. Porém, segundo Christina, essa situação não é ruim se a criança não for privada do exercício de senso crítico em seu processo de acolhimento e educação familiar-escolar.

O “perigo” da falta de senso crítico

De acordo com Christina Montenegro, o “perigo” da manutenção do patriarcalismo não está na ideologia de quem recebe e cuida das crianças ainda em nossos tempos. Ele está “na perigosíssima privação de liberdade de escolhas e de expressão de voz própria”, afirma.

“O perigo está, também, na privação da construção de uma identidade própria. Mesmo em um universo patriarcalista, vemos famílias e professores com espaço generoso de ‘transgressão’ às essas ‘regras impostas’, que é o que vem rompendo silêncios sobre o assunto”, diz. Essa “desobediência”, segundo ela, é o que tem feito o mundo andar “lenta e gradualmente” para novas reflexões e expressões humanas.

Consequências

Algumas crianças transgridem as regras quando é permitido. Foto: Reprodução

Segundo Christina Montenegro, algumas crianças transgridem essas “leis”, especialmente quando lhes é permitido. Outras precisam adiar essa desobediência para a puberdade e para a adolescência. Porém, a psicóloga conta que muitas crianças limitam-se a obedecer essas imposições para “garantir uma cota de amor dos adultos envolvidos”.

Por isso, Christina percebe a necessidade de “não abrir mão” da presença da arte e da cultura nos processos educacionais, pois são questionadoras e transgressoras por si mesmas. “A arte pode funcionar como tábua de salvação em muitos casos de crianças sob pressão extrema em sua intimidade”, completa Christina.

Meninos também são vítimas do machismo

“Basta lembrar que ninguém morre mais, adoece mais, é mais ferido, vai mais preso, vai ser mais internado, se suicida mais, que os homens”, lembra Christina. De acordo com ela, a guerra e o filicídio (homicídio do próprio filho) atingem com especial crueldade os meninos. “Meninos são ainda submetidos a rituais de iniciação que matam muitos. Eles são enviados para guerras infindáveis, inclusive porque a indústria bélica planetária está nas mãos das masculinidades que manipulam poder perversamente”, explica.

Os meninos também são afetados pelo machismo. Foto: Reprodução

Comprovando que os efeitos de uma sociedade machista não são sentidos apenas pelas mulheres, os meninos acabam, também, sendo vítimas de repressões. “Eu tenho um primo da idade da minha irmã. Eles sempre brincavam juntos, até que um dia os pais dele proibiram ele de ir para a minha casa, porque ele não podia brincar de boneca, pois era ‘coisa de menina’”, conta a estudante V.I, 17, que não quis se identificar.

Como educar as crianças sem reproduzir discursos machistas?

“Não botar o pé no freio se a filha prefere o futebol ao balé, e não desmaiar se o filho prefere o balé clássico ao jiu jitsu também é bom, claro. Mas creio que as transgressões referentes a esses pontos já estão inoculadas na sociedade. No mais é tempo”, aconselha a psicóloga Christina.

De acordo com ela, dentro de casa, cada um que aspire ser um agente transformador pode começar mantendo-se em atenção reflexiva constante. Esse pensamento deve ser feito não só quanto aos padrões de quem faz as tarefas domésticas, mas também quanto às sutilezas do privilégio patriarcalista constantemente aplaudidas.

Um comentário em “A presença do machismo na infância

  • 24 de maio de 2018 em 18:25
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    Obrigada, e meus parabéns pela oportuna e corajosa matéria! Guardei o link para continuar acompanhando as matérias futuras! Meus aplausos gratos em meu próprio nome, e – por que não? – em nome das Masculinidades e das crianças do Presente e do Futuro.
    Abraços da Christina Montenegro

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