Por que o parto humanizado deve ser prioridade no Brasil

Por Alessandra Baldessar

O padrão de nascimento no país sofreu mudanças consideráveis nas últimas décadas, quando o parto cesáreo se tornou o procedimento mais utilizado para fazer as mulheres darem à luz. De acordo com dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), 85% dos partos na rede privada foram, somente em 2015, cesarianas, contrastando com 40% do sistema público. As recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) são, no máximo, de 15% – fato que fez a organização mandar um alerta para o Brasil no mesmo ano.

85% dos partos na rede particular são cesáreas. Foto: Liliana Leahy

Denise Vasconcelos, especialista em ginecologia geral, cirurgia ginecológica e obstetrícia e medicina ortomolecular e preventiva, acredita que tais mudanças acontecem por inúmeros motivos. “Falta de equipes multidisciplinares, falta de infraestrutura nos hospitais para receber as gestantes de parto normal, entre outras coisas”, considera. Porém, segundo a cirurgiã, os hospitais estão tendo que se adequar à demanda de partos normais, humanizados. “As maternidades públicas já se adaptaram, em estrutura, e as privadas começaram depois, mas também já estão disponibilizando espaços integrados onde essa prática é possível”, relata.

De fato, pela primeira vez desde 2010, o número de cesarianas não cresceu no Brasil, seja da rede pública, seja da privada. Dados do Ministério da Saúde revelaram que, dos 3 milhões de partos feitos no Brasil no período, 55,5% foram cesáreas e 44,5%, partos normais. Ainda, tendo em vista apenas partos realizados no Sistema Único de Saúde (SUS), o percentual de partos normais permaneceu maior (59,8% contra 40,2% de cesarianas). Em 2016, cálculos preliminares indicaram tendência de estabilização do índice, que ficou em torno de 55,5%.

Fonte: Ministério da Saúde.

O problema da cesariana

Mas por que essa preocupação em torno da predileção pela cesariana? “Quando falamos sobre parto humanizado, falamos sobre autonomia da mulher em decidir o que for melhor pra ela e para o bebê, [sobre] respeitar a escolha dela”, explica a doula Barbara Salvani, 29. Doulas são mulheres que acompanham grávidas durante toda a gestação, inclusive na hora do parto, e oferecem apoio emocional e pessoal, auxiliando, por exemplo, com exercícios físicos. “O parto normal é a melhor opção, tanto por conta da recuperação, como pela fisiologia do bebê. Uma cirurgia é necessária [somente] em caso de risco de vida para mãe e bebê. Fora isso, aguardar o momento do bebê é o ideal”, completa.

Príncipe William e Kate Middleton posam para fotos com o terceiro filho na entrada do Hospital St. Mary, em Londres. Foto: Divulgação.

Por exemplo, um mês atrás, no dia 23 de abril, nasceu o seu terceiro filho, o príncipe Louis, e a rápida recuperação de Kate chamou a atenção da mídia e dos internautas brasileiros. Ela saiu do hospital apenas seis horas depois do parto, sorridente e bem disposta, acenando para o público ao lado do marido e com o recém-nascido nos braços.

“Será que a nossa sociedade é tão doentia que não consegue aceitar que a mulher não precisa estar horrorosa, com olheiras, descabelada e fedida após o parto? Que parto pode ser algo prazeroso, algo que dá a mulher êxtase e a deixaria feliz e realizada? Sim, esta é uma realidade de muitas. A realidade da Kate também é de muitas”. Assim enunciou Suzan Correa, 38, obstetriz brasileira que reside na Inglaterra, em uma postagem em seu Facebook sobre o pós-parto de Kate Middleton, duquesa de Cambridge e esposa do príncipe William, segundo na linha de sucessão do trono britânico.

A legislação britânica estipula que, quando não há complicações na hora do parto, as mulheres já podem receber alta em um período de tempo similar. Diferentemente do Brasil, onde, segundo o Ministério da Saúde, o prazo mínimo para liberação nessas mesmas condições é de 24 horas. Após uma cesariana, o mínimo acaba aumentando para 48 horas, embora muitas mulheres continuem no hospital por ainda mais tempo.

Violência obstétrica

A violência obstétrica é um tipo específico de violação dos direitos das mulheres, incluindo o direito à igualdade, a ausência de discriminação, informação, integridade, saúde e autonomia reprodutiva. Ocorre tanto na prática médica pública quanto na privada, durante os cuidados de saúde relacionados à gravidez, parto e pós-parto e é um contexto multifatorial de violência institucional e de gênero. De acordo com uma pesquisa divulgada pela Associação Artemis, organização não governamental (ONG) contra violência doméstica e obstétrica, essas agressões atingem cerca de 25% das grávidas no Brasil.

Um aspecto corriqueiro dessa violência é escutar palavras desnecessárias de médicos e enfermeiros durante o pré-parto e o parto, como mostra o infográfico abaixo.

Fonte: Parto no Brasil.

A agressão também pode acontecer por meio de procedimentos desnecessários, como quando o profissional sobe em cima da paciente e empurra o bebê para baixo, toques vaginais sem indicação e episiotomia, que é um corte que não pode ser feito sem o consentimento da mulher. Segundo Barbara Salvani os números alarmantes de partos cesáreos no país estão diretamente conectados à incidência significativa de violência obstétrica. “O fato de haver esses tipos de violência fez com que as mulheres tivessem muito medo de ‘sofrer’”, afirma a doula. “Medo de ter um parto ‘anormal’, na realidade, é o que mais escutamos como o principal medo das mulheres [em relação à gravidez]”, conta.

A violência obstétrica é a agressão contra a mulher durante o parto. Foto: Reprodução

Além da hostilidade direcionada a mulheres que estão para dar à luz, existem nuances de preconceito contra doulas e obstetrizes (ou, mais comumente, parteiras) nos hospitais brasileiros. Barbara, por exemplo, relatou já ter sido agredida verbalmente, barrada e expulsa desses meios. “Hoje depende muito de alguns profissionais e hospitais, [mas] ainda tem relutância em relação [quanto] a isso”, diz. “Profissionais que têm uma conduta fora dos padrões da humanização podem sim ter mais contrariedade à nossa presença”, completa.

A médica Denise Vasconcelos ressalta a importância dessas mulheres. “As doulas e parteiras são parte essencial do processo”, assegura. “Trazem um olhar experiente que tranquiliza a paciente. [Devem ser] muito bem-vindas em todos os hospitais. Algumas são funcionárias do hospital, outras as pacientes contratam e levam consigo na hora do parto”. Segundo ela, ainda que a obstetrícia seja uma ciência imprevisível, a melhor opção é sempre aquela que mantém a saúde da mãe e do bebê, e isso inclui, inevitavelmente, a saúde mental da gestante.

Serviço

Caso a mulher sofra violência obstétrica, ela pode:

– Denunciar no próprio estabelecimento ou secretaria municipal/estadual/distrital;

– Nos conselhos de classe (CRM quando por parte de profissional médico, COREN quando por enfermeiro ou técnico de enfermagem);

– Pelo 180 ou Disque Saúde (136).

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