O bater das asas de Katiana Pena

Por Isabella Campos

Katiana Pena, 35, hoje coreógrafa, diretora do seu próprio instituto e mãe, pode ser considerada o “bater de asas da borboleta” no meio do caos que é o bairro da periferia onde morou a vida toda, um dos 20 bairros mais violentos de Fortaleza, o Grande Bom Jardim. Segundo a cultura popular de uma teoria do caos, o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e é isto que Katiana tenta fazer todos os dias, com as ações do Instituto Katiana Pena na sua comunidade.

“Jovem Katiana Pena, em sua época de Edisca”. Foto: Arquivo Pessoal/ Instagram

A coreógrafa teve uma infância difícil, cheia das mazelas que a periferia carrega. Ainda muito pequena, com cinco anos de idade, vendia verduras pelas ruas do bairro Bom Jardim, acompanhada da irmã, com o objetivo de ajudar em casa, onde tinha mais sete irmãos sobreviventes, de 19 filhos que dona Maria, sua mãe, teve. Foi em uma dessas andanças pelas ruas do bairro, que a pequena Katiana conheceu o ABC Circo-Escola. Logo se encantou, não só pela mágica do circo ou pela beleza das acrobacias, mas sim porque eles davam “merenda”, impulsionando a garotinha a se engajar naquele projeto social.

A pequena Katiana Pena se encontrou pela primeira vez na arte com a ajuda do projeto social ABC Circo-Escola, onde a menina praticava contorcionismo. Sua estadia no local permaneceu por anos até, na pré-adolescência, a garota humilde conheceu Dora Andrade, coreógrafa e bailarina. A mulher visitava os bairros de classe baixa da cidade para compor seu projeto social com crianças que tivessem aptidão pela dança e vivessem em vulnerabilidade social. A iniciativa era da Escola de Dança e Integração Social para Crianças e Adolescentes, conhecida popularmente como Edisca.   

“Cria da Edisca”

Katiana Pena, como bailarina do corpo de baile da Edisca, no espetáculo Jangurussu (1995). Foto: Arquivo Pessoal

Logo de início, a garota já se deparou com dificuldades: não tinha dinheiro, não tinha roupa e nem o apoio da mãe para fazer o teste, mas Katiana não desistiu porque pensava em um futuro melhor. Não foram tempos fáceis. Faltava o que comer em casa, muitas vezes comia o prato cedido pela irmã para ter forças e dançar. A menina chegou a fazer faxina para continuar trilhando esse sonho.

“Minha permanência na Edisca foi incrível e proveitosa. Foram 17 anos. Entrei criança, fui pré-adolescente, adolescente, jovem, adulta e mãe”. Katiana Pena fala saudosa sobre seus tempos de “cria da Edisca”. Nos anos passados no projeto, aprendeu muito mais do que a arte da dança. Lá, ela aprendeu a se vestir, a usar talheres, não desperdiçar, respeitar os outros e a si mesma. Como profissional, foi do corpo de baile e evoluiu de aluna a professora assistente de coreografia.

Aquela garotinha do projeto circo-escola, conheceu Brasil afora dançando. Esteve em palcos como os de Paris e Áustria mostrando a sua arte, sem nunca esquecer da sua origem. Como bailarina, atuou nos espetáculos: O Maior Espetáculo da Terra (1992); Elementais (1993); Jangurussu (1995); Koi-Guera (1997); Duas Estações (2000) e Mobil is (2003), até que em 2004 ocorreu sua despedida do projeto. Katiana sentiu como se saísse do seu lugar de segurança. “Quando você sai dali [Edisca], você sai pro mundo e se depara com a realidade, vai enfrentar o mundo”, explica a bailarina.

“Quando você sai dali [Edisca], você sai pro mundo e se depara com a realidade, vai enfrentar o mundo” (Katiana Pena)

A arte da mudança

Katiana Pena ministrando aula no Studio de Dança Katiana Pena. Foto: Arquivo Pessoal

“Para onde é que eu vou? Como é que eu vou começar? Como é que começa?” Estas eram perguntas frequentes que passavam pela sua cabeça ao sair da segurança de seu casulo, a Edisca, para começar os próprios projetos e finalmente bater as asas. Resolveu começar pelo seu bairro, tão carente de arte. Em 2007, a bailarina fez o curso de dança do Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ) ser o mais disputado entre  todos os oferecidos naquele ano.

“Eu queria ser transformada e que essa transformação reverberasse em tudo que eu tocasse”, explicou o motivo sobre não sair do Bom Jardim. No ano de 2015, Katiana Pena, criou o seu próprio espaço, o Studio de Dança Katiana Pena (SKP). Com muita dificuldade, buscou apoio de familiares e parcerias de pequenos comércios do bairro e improvisou um salão na casa em que sempre residiu com seu marido e filhos. Assim, passou a trabalhar a dança como arte de mudança no bairro.   

“Ela sempre veio com esse sonho de trabalhar a dança como mecanismo de transformação para nossa comunidade, para nossa realidade, que é o Bom Jardim”, contou Lucas Lion, bailarino e professor, que acompanha Katiana Pena há 9 anos e a tem como inspiração. O projeto inicialmente contou com 120 alunos, entre crianças e jovens. Seus professores auxiliares eram seus alunos no curso de Centro Cultural do Bom Jardim (CCBJ ), que já lhe acompanhavam há anos, fazendo parte, também, do corpo de baile do estúdio de dança, chamado Corpo-Mudança, responsáveis por encenar os espetáculos.

“A gente entendeu que tinha que ser bom em alguma coisa, a gente tinha corpo. Então, vamos potencializar nossos espetáculos para a gente ter espaço”, contou a Katiana, que foi premiada, em 2016, pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão do Ceará (SATED) na categoria coreógrafa. O espetáculo “Travessia” também ficou entre os finalistas da 2ª Edição do Prêmio Brasil Criativo.

“A Rua É Noiz”, espetáculo coreografado por Katiana Pena. Foto: Arquivo Pessoal/Instagram

O espetáculo mais novo, “A Rua É Noiz”, realizou temporada no Teatro José de Alencar, em abril de 2018, com parceria de bailarinos russos do Balé Bolshoi. Os espetáculos promovidos pelo projeto social de Katiana sempre têm a periferia como a principal inspiração. Nesse espetáculo, em particular, chocou pelo contraste com o clássico dos russos.

Em setembro de 2017, o local foi reformado pelo programa Caldeirão do Huck, montando uma melhor estrutura para o trabalho oferecido à comunidade, tomando uma proporção maior e se tornando Instituto Katiana Pena. “O trabalho já existia antes do Luciano Huck, só não a estrutura e tudo que se tem nela. O reconhecimento técnico dos espetáculos já vem de muito tempo, graças a Deus”, gosta de frisar Katiana Pena. Hoje o instituto comporta 550 alunos, entre crianças, jovens e adultos, oferecendo aulas de balé e acompanhamento educacional, permanecendo com os portões abertos durante todo o dia, transformando essas pessoas por meio da arte.

Um comentário em “O bater das asas de Katiana Pena

  • 9 de junho de 2018 em 14:45
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    Em relação à EDISCA, Katiana não saiu em 2004, ela só saiu em 2007. No ano de 2004, participou da montagem do balézão da EDISCA “Demoaná”, em 2005 participou como bailarina do espetáculo “Urbes Favela – Teatro” e em 2006 coreografou o balézão “Urbes Favela – A Grande Dança”
    Todos eles ainda na EDISCA. Katiana saiu de lá, entre 2006 e 2007, quando assumiu as turmas de balé no Centro Cultural Bom Jardim.

    O texto está muito bom. PARABÉNS!!

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