A desconstrução de gênero através da arte

Por Thomás Regueira

Rupaul. Foto: reprodução.

Drag queens são artistas. Em sua maioria, são homens homossexuais que se travestem de figuras e signos femininos, fazem maquiagens e usam roupas bastante extravagantes, como se fosse uma versão exagerada de uma mulher. Enquanto estão montadas, são identificadas pelo gênero feminino. Elas estão presentes em boates LGBTs, shows de humor, no teatro e em diversos outros locais, além de estarem inseridas na cultura popular.

A palavra “drag” é uma abreviação de um termo em inglês que significa “dressed as a girl”, traduzido para o português fica “vestido como uma garota”. O termo também pode significar “arrastar”, pois, antigamente, elas usavam longos vestidos que arrastavam pelos palcos. Além disso, existem os drag kings, que são as mulheres que se vestem como homens, e até os drag queers, pessoas que usam elementos do drag para compor uma figura que não se enquadra nos gêneros feminino e masculino.

Pabllo Vittar. Foto: reprodução

Nos últimos anos, tem se presenciado um grande crescimento na cultura drag tanto no Brasil quanto ao redor do mundo. Algo que era mais restrito ao meio LGBT, agora está bastante mainstream. Uma das razões para essa repercussão foi a ascensão do  reality show americano Rupaul’s Drag Race. Neste programa, várias drag queens competem pelo título de próxima super estrela drag da América e são submetidas a diversas provas como figurino, desfile, atuação, dublagem, entre outras.

Além disso, no Brasil, estão surgindo várias cantoras drags, como Pabllo Vittar, Aretuza Lovi, Gloria Groove e Lia Clark. Depois da música “Todo dia” de Vittar, hit do carnaval de 2017, a cantora maranhense tem ganhado cada vez mais visibilidade e aproveitado da fama para falar sobre temas LGBT e proferir um discurso contra a homofobia.

A geração das drag queens pós Rupaul

Guilherme como Kat. Foto: arquivo pessoal

As drags citadas estão inseridas em um estética derivada de Rupaul’s Drag Race, pois com a grande popularização do reality show, muitas pessoas se sentiram inspiradas, e essa estética foi se formando.

Guilherme Gadelha, 19, estudante de Moda e maquiador, costuma incorporar a Kat, sua drag persona, em determinados momentos. Ele conheceu o reality quando sua irmã o apresentou, desde então se viciou no programa e decidiu experimentar a estética drag. “Comecei em uma festa que uma amiga me chamou para desfilar, mas não sabia me maquiar ainda. Inclusive, uma amiga minha me maquiou no dia”, relembra. Guilherme conta que sua mãe não gostou muito no início porque tinha medo da violência e preconceito, mas hoje o apoia, pede para ver seus looks e já foi em uma festa com ele para ver um de seus desfiles.

Através da Kat, Gadelha consegue expressar o seu lado artístico. “É muito libertador você fazer drag e conseguir expor o que você quer. É muito bom aplicar um pensamento em algo bom (como a arte). Se ajuda uma pessoa, pode ajudar a sociedade em geral”, afirma.

A importância das drags locais

Mei Jinlian. Foto: Dante Oliver

O Jornalismo NIC conversou com a bem-humorada Mei JinLian, uma drag queen de Recife, Pernambuco. Por trás da personagem está Wanderson César, professor de teatro, ator, dançarino e produtor. Ele começou a se montar por causa de sua pesquisa de Trabalho de Conclusão de Curso voltada para o treinamento do ator para a subversão de gênero na cena. Durante o curso, César ficou encantado pelo teatro asiático e pela ópera chinesa, em que muitos homens desempenham papéis femininos. Devido à dificuldade de encontrar material de estudo em português, seu orientador lhe sugeriu que criasse uma drag baseada na ópera chinesa. Assim nasceu Mei Jinlian (bela flor de lótus dourada, em chinês). Confira abaixo uma das performances dela!

 

Wanderson relata que foi bem complicado para a sua família aceitar quando começou a fazer drag. “Quando eu consegui meu primeiro trabalho in drag foi o maior chororô, gente passando mal, a família dizendo que eu tava matando ‘mainha’ por ter que sair de casa montado para ir ao local do trabalho. Novela das 21h perdia fácil, fácil. Cortei vínculos com membros da minha família devido a isso. Hoje minha mãe é super de boa, inclusive me ajuda bastante”, compartilha.

Quando Jinlian foi questionada acerca da popularidade de Rupaul’s Drag Race, ela expôs sua opinião como uma drag local de Recife e que não se encaixa nos “padrões” do programa. Apesar de ser fã do show, ela acredita que tudo tem seus lados negativos e positivos. Embora o programa tenha popularizado a arte drag de certa forma, ela cita diversas coisas ruins que a popularização do reality trouxe, entre elas a cultura da idolatria do corpo perfeito (magro), da utilização de roupas caras e a preocupação de ser esteticamente perfeita, além de abordar a drag como se fosse um “concurso de beleza” e de forma bastante superficial. “Isso causa um impacto pesado no mercado. Este impacto é positivo para as drags bonitas, perfeitas, que se parecem modelos, que podem usar uma fralda e os juízes vão gostar. Isso trouxe um impacto negativo para artistas como eu, que buscam fugir dos moldes ‘rupaulísticos’”.

“A grande drag superstar pode estar na boate local ou no teatro mais próximo delas, basta elas olharem e valorizarem esses artistas!” – Mei Jinlian (Wanderson César)

Com essa análise, Mei Jinlian diz que é importantíssimo que as drags nacionais e regionais sejam apoiadas e divulgadas, pois não existem só as estrangeiras. “Acho que a Pabllo, a Glória, a Aretuza, a Penelopy Jean, a Lorelay Fox e diversas outras que caíram na grande mídia (seja ela televisiva ou na internet), vieram para trazer isso. Para fazer a galera acordar e olhar para dentro do país, acordar para ver que a grande drag superstar pode estar na boate local ou no teatro mais próximo delas, basta elas olharem e valorizarem esses artistas!”.

A representatividade cearense no cenário

O grupo de teatro cearense “As Travestidas” é um dos principais representantes da arte drag e transformista, tanto no estado como no restante do país. Ele é formado exclusivamente por atores e atrizes homossexuais e travestis, e várias de suas apresentações são marcadas pela luta contra o preconceito sofrido pela comunidade LGBT. Para saber mais a respeito clique aqui.

Drag é uma grande contravenção do gênero. É a própria confusão da dicotomia sendo performada.” – Mulher Barbada (Rodrigo Ferreira)

Mulher barbada. Foto: Fabiane de Paula/Diário do Nordeste

Rodrigo Ferrera, ou Mulher Barbada, é  ator, cantor, designer e um dos integrantes do grupo. O artista leva a questão muito a sério. “Drag é uma grande contravenção do gênero. É a própria confusão da dicotomia sendo performada. É uma expressão artística que aproxima o feminino e o masculino, o deforma, o repensa e deixa muito clara a artificialidade da construção dos gêneros na nossa sociedade”, fala.

Além disso, ela fala sobre a importância que uma drag pode ter na sociedade. “Existem muitas formas [de fazer a diferença]: entretenimento, engajamento político, questionamento sociocultural, reflexão sobre espaços sociais, sobre os corpos humanos, as conversas sobre gênero e sexualidade nas discussões de mesa de bar. A drag, hoje, está na linha de frente de uma luta muito árdua que estamos travando contra o conservadorismo e os ditos ‘bons costumes”, conta.

“A arte drag é performática, é uma expressão artística e não está ligada a gêneros.” (Alicia Pietá)

Alicia Pietá. Foto: reprodução

Alicia Pietá, mulher trans, atriz, cabeleireira, maquiadora e também integrante do coletivo “As Travestidas”, conta que as performances drags que fazia no teatro lhe ajudaram na descoberta de sua identidade de gênero.“Com a arte drag, pude experimentar viver, sentir, encarnar em performances as grandes divas, mulheres que sempre admirei. A identificação foi só crescendo, até chegar em um ponto em que o masculino não me pertencia mais. Me montava, performava e depois voltava ao espectro masculino, mas fui a um limite onde eu não aguentava mais carregar essa máscara social e não havia mais necessidade da separação de persona/personagem”, diz.

Origem das drags

Elas surgiram há muito tempo, desde a época do teatro grego no século V a.C., na qual os homens chegavam a interpretar papéis femininos. Algo semelhante ocorreu no teatro do Japão antigo, onde esses personagens eram conhecidos como Kabukis. Já nos anos 80/90, com a ascensão dos meios de comunicação e de políticas sociais pró-LGBT, a cena drag se tornou um fenômeno da cultura popular. Um dos exemplos é o filme “Priscilla, a Rainha do Deserto”, de 1994. No Brasil, nos anos 1990, a cena drag ressurgiu depois do período de repressão da ditadura militar. Entre os principais nomes estão Márcia Pantera e Sylvetti Montilla.

Hoje, não há restrições para a arte drag, segundo Alicia Pietá. Ela reforça que a performance não é restrita a apenas homens gays cis, mulheres cis e mulheres trans. “A arte drag é performática, é uma expressão artística e não está ligada a gêneros”, afirma.

Diferença entre termos LGBT e seus significados

Trans – pessoa que não se identifica com o sexo designado ao nascimento, ou seja, uma mulher que nasceu em um corpo masculino ou um homem que nasceu em um corpo feminino. Hoje já existem tratamentos hormonais e cirurgias para adequar o corpo à verdadeira identidade de gênero da pessoa.

 

Drag Queen – Drag não está ligada à identidade de gênero, é apenas uma forma de expressão artística na qual qualquer pessoa pode utilizar.


Gay/Lésbica – Pessoa que se sente emocionalmente e fisicamente atraída por pessoas do mesmo sexo. Um homem gay, por exemplo, não sente a necessidade de adequar seu corpo ao de uma mulher, diferentemente de uma mulher trans. Existe ainda a possibilidade de uma pessoa transsexual ser gay/lésbica: por exemplo, se um homem trans (homem que nasceu em um corpo feminino) se sentir atraído exclusivamente por outros homens, ele é um homem gay.

 

Ilustrações: Alvim Silveira/Mídia Interativa NIC

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