Chikungunya deixa sequelas em afetados

Por Sabrina Souza

A Secretaria da Saúde de Fortaleza, há um ano, considerou que a capital cearense vivia um surto epidêmico de febre chikungunya. A doença de origem africana deixou mais de 50 mil infectados até o final do ano passado, o que corresponde a 73% dos registros da doença em todo o país, segundo o Ministério da Saúde. A ocorrência começou a aparecer no Ceará no final de 2015, e suas sequelas ainda causam males crônicos e psicológicos. Até este ano, já foram constatados 162 óbitos.

As dores podem ser insuportáveis e persistentes. Foto: Lílian Camelo

A chikungunya é uma doença viral transmitida por mosquitos, detectada primeiramente durante um surto no sul da Tanzânia, em 1952. O nome vem do idioma africano maconde e significa “inclinou-se ou contorceu-se de dor”, referindo-se à aparência dos pacientes. Alguns sintomas da doença, além da febre de cerca de 39ºC e das fortes dores, são náuseas, fadiga e erupção cutânea, distúrbios de sono, déficit de atenção e até  alterações no humor. As dores ocasionadas pela enfermidade, principal sintoma, são extremas e persistentes, e normalmente se localizam em regiões articuladas, principalmente em tendões, joelhos, pés, punhos, etc.

Dentro do espectro clínico, a patologia pode evoluir em três fases: aguda, subaguda e crônica. Após o período de incubação inicia-se a fase aguda ou febril, que dura até o décimo quarto dia. Alguns pacientes evoluem com persistência das dores articulares após a fase aguda, caracterizando o início da fase subaguda, com duração de até 3 meses. Quando a duração dos sintomas persiste além dos 3 meses, atinge a fase crônica e pode vir a causar sequelas para toda a vida.

Relatos

Mesmo depois de um, dois ou três anos de ter contraído a doença, pacientes ainda se queixam de muitas dores e debilidades. “Eu tive a chikungunya em abril de 2017. Sofri muito. Perdi cinco quilos que só pude recuperar de fevereiro para cá [maio], e estou mantendo, mas as dores nos cotovelo, joelhos e pés persistem”, relata a corretora de imóveis, Juliana Coelho, 29. A corretora fala também que, para amenizar as dores, utiliza corticoides, como o prednisona, “para andar normalmente, com firmeza”, comenta.

Perdi cinco quilos que só pude recuperar de fevereiro para cá [maio], e estou mantendo, mas as dores nos cotovelo, joelhos e pés persistem” (Juliana Coelho)

Para a secretária Mayara Almeida, 30, as dores avançaram de estágio e já atrapalham sua vida profissionalmente. “Adquiri reumatismo nas mãos e ressalto que tenho apenas 30 anos, mas quando tive [a doença], ainda tinha 28. Tem dias que não consigo digitar com tanta dor nos dedos. Eles incham com frequência”, aponta Mayara.

Incógnita

Fisioterapia pode amenizar as dores. Foto: Lílian Camelo

Segundo a fisioterapeuta especialista em acupuntura, Ana Cláudia Ferreira, o conhecimento sobre a doença e seu vetor, Aedes aegypti, “são um ponto de interrogação para todo mundo”. “Tem pacientes que relatam ter escutado várias coisas de diferentes de reumatologistas”, comenta Ana Cláudia.

Segundo ela, a chikungunya sofre até seis ciclos de ‘renovação’ dentro do nosso organismo. “Existe um período de latência, de não sentir dor, mas quando menos se espera, as dores voltam e, consequentemente, o consumo de corticoide. E, se você tiver alguma fratura ou doença crônica antes de adquirir a febre da chikungunya, a dor será maior naquele local”. O mosquito é propício nos ambientes tropicais e subtropicais.

Tratamentos

As dores podem ocorrer em lugares diferentes. Foto: Lílian Camelo

A fisioterapeuta Ana Cláudia declara que a “dor crônica, pós-chikungunya, não tem como tratar só um membro. Todo dia é uma dor diferente em um lugar diferente”, conta. Há alguns métodos para a minimização das dores articulares, como, por exemplo, fisioterapia, analgesia e acupuntura, tanto a sistêmica, com uso de agulhas, quanto a auriculoterapia.

O último método citado, a auriculoterapia, foi utilizado pelo Grupo de Atenção Integral e Pesquisa em Acupuntura e Medicina Tradicional Chinesa, GAIPA, em uma ação de extensão do Departamento de Fisioterapia da Universidade Federal do Ceará. Esse método compreende um tipo de acupuntura em pontos das orelhas, no caso para o tratamento da febre chikungunya foi utilizado sementes para atender mais de 100 pacientes com sequelas. “A gente fez um estudo para poder entender melhor a doença. Sobre prognóstico: é muito difícil de falar. É paciência”, explica a doutora.  

Prevenção

Como na dengue e na zika, a forma de eliminar a chikungunya é evitar a proliferação do mosquito transmissor. Para isso ocorrer, é necessário acabar com possíveis criadouros que contém água parada. Eliminar garrafas, sacos plásticos, pneus velhos e vasos que ficam expostos à chuva, além de tampar recipientes que acumulam água como caixas d’água e piscina, são fundamentais para este controle.

Diferença entre dengue, zika e chikungunya. Infográfico: Sabrina Souza

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