“Ganha-pão” online

Por Marta Negreiros

Views, likes, inscritos, alcance e reconhecimento. A vida de muitas pessoas, atualmente, é sustentada por esses fatores, não só como forma de ascensão social, mas também financeira. A geração de youtubers e instagramers ultrapassou o rótulo dessas palavras, que antes resignavam um hobby e agora viraram cargos.

O conceito de influenciador não é novo. Não é de hoje que uma pessoa tem nas mãos o poder de influenciar a vida de outras. Mas nada parecido com o fenômeno que acontece na atualidade. “Com as redes sociais e a facilidade das comunicações, podemos observar uma maior quantidade de influenciadores, que independem de meios tradicionais como a televisão. A grande diferença está aí, na força das redes sociais que consegue propagar de forma muito mais simples e barata”, afirma Mariana Fontenele, professora de Teoria de Comunicação e Mídia da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Ilustração que coloca as duas redes sociais como as que mais detém alcance. Foto: reprodução

O YouTube tem cerca de 1,5 bilhões de pessoas logadas no mundo todo mês, e, 96% da população brasileira que é ativa na internet acessa o site, segundo o relatório Youtube Insights, produzido pela própria empresa, em julho de 2017. De outro lado, o Instagram está presente na vida de 800 milhões de pessoas ao redor do globo, e os Brasil é o segundo país em número de usuários nesse ranking, com 50 milhões de atuantes, de acordo com Vishal Shah, diretor de negócios global do Instagram. Esses números de alcance explicam o motivo pelo qual vídeos produzidos por jovens dentro de seus quartos, sem grande produção, se tornaram meios mercadológicos e fonte de renda para muitas pessoas.

Felix Kjellberg faz vídeos de humor. Foto: reprodução

O sueco Felix Kjellberg, 28, mais conhecido sob o apelido online PewDiePie, recebeu cerca de US$ 12 milhões em 2015, segundo a revista Forbes, apenas com verbas proporcionadas pelos vídeos em seu canal do YouTube. Grande parte desse alto nível de renda vem de campanhas publicitárias anunciadas nos vídeos, que hoje é a forma mais efetiva utilizada pelas agências de publicidade. A escolha de anunciar por meio de um youtuber acontece porque o anúncio é passado de forma interativa e não implícita, o que dá ao público a sensação de receber um conselho ou recomendação de um amigo. Quanto maior o número de seguidores, maior será o interesse de grandes marcas em anunciar seus produtos através de publiposts onlines.  

O alagoano Carlinhos Maia, 24, ganhou espaço nesse mundo no ano passado. De origem simples, faz vídeos mostrando a realidade do cotidiano da vila onde ele mora. Hoje, vive apenas do que produz na internet. Já bateu a marca de 5,7 milhões de seguidores no Instagram e seus stories é um dos mais vistos no Brasil, com cerca de 1 milhão de visualizações todos os dias. O status de influenciador já o proporcionou dois carros, uma casa, uma vida melhor para a família e para os conterrâneos que participam dos vídeos.

Carlinhos Maia em uma das apresentações da peça que viaja todo o Brasil, junto com outros moradores da vila que ele mora. Foto: reprodução

O leque de variedade de assuntos abordados pelos influenciadores online é enorme. Alguns se dedicam a comédia, outros a moda e beleza, vida fitness, futebol, games, estudo ou até mesmo o cotidiano. Para Fontenele, essa segmentação atrai ainda mais os olhos da massa e das marcas para os influenciadores. “O digital influencer tem uma peculiaridade, ele expõe sua vida pessoal e atrela isso ao mundo online de forma específica. O espaço pessoal e de publicidade, por exemplo, não ficam claros”, explica a professora. A identificação do público com essas pessoas é um fator importante para tamanho sucesso. “No YouTube, são histórias reais, de pessoas reais. Porque ser humano é justamente o que mais inspira o próprio humano”, recomenda o relatório do Youtube Insights.

“O digital influencer tem uma peculiaridade, ele expõe sua vida pessoal e atrela isso ao mundo online de forma específica. O espaço pessoal e de publicidade, por exemplo, não ficam claros” (Mariana Fontenele)

Whindersson Nunes recebendo fãs/ Foto: reprodução

Dessa inspiração é que surge o interesse cada vez maior de jovens em ingressar nesse mundo online como forma de sustento. Fernando Otto, 20, estudante de Teatro da Universidade Federal do Ceará (UFC), inspirado por Whindersson Nunes, criou um canal de humor em 2016. “Minha intenção era que o canal crescesse e eu conseguisse me sustentar, não exclusivamente do YouTube, mas do humor em si. Primeiramente YouTube, mas também com stand-up e peças de humor”, afirma.

Otto tinha grandes expectativas no início, mas a grande pulverização de conteúdo nos últimos anos deixou o meio mais seletivo e, entre outros milhares de canais, é complicado fazer o seu se destacar. “Eu tinha certeza que já iria alcançar a fama no meu décimo vídeo. Mas na verdade não é tão simples assim. Se você não tiver um conteúdo nem dedicação para aquilo, você se torna apenas mais um que desistiu no percurso”, declara. Entretanto, ele ainda trabalha nesse sonho, pois acredita no investimento no meio de forma positiva.

“Se você não tiver um conteúdo nem dedicação para aquilo, você se torna apenas mais um que desistiu no percurso” (Fernando Otto)

Cursos

Tata Estanieck divulgando seu curso. Foto: reprodução

A grande procura por maneiras de como se tornar um digital influencer alcançou proporções gigantescas. Hoje, já é comum os cursos onlines e presenciais dedicados exclusivamente a ensinar como se dar bem no mundo da internet e conseguir viver apenas disso. Muitos desses cursos são ministrados por próprios influenciadores, como Tata Estaniecki, empreendedora de uma marca online e instagramer. Recentemente, ela lançou o projeto e a procura vem surpreendendo. Além de publicidade, marketing e aparições em eventos, essas aulas estão se tornando outro meio de influenciadores obterem renda.

Em dimensões ainda maiores, no começo desse ano, o Centro Universitário Brasileiro (Unibra), de Recife, abriu o primeiro curso de graduação em “Digital Influencer no Brasil, e o segundo no mundo, ficando atrás somente da China. O curso tem duração inicial de dois anos e é descrito pela faculdade como uma maneira de preparar aspirantes a influenciadores digitais para gerirem seu próprio negócio na web.

Além do online

​Alguns livros lançados por digitais influencers. Foto: reprodução

O sucesso decorrente da internet acaba tornando os influenciadores pessoas famosas e com fortes fan bases (base de fãs). Para expandir o trabalho, é comum youtubers e instagramers lançarem livros biográficos falando da própria vida, do trabalho ou até mesmo literários, e estes produtos geralmente são bem vendidos, principalmente entre o público jovem.

Não só livros, mas peças teatrais é um ramo cada vez mais comum entre esses influenciadores. Whindersson Nunes, Carlinhos Maia, Lucas Rangel entre diversos outros viajam o Brasil levando seus trabalhos para fora da tela do computador e do celular. Eles também já invadiram as telonas, os filmes, igualmente costumam dar boa bilheteria.

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